Amizade com as pessoas do mundo

Amizade com as pessoas do mundoVivemos numa realidade multiétnica, onde as barreiras culturais tornam-se cada vez mais sutis e frágeis, a possibilidade de um isolamento social parece ser sinônimo de retrocesso e etnocentrismo.

Quem, nesta sociedade da comunicação, pode prescindir de uma interação social? A resposta parece ser: “ninguém”. O problema, todavia, são os inevitáveis efeitos e influências de uma sociedade sobre a outra, de uma pessoa com relação a outra. Como devemos nos portar diante dos novos desafios que a sociedade nos exige? Devemos escolher o isolamento ou o compartilhamento? Que ensinamentos podemos extrair da vida de Jesus para nos ajudar a conviver e partilhar o Evangelho com eficiência nesta geração? Pensemos um pouco sobre estas questões.

Houve uma época em que a tônica dos discursos protestantes era um sentimento de separatismo social e exclusivismo relacional. Em outras palavras, durante anos vivemos, nos arraiais evangélicos, debaixo de uma ditadura do mesmo, onde a ideia de que ser “povo santo” era ser “um povo separado das pessoas do mundo”, moldou a mentalidade de muitos.

Constitui-se assim uma verdadeira lógica do ódio e da reprovação do diferente, o que, evidentemente, demonstrava-se como um paradoxo diante do discurso evangelístico. Pregava-se um ascetismo relacional, onde “crente só podia ser amigo de crente”, enquanto que na prática da evangelização chamávamos o outro de amigo, irmão, amado. Reprovava-se o outro em tudo, até o momento da evangelização, quando para a aproximação do Evangelho era necessário o mínimo de relacionamento.

O padrão relacional de Jesus, entretanto era outro. O Salvador não seguia essa concepção religiosa intolerante. O Cristo encarnado viveu como o mais comum dos homens, e por isso, experimentou as alegrias e dores de constituir amizades.

Durante o período de Sua encarnação Jesus manteve muitos relacionamentos. Definitivamente, Jesus foi um homem de muitos amigos. Diferente da imagem austera e ensimesmada que alguns tentam atrelar a Ele – fazendo-O parecer muito mais um essênio que é um homem comum morador de Cafarnaum –, Ele era alguém muito próximo das pessoas a Sua volta.

Essa perspectiva de conceber Jesus e Seus relacionamentos o torna muito mais humanizado, terreno, real. Como era oriundo de uma região muito pobre e marginalizada, foi natural que Ele identificasse-se com a parcela excluída da Palestina (Mateus 11.19).

Assim como boa parte de todas as pessoas, Jesus manteve relacionamentos com gente que não era bem quista pela sociedade. Por exemplo, Jesus teve amigos que tinham problemas com roubo e desvio de verba pública (Lucas 19.1-10); algumas das amigas de Jesus eram mal afamadas, especialmente com relação a sua integridade moral (Lucas 8.2; João 4.16-27); outros amigos dEle eram proscritos da sociedade, considerados pecadores contumazes (Marcos 2.16).

Essa postura de Jesus de, a despeito das limitações morais e espirituais das pessoas, relacionar-se com elas contradiz uma lógica religiosa muito forte em nossa sociedade até hoje: pessoas cristãs não devem relacionar-se com pessoas não-cristãs. Alguns utilizam até textos bíblicos para fundamentar essa concepção exclusivista. O preferido deles é Tiago 4.4. É claro que Tiago não está tratando de ser amigo das “pessoas do mundo”, mas antes, ser amigo “do mundo”. O que se constitui como inimizade contra Deus é abandonar os padrões de uma espiritualidade sadia para aproximar-se dos desejos e volúpias do mundo (Tiago 4.1-3). Aproximar-se das “pessoas do mundo” tanto é inevitável como necessário para aqueles que são discípulos de Jesus.

Jesus era amigo de muita gente “do mundo”. Isso era mais que esperado, pois afinal de contas, o melhor modo de tornar o Evangelho explícito é por meio do testemunho pessoal manifesto nas relações pessoais no cotidiano. E a amizade de Cristo não era algo fingido, era um sentimento tão sério que ele designou como o ápice de Sua missão e amor a toda a humanidade (João 15.7-15).

Deste modo, pode-se compreender que o problema não é manter relacionamentos com pessoas ainda não alcançadas pelo amor de Deus, mas deixar-se influenciar por elas. Jesus é uma prova viva de que não se deixar manipular por outras pessoas, mesmo por amigos, tanto é possível como é a expectativa do coração do Pai. Jesus viveu entre os pecadores, mas nunca pecou (2 Coríntios 5.21); entre as prostitutas, porém jamais entregou-se à lascívia (Lucas 7.39-50). Ao invés de deixar-se influenciar pela pecaminosidade deles, Ele, por meio de uma vida segundo a vontade de Deus, resgatou pessoas perdidas.

Assim como muitos de nós, Jesus também passou por dificuldades em Seus relacionamentos. Foi traído por amigos, vendido por um amigo, abandonado por todos os amigos. Isso não o impediu de continuar investindo em amizades. É necessário que reconheçamos um fato sobre os relacionamentos que Jesus demonstra por meio de Sua convivência com Seus amigos: se as pessoas não são perfeitas, seus relacionamentos também não serão. Entretanto, as limitações e fragilidades das pessoas não devem nos afastar delas, antes devem nos fazer reconhecer que assim como elas nós também somos repletos de contradições.

Tal como Jesus devemos lançar fora o medo e os preconceitos em nossos relacionamentos. Nossos amigos vão errar, tão certo como nós também falharemos. Pior do que sofrer decepções com amizades é a completa solidão por pavor ou pelo sentimento de autossuficiência.

Cristo não nos salvou para vivermos em uma clausura religiosa, sem contato com as pessoas ao nosso redor. Ao contrário, Ele nos fez luz para iluminar as trevas, sal para doar paladar ao mundo. Nosso lugar, assim como o dEle, é entre àqueles que ainda não conhecem Deus, para através do bom cheiro de Cristo em nós (2 Coríntios 2.15) atrairmos pessoas para um relacionamento vivo e real, não apenas conosco, mas especialmente com aquEle que nos amou primeiro.

Se nos achamos incapazes de manter relacionamentos com pessoas que ainda não possuem Cristo, sem que nossa espiritualidade seja afetada negativamente, isto é prova de que não conhecemos de fato quem é Jesus de Nazaré. Afinal de contas, quem trocaria a salvação por uma noite de bebedeira e prazeres ilícitos, ou quem seria capaz de abandonar a Cristo para abrasar-se com as concupiscências do mundo? Somente quem não permitiu que Jesus seja o centro de sua vida. Alguém que teve uma experiência religiosa, mas não uma relação de comunhão e amor com Deus.

Assim como Jesus, desenvolvamos nossos relacionamentos com todos ao nosso redor. Para os que já têm Cristo, sejamos padrão de santidade e maturidade. Para os que ainda estão em trevas, sejamos o testemunho vivo de que é possível ser cristão, feliz e influente.

O mundo já possui preconceitos e intolerâncias demais, não sejamos nós os propagadores de ódio e rancor, mas pelo contrário, por meio de nossa intimidade com Deus, colaboremos para a construção de um mundo mais justo, como menos radicalismos, onde a amizade possa ser o fundamento das relações entre as pessoas.

Por, Thiago Brazil.

One Response to Amizade com as pessoas do mundo

  1. ERIK DA SILVA ALENCAR disse:

    gostei muito bem esclarecedor,continue assim mais com muito cuidado para nao influenciar nimgen ao mundanismo ne verdade…

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