Ainda há semente sobre o chão, para Israel e para as nações

Ainda há semente sobre o chão, para Israel e para as naçõesA cena transmitida parecia-se, infelizmente, com muitas outras já assistidas. Os repórteres documentavam o tiroteio em curso numa comunidade do Rio de Janeiro. Tentando inibir a ação de traficantes, policiais com eles trocavam tiros, enquanto a população, à luz do dia, improvisava abrigos que a protegesse na tentativa de retorno aos lares. A crueza da ocasião apenas guardava um horror maior em que era comum. O incomum, porém, não tardou a ser percebido por um jornalista. Uma mulher parecendo alheia às circunstâncias, recolhia objetos do chão, sem cuidar no risco que corria. Questionada sobre seu comportamento, explicou – pegava as cápsulas, caídas no chão após o disparo dos projéteis, para vendê-las e, dessa forma, comprara pão para seus filhos.

A visão da mulher e sua fala firme em meio ao perigo trouxeram-me à memória a história de uma certa moabita e de tantos que, igualmente, em algum momento da vida, foram alimentados por aquilo que os outros lançaram fora, como restos. Ruth colheu grãos para alimento seu e de sua sogra. Junto a ela, muitos trabalharam curvados sobre terras alheias, dependentes da misericórdia ou do desleixo dos colheitadores. O chão, quase destinado a ser sepulcro de sementes que, sem cuidados, dificilmente brotariam, passou a ser celeiro dadivoso do pão comido alegremente no final do dia, em casas fartas de gratidão a Deus.

Há pão nas ruas, nos mares, nos lixões, nos depósitos abarrotados de coisas que ninguém mais quer. Há pão num pouquinho de terra que pode abrigar algumas hortaliças. Há pão naquilo que não se desperdiça, bem como naquilo que se doa. Há guarda-roupas repletos de pão enquanto há guarda-comidas vazios. Há pão na decisão de poupar e na prática de ofertar.

Às vezes, tudo que nos falta é olhar para baixo e ver o não visto. Na reportagem intitulada “A revolução que salvou o mundo”, para a revista Veja, o repórter Diogo Shelp, referindo-se ao aniversário da queda do muro de Berlim, escreveu: “Em Berlim, para lembrar é preciso olhar para baixo. As cicatrizes estão marcadas no chão da capital da Alemanha. Discreta, quase imperceptível, uma estreita faixa de paralelepípedos corta uma avenida de asfalto impecável, invade a calçada e desaparece sob a parede de um moderníssimo prédio. Em outros trechos, o maior símbolo da Guerra Fria traz uma mensagem mais direta: placas de metal encravadas no solo com a inscrição ‘Muro de Berlim – 1961-1989’ informam que por ali passava a barreira que dividiu a Alemanha, a Europa, a Terra”. A queda, segundo Shelp, deu-se de forma tão brusca que uma única data, 9 de novembro de 1989, marcou o início de uma nova era. Assim sendo, sua construção foi um marco e sua queda também. Mas, como entender que a barreira de 1378 quilômetros de extensão, com suas 302 torres de controle, 55.000 metralhadoras e 1 milhão de minas terrestres, além de 30.000 guardas tenha se tornado uma ‘cicatriz quase imperceptível’? Certamente, no coração dos familiares das 1000 pessoas que morreram tentando atravessar a fronteira, as marcas são maiores e mais duradouras. Dentre os mortos, 175 faleceram no próprio muro ou na chamada zona norte, enquanto fugiam. Olhado bem, esse chão tem, além das marcas de alvenaria, sangue.

Jesus ensinou-nos a olhar para baixo, em direção ao mesmo chão onde morrem os grãos do sobejo e onde o sangue dos homens é derramado. Ele nos ensinou a perceber que ali também florescem lírios, testemunhas da provisão do Senhor, quer de sustento, liberdade ou dignidade. Para ver, às vezes, é preciso olhar para baixo, na direção de nossos pés outrora pequenos, ao tempo em que éramos meninos. Pois, sim, fomos crianças, nascidas sem outro adorno que não seja graça a vida. O Senhor nos proveu de pão.

Olhando para baixo, arqueólogos encontraram moedas antigas, dos dias de José, algumas com seu nome egípcio em hieróglifos, outra cunhada com a imagem de um bovino, simbolizando o sonho de um faraó sobre o sete anos de vacas magras seguidos de sete anos de vacas gordas. A notícia divulgada por The Middle East Media Research Institute em 24 de setembro último (2008) detalha os resultados pesquisados pelo Dr. Sa’id Muhammad Thaber, autoridade no assunto, a partir de seu pequeno e ao mesmo tempo grandioso achado.

Outro achado de grande importância permanecia até o início de setembro (2009) em mãos de um suíço não identificado. O homem tinha em seu poder uma Bíblia hebraica de quase 500 anos, roubada pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, em 9 de novembro de 1938. A Bíblia de 1516 foi devolvida à biblioteca da comunidade judaica de Viena, numa cerimônia de repatriação ocorrida no Museu de Herança Judaica situado em Nova York, depois que seu possuidor tomou conhecimento da história que envolvia aquele objeto. Foi encontrado pão para Israel.

Jesus contou da alegria de uma mulher ao encontrar a dracma que perdera em sua casa. Narrou do homem que perseverou até achar sua preciosa ovelha. O Senhor, que nos ensinou a olhar para os céus é o mesmo que não nos quer descuidados das pequenas coisas, até das mais frágeis criaturas. Num mundo onde os monumentos de hoje podem tornar-se a pequena marca de amanhã, é bem possível que, no lugar onde alguém nada vê ou apenas vê a morte, alguém veja pão e vida. O descartável pode vir a ser pão e o desprezível, instrumento da graça de Deus.

Por, Sara Alice Cavalcante.

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