A teologia “youtubeana”

A teologia “youtubeana”Durante muitos anos, a comunicação, a informação e o conhecimento estiveram nas mãos de veículos convencionais, tais como jornais, revistas, livros, rádio e televisão. Contudo, com o advento da internet, tais meios tradicionais perderam seu espaço e aqueles que ainda não aderiram à plataforma virtual são considerados arcaicos e ultrapassados. Indubitavelmente, a internet surgiu como uma fonte informativa e consolidou-se de tal forma que seria impensável a sua não existência. Dentro do âmbito da internet muitas e variadas plataformas foram criadas com o objetivo de ser um canal de comunicação, informação, conhecimento e entretenimento. Segundo a Internet Live Stats até o final de 2015 e início de 2016 já existiam mais de 1 bilhão de sites na rede mundial de computadores. Hoje, talvez, seja quase impossível calcular o número de sites existentes, já que a cada minuto um é inaugurado. Até mesmo as redes sociais tem sido uma espécie de fonte informativa. Porém, dentre os bilhões de sites existentes alguns como Google e Youtube acabam por monopolizar a atenção dos navegantes da grande rede. Quem diria que um site de postagem e visualizações de vídeos se tornaria um canal de informação cuja amplitude é mundial. Inclusive estes meios têm sido usados por muitos cristãos a fim de adquirirem conhecimento e informação bíblica.

O advento da internet e principalmente os aludidos sites trouxeram para a era pós-moderna benefícios imprescindíveis. Podemos destacar três. Primeiro lugar, a massificação da informação e conhecimento. Inquestionavelmente o alcance da informação através da internet é maior. O que estava nas mãos de poucos, através dos jornais, revistas, livros, rádios e etc., hoje está ao alcance mundial. Segundo uma pesquisa realizada em 2015 pela International Telecommunications Union (ITU), 3.2 bilhões de pessoas usavam a Internet em todo o mundo naquele ano. No ritmo de crescimento alucinante que estamos presenciando, como não deve estar estes números hoje?! Um maior número de pessoas está sabendo das coisas. Segundo lugar, a rapidez da informação e do conhecimento. Uma informação sai do Oriente e chega ao Ocidente em segundos, através de um clique. Um ato terrorista num país africano é noticiado instantaneamente nos EUA. E em terceiro lugar, a facilidade e comodidade. Tudo pode ser acessado sem sair de casa ou de qualquer lugar do mundo. Recentemente vi uma famosa universidade americana fornecendo cursos online para pessoas de qualquer parte do mundo. Uma verdadeira maravilha! Através de um vídeo podemos aprender sobre algo que talvez levassem anos para descobrir. Contudo, todo bônus tem seu ônus, e isso não é diferente com a internet. A medida que citamos benefícios, podemos elencar malefícios que a rede mundial de computadores acaba causando em relação a informação e ao conhecimento, principalmente nos arraiais evangélicos. Aqui, listei apenas cinco. Primeiro, a superficialidade. Não generalizando, mas a maioria das pessoas que colhem informações e agregam conhecimento exclusivamente por meio do Google e Youtube acabam gerando um conhecimento raso e superficial. Esse conhecimento adquirido de forma rápida e instantânea – às vezes através de um vídeo – acaba produzindo uma falsa sensação de conhecimento. É o tipo de gente que assistiu meia dúzia de vídeos no Youtube e acha que acabou de fazer doutorado. São pessoas que pensam saber de tudo, mas acabam por não saber nada de forma profunda. Assistir um vídeo na internet e pesquisar em sites sobre teologia não lhe torna um teólogo. Segundo, a qualidade. Por vezes o conhecimento e a informação disponibilizados nestes veículos são de baixa qualidade. Terceiro, a construção de uma cosmovisão equivocada. Ao se alimentar de tudo, constrói-se sobre fundamentos falsos. Recentemente fui questionado por um jovem de nossa denominação sobre a nossa confissão soteriológica. Após assistir vídeos de pastores reformados calvinistas ele começou a questionar o arminianismo sem nunca ter estudado as ideias de Armínio. Quarto, a desestruturação doutrinária. Uma acessada no Youtube e veremos uma enxurrada de pseudomestres da Palavra ensinando contra a atualidade do dízimo, fomentando a insubmissão aos líderes espirituais, incentivando o movimento dos desigrejados e espalhando ervas daninhas na lavoura de Deus, causando assim, confusão na mente dos incautos. Não rara as vezes a voz do pastor local ser negligenciada em detrimento daquilo que foi aprendido na internet. Diante desse quadro alarmante o que podemos fazer para construirmos um conhecimento sadio?

Ao estudarmos a Bíblia, veremos que grandes personagens como Daniel e Paulo fizeram da leitura de livros uma fonte de enriquecimento intelectual e apropriação cultural (Daniel 9.2; 1 Timóteo 4.13; 2 Timóteo 4.13). Persista em ler boas obras literárias. Ao assistir ou pesquisar uma posição doutrinária controversa, procure ler os autores que defendem a ortodoxia bíblica e a posição de nossa denominação antes de tomar partido. O estudo formal é também uma forma segura e sadia de crescimento cognitivo. Paulo passou por este processo e isso foi relevante para a sua vida (Atos 22.3). Doutrinado na escola de Gamaliel, Paulo era exímio entendedor da lei mosaica, o que, sem dúvida, colaborou para sistematizar as doutrinas cristãs. O conhecimento adquirido no Google ou Youtube pode agregar, mas não substitui a aprendizagem sistemática e formal.

É nossa responsabilidade conferirmos as informações absorvidas (Atos 17.11). Os crentes bereanos ouviram as boas novas anunciadas por Paulo e buscaram confirmação do conteúdo. Ao assistir um vídeo ou pesquisar algo, avalie segundo o padrão da sã doutrina. Não caia na falácia dos “teólogos youtubeanos” que aparentam serem os descobridores da pólvora.

Aliás, que tal se, ao invés do Youtube ou Google, nós pesquisássemos mais na Bíblia?

Por, Weder Fernando Moreira.

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