A teologia deve dinamizar a missão

A teologia deve dinamizar a missãoEm nosso país, dia a dia ficamos consternados com as notícias de violência, especialmente quando praticada por crianças e adolescentes. A situação tem gerado alto nível de preocupação. Em maio de 2015, no Rio de Janeiro, diversas pessoas foram esfaqueadas em abordagens de assaltos. Mas esse problema é antigo. Os infratores menores de idade sempre existiram.

Atualmente o Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase) é responsável pela reeducação dos menores aprendidos no Estado do Rio de Janeiro. Ele conta com cerca de 1.500 internos, dos quais 95% possuem o ensino fundamental incompleto. Eles são acusados de envolvimento com o tráfico de drogas (41%), roubo (27%) e furto (13%).

De fato, o problema dos chamados ‘menores infratores’ não é apenas da alçada das forças de segurança. Paralelamente, é um problema social, político, que está diretamente ligado com a educação e a economia. Mesmo que tentassem, igrejas, comunidades de fé, pastores e teólogos não podem ignorar a questão. É claro que para lidar com isso teologicamente é necessário uma abordagem interdisciplinar e dialogada com outras ciências.

Se por um lado todos os seres humanos, desde Adão (Gênesis 3.17-19), são responsáveis pelas suas escolhas diante de Deus (e a violência é, sim, um ato de agressão ao próximo feito de maneira livre e consciente), por outro existe, sim, um grau de responsabilidade coletiva (pela conjuntura que chegamos) que recai sobre a sociedade – e a igreja não está isenta disso.

O filósofo Michael J Sandel é um dos defensores dos limites morais da ideia de mercado. Ele advoga que precisamos refletir se além de termos uma economia de mercado queremos ser também uma sociedade de mercado, na qual o ser humano e as relações humanas se “coisificam” e têm seu valor reduzido ao peso da moeda. Podemos afirmar que adolescentes infratores são frutos de modelos de vida e sociedade que temos adotado, onde temos o mercado como um deus que rege as relações humanas e “imola diariamente vítimas propiciatórias”, como diz Roldán (p.159)

Podemos nos perguntar: e as comunidades de fé cristãs? Deveriam se envolver?

Umas das razões que pode explicar essa dúvida ou até mesmo a indiferença de cristãos com essa questão é a popularização da corrente da teologia da prosperidade. Ela altera, conforme afirma Roldán, a perspectiva bíblica de Deus, de Jesus e da igreja. Ao invés de mostrar o Evangelho que foi revelado aos pobres, a ação e a compaixão de Jesus voltada para os marginalizados, doentes, dignos de condenação, alvos de discriminação, ela apregoa um Jesus que garante sucesso material e financeiro.

Porém, em Cristo vemos que o Reino de Deus veio para os pobres, para os que choram, para trazer a justiça e liberdade para os cativos. Não podemos limitar isso aos nossos templos e programações eclesiásticas. Nossa missão é levar a redenção de Jesus, a oportunidade de uma nova vida para todos, inclusive para aqueles que estão debaixo de condenação.

Mas, alguém pode se perguntar o porquê de discutirmos problemas sociais à luz da Teologia. Isso é necessário porque teólogos possuem o desafio de usar seu saber teológico para potencializar o cumprimento da missão em sua igreja local.

Triste é a constatação de que muito do conhecimento teológico produzido em faculdades e seminários serve apenas aos gabinetes, bibliotecas e debates acadêmicos e em nada estão ligados com a realidade social das igrejas locais. Simplesmente, ficam limitados a uma sala de aula e não servem ao asfalto, aos problemas cotidianos e aos desafios sociais e culturais que se apresentam dia a dia.

O fazer teológico pode sensibilizar uma igreja despertando-a para sua responsabilidade frente aos problemas sociais, culturais e políticos do seu entorno. E assim, através do ensino da Palavra, transformar cada crente em um embaixador do Reino de Deus que contribui com o bem, com o amor e com a promoção da justiça em nossa sociedade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ROLDÁN, A. Para que serve a teologia? Londrina: Descoberta, 1999
SANDEL, Michael J. O que o dinheiro não compra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.
http://www.degase.rj.gov.br/quem_somos.asp

Por, Flavianne Vaz.

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