A saúde espiritual da família

A saúde espiritual da famíliaA formação de uma família é um processo amplo, que envolve vários aspectos das relações humanas; e a “revolução cultural e social” é uma realidade que atinge diretamente esta instituição. A história procura revelar como culturas e povos se desenvolveram e interagiram através dos tempos. As comunidades expõem modelos de valores e suas influências são notáveis nos seres humanos. Hoje, a novidade em relação às sociedades antigas está no conceito de “aldeia global”, criado pelo psicólogo canadense Marshall McLuhan. Segundo esse conceito, a facilidade de comunicação e a lógica cambial e mercantil reduziu todo o planeta à mesma situação que ocorre em uma aldeia, isto é, os padrões sociais são facilmente difundidos, e pela primeira vez na história as atitudes humanas locais podem atingir proporções globais em poucos instantes, diferentemente de tempos passados, em que nações guerreavam e suas batalhas demoravam a serem conhecidas por povos vizinhos, por exemplo.

Com o paradigma da aldeia global, os meios de comunicação em massa tornaram-se grandes formadores de conceitos, trazendo , no mundo ocidental a gama de princípios morais e éticos que envolvem a vida humana. A interação entre a religião e a cultura dos povos tem sido objetivo de estudo e pesquisa. No caso particular da fé cristã, formadora de culturas inteiras, ela vive hoje uma crise de identidade, resultado do pensamento utilitarista moderno. Lutero disse que considerado em si mesmo, ou seja, o Espírito Santo, o gênero humano é o reino da divisão, da disputa e do desamor, é um caos confuso de trevas onde nenhum esforço humano poderá livrar o homem de tal condição. Tamanha é a importância de centralizar Deus no seio familiar.

Quanto a importância do cristianismo para a formação de uma sociedade, esta pode ser percebida ao observarmos o que ela tem de melhor, quando o anúncio cristão é solidificado pela prática de seus seguidores; quando isto acontece, toda a comunidade é beneficiada. Portanto, nas relações familiares, não é diferente.

O “Novo Mandamento” (Kainê entolê – João 13.34) integra todos os tipos de pessoas que se dispõem a amar. A comunidade social é onde as pessoas de origens diversas, de idiomas diferentes e de culturas próprias se integram dentro de uma mesma perspectiva, de uma única linguagem que é a do Espírito Santo (Atos 2.42-46). O Novo Mandamento abarca todas as criaturas, de todas as raças e de todas as providências. O caráter e adesão por amor estão acima de qualquer outro conceito. A opção pelo amor fraterno implica diretamente numa outra opção que é a rejeição do mal (1 João 1.5-2, 28). É passar das trevas do mal para a Luz verdadeira que é o próprio Cristo. Mas o que se percebe hoje é o inverso do amor. Famílias e sociedades voltadas para si mesmas, para o individualismo, para o materialismo, hedonismo, pragmatismo, distante dos padrões bíblicos, o que reflete diretamente no comportamento familiar e sucessivamente, nos seus indivíduos, conforme se vê facilmente no convívio diário.

A Sociologia tem procurado entender tal fenômeno, sendo que o sociólogo Bauman (2004, p. 10-14), descreve os relacionamentos pós-modernos como “relacionamentos de bolso”, compostos por pessoas que só estão juntas enquanto convém. Onde não se exige compromisso,, simplesmente usufruem do convívio, “deixando todas as portas abertas” para futuras possibilidades. Esta sociedade substitui o “relacionar pelo conectar”, havendo uma preferência pelas “relações virtuais”, desfrutando a vantagem de sempre que necessário “apertar a tecla deletar”. Para Bauman (2009, p. 7) uma “vida líquida” e a “modernidade líquida”, estão intimamente ligadas. No líquido-moderno “seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para consolidação, em hábitos e rotinas, das formas de agir”. Sendo assim, esta “sociedade líquida-moderna, não pode manter a forma ou permanecer por muito tempo”, instaurando-se uma crise relacional, que reflete diretamente no seio da família, sendo ela cristã ou não.

Bauman (2007, p. 78), ainda fica a questão do medo instaurado nesta sociedade líquida, levando indivíduos a se afastarem uns dos outros devido à insegurança, afirmando que “separar e manter distância se tornam a estratégia mais comum na luta urbana atual pela sobrevivência”. Como explica Bauman (2004, p. 98-99), este comportamento tem raízes mais profundas, ou seja, no “amor líquido”, pois “aceitar o preceito de amor ao próximo é o ato de origem da humanidade”. Ele ressalta a importância do amor próprio, como necessidade primária na sobrevivência, pois, “amar o próximo como a si mesmo, coloca o amor-próprio como um dado indiscutível, como algo que sempre esteve ali”. Princípio este já registrado como mandamento por Jesus em Mateus 19.19 e 22.39 e pelo Apóstolo Paulo em 1 Coríntios 13.

O apóstolo Paulo instrui Timóteo: “Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua sua própria família, negou a fé e é pior do que o infiel” (1 Timóteo 5.8). Mas, o que é cuidar? Segundo o Dicionário Michaelis, é “ocupar-se de; tratar da saúde de; precaver-se de; zelar pelo bem-estar ou pela saúde de; sustentar”. Sendo assim, a recomendação de Deus para todos nós é que nos ocupemos todos os dias em cuidar de nossa família. Que tratemos de todos os detalhes para que nossa família seja saudável. Que zelemos pelos membros de nossa família diariamente, visando ao sustento de nossa integridade (corpo, alma e espírito).

Muitas são as orientações que norteiam o cuidado de uma família, um bom relacionamento conjugal, e que refletem de forma sistêmica reverberando em todos os cantos da casa. A Palavra de Deus é fonte para extrairmos estes recursos. Diante de uma sociedade diluída, precisamos resgatar os princípios sólidos da Palavra de Deus e os aplicarmos em nossas vidas, pois somente assim sobreviveremos à vicissitudes da vida “líquida-moderna”.

Podemos citar algumas bases indispensáveis no fortalecimento de nossos lares: a) tenha Deus e Sua Palavra como fundamento da família; b) ame incondicionalmente cada membro da família; c) respeite e honre seus pais; d) separe tempo semanal para estarem juntos em família; e) integre sua família no trabalho da igreja; f) pratique o diálogo, apreciação e perdão; g) cultive amizade conjugal e filial; h) domine os meios de comunicação e mantenha o diálogo franco; i) desenvolva princípios ético-cristãos em sua família; h) tenha uma vida simples, mas significante. Estes e outros conselhos, quando colocados em prática, fazem a diferença no cotidiano de uma família.

Por, Ivan Tadeu Panicio Junior.

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