A pregação “aos espíritos em prisão”

A pregação aos espíritos em prisãoA morte de Cristo na cruz do Calvário é conhecida como umas das mais cruéis e repugnantes que se tem conhecimento, todavia, tornou-se um marco na história da humanidade. O mundo espiritual sofreu mudanças significativas com a morte do Messias. Além da manifestação da graça de Deus trazendo salvação aos homens, nosso Senhor, durante o tempo em que Seu corpo esteve sepultado, não permaneceu confinado ao sono da morte. Antes, Sua alma santa desceu até as profundezas do Hades, às partes mais inferiores do mundo oculto e, com autoridade e poder, “pregou aos espíritos em prisão” (cf. 1 Pedro 3.19).

Dentre os poucos textos mencionados nas Escrituras que revelam os mistérios insondáveis da transição entre a vida e o destino eterno, este é um dos mais intrigantes. Como já era de se esperar, há muita controvérsia a respeito da presente referência bíblica. Entretanto, é importante ponderar as considerações dos vários autores que se debruçaram a pesquisar sobre o assunto para que se possam extrair melhores esclarecimentos.

Cristo se manifestou glorioso e vencedor, e o que mais Pedro quer nos dar a entender em suas afirmações? O que Cristo anunciou? Quem eram os espíritos em prisão, mencionados na epístola geral do apóstolo? Cabe a nós fazer alusão aos autores, de modo a tornar significante e esclarecido o assunto em questão.

As afirmativas de Pedro

A questão que é nosso objeto de estudo encontra-se na epístola de Pedro, capítulo 3, versículo 19, que declara: “no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão”. Entretanto, para que possamos realizar a exegese do texto referendado, é necessário considerarmos o contexto da epístola.

Em sua Carta, Pedro discorre a respeito da finalidade da morte de Cristo na cruz do Calvário: “levar-nos a Deus”, isto é, trazer o homem de volta à comunhão com o Criador. Por conseguinte, o apóstolo ressalta o propósito e o efeito da morte de Cristo concernente a salvação do homem, sua vida terrestre e, consecutivamente, o juízo que Deus trouxe sobre os filhos da desobediência, aos que não creem na Palavra da Verdade.

A citação de Pedro a respeito de Cristo ter pregado aos espíritos que estavam em prisão, nos quais noutro tempo estavam em rebeldia é um tanto curiosa. O apóstolo relaciona o evento de Cristo aos dias de Noé, quando o patriarca entrou na Arca, ele e sua família, condenando o mundo de sua época que, por conta da incredulidade e desobediência, preferiu os deleites carnais de uma vida dissoluta e distante de Deus (Gênesis 6, 7).

Apesar do texto não deixar claro qual a interpretação deste episódio duvidoso, encontramos outras passagens em que Pedro menciona o juízo de Deus sobre os anjos que pecaram. Em 2 Pedro 2.4 lemos: “Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o Juízo”; e coaduna com a declaração de Judas, irmão do Senhor, que em sua Carta cita: “e aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande Dia” (Judas 6).

De modo que, não podemos deixar de considerar que os anjos que foram desobedientes e negligenciaram o seu principado, foram lançados por terra. Estes seguiram a Satanás na rebelião aos céus, conforme descreve Isaías 14.12-15; Ezequiel 28.1-19; e, por conta disso, tornaram-se causadores dos males mais terríveis ocorridos entre os homens durante os dias que precederam o dilúvio (cf. Gênesis 6). Assim sendo, Pedro nos fornece informações significativas em seu contexto, que devemos considerar, a fim de não cometermos equívocos quanto a este tratado que é tão polêmico entre os estudiosos.

A mensagem que Cristo anunciou

Primeiramente é importante considerar que a mensagem anunciada por Jesus durante o tempo do seu ministério terreno eram as “boas novas”, ou seja, uma palavra que chamava as pessoas ao arrependimento, a fim de que alcançassem a salvação mediante a fé no Filho de Deus. Entretanto, a expressão “pregou”, descrita por Pedro nesta passagem, possui outra conotação. De acordo com o Dicionário Vine, o termo “pregou”, nesta ocasião, “se refere à kerussõ, que significa arauto, ou, em geral, ‘proclamar’” (CPAD, 2009, p. 891).

Neste caso o teor da mensagem proclamada por Cristo consistia em proclamar que “todo poder foi lhe dado em cima no céu e embaixo na terra” (cf. Mateus 28.18). Desde agora, a vitória sobre o pecado e a morte estava garantida. Em apocalipse, o apóstolo João escreveu que Jesus tem nas mãos as chaves da morte e do inferno (cf. Apocalipse 1.18). Porquanto, somente Ele venceu o pecado, o aguilhão da morte, e o inferno (cf. 1 Coríntios 15.57,58).

Cristo nos dá a vitória por meio de Sua morte, e, por conseguinte, é bem possível que houvesse a necessidade que esta vitória fosse notificada em todas as esferas da existência, seja nas trevas exteriores como também nas moradas eternas.

Aos espíritos em prisão

Há muitas interpretações na tentativa de elucidar o que seria o anúncio aos “espíritos que estão em prisão”. Seja para aprovar ou rejeitar, tais possibilidades não devem ser ignoradas, tendo em vista a importância teológica que cada uma delas teve para a época em que foram elaboradas. Essas afirmativas são fundamentais para nossa análise e comparação, pois trazem consigo importantes contribuições no campo do conhecimento.

CHAMPLIN (1979, p. 147), por exemplo, aponta que os Pais da Igreja nos primeiros séculos da era cristã, acreditavam que a mensagem de Cristo havia sido direcionada aos perdidos encerrados no Hades, dando-lhes uma nova chance de salvação:

“[…] Cristo, em sua forma de espírito, no intervalo entre a morte e a ressurreição, visitou o hades para benefício dos perdidos ali encerrados. O Espírito Santo não está em pauta, conforme concordam quase todos os intérpretes, e certamente a pregação não foi através de Noé, durante o período de vida dos homens cujos espíritos mais tarde vieram a residir no hades. Notemos que a ordem é: 1. Os sofrimentos de Cristo; 2. Então a descida de Cristo, como espírito desencorporado (Sig. fora do corpo físico). Seu espírito humano está em foco. Por outro lado, Noé pregou antes dos sofrimentos de Cristo; assim, em sentido algum está em foco a prédica de Noé. Não foi senão no século V D.C (com Agostinho) que esta interpretação veio a lume. Até então, concordava-se unanimemente que Cristo, em sua forma espiritual, desceu ao hades para ter ali um ministério de alguma espécie; e a maioria cria que essa missão foi benéfica”

Realmente, é assustador pensar que Cristo tenha exercido tal prédica, ainda mais sabendo o que as Escrituras Sagradas afirmam a respeito da morte: “E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois disso, o juízo” (Hebreus 9.27).

O autor de Hebreus deixa claro que não é possível que aqueles que morreram sem a salvação, por conta de uma vida de pecado e rejeição da graça divina, possam receber outra vez a chance de serem salvos. Visto que estes estão na mesma condição espiritual em que se encontrava o rico da parábola contada por Jesus em Lucas 16.19-31. Neste caso, fica claro que Jesus Cristo não estava cumprindo nenhuma “obra missionária” na intenção de salvar os que se haviam perdido.

Há outras interpretações para este episódio, como aqueles que acreditam que o Espírito de Deus (ou de Cristo) teria usado Noé para anunciar as verdades da salvação aos homens de sua época. Os que se apoiam neste argumento fazem uso do texto de 2 Pedro 2.5, em que o apóstolo denomina Noé como o “pregoeiro da justiça”. Embora seja verdade que Noé anunciou a justiça, não há nenhuma afirmação nesta ocasião de que o espírito de Cristo tenha se revelado a Noé para pregar o fim de todas as coisas pelas águas.

Como os filhos da desobediência não deram ouvidos à Palavra de Deus, somente Noé e sua família foram conservados com vida ao adentrarem na Arca que Deus havia ordenado ao patriarca construir. E, também, não encontramos em toda Escritura nenhum indício de que a alma dos que se corromperam no período pré-diluviano teriam permanecido em prisões.

De outro modo, o apóstolo Pedro, em sua Carta, faz uso do episódio de Noé para reforçar que da mesma maneira Deus trará o Juízo sobre a Terra. O próprio Jesus também fez uso da mesma comparação ao anunciar como seriam os dias que precederiam a Sua Vinda (cf. Mateus 24.37-39).

E, finalmente, há também aqueles que entendem que, por meio desta “pregação”, Jesus tornou notória às profundezas do Hades, a notícia de Sua supremacia sobre o pecado, a morte e todo o Império das trevas, ou seja, Satanás e seus demônios. Isto é, esta teoria aponta que a “pregação” de Cristo no Hades teve como finalidade proclamar a Sua vitória aos espíritos de anjos caídos e que estão aprisionados aguardando o grande Dia do Juízo.

Como havia notificado no início desta análise, a presente passagem bíblica não é propriedade particular de nenhuma das interpretações aqui mencionadas. Porém, a afirmativa mais considerada dentre os diversos estudiosos sobre o assunto é a que considera tal prédica como o anúncio da vitória de Cristo aos anjos caídos que dantes haviam se rebelado contra a soberania de Deus.

Considerações finais

E, finalmente, dada a importância do evento ocorrido na cruz do Calvário, era de se esperar que as mudanças ocorridas no tempo e espaço não se limitassem somente à esfera natural das coisas ou somente ao fato da reconciliação da criação com o seu Criador. Antes, a morte de Cristo causou efeitos de proporções inimagináveis, até mesmo nas profundezas do abismo.

Apesar do relato de Pedro não estar tão claro quanto gostaríamos que estivesse, não era a intenção do apóstolo que a afirmativa a respeito do anúncio aos “espíritos que estão em prisão” se tornasse objeto de tantas contradições. Antes, a intenção do apóstolo era fortalecer a fé de seus leitores trazendo como exemplo a condenação dos espíritos rebeldes, assim como daqueles que foram desobedientes à vontade de Deus nos dias de Noé.

Por fim, esta é uma importante exortação à vigilância para todos os que aguardam o Dia Glorioso em que o nosso Salvador voltará para buscar os Seus santos e cumprir o Juízo sobre toda carne.

Por, Thiago Santos.

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