A piedade como fonte de lucro

A piedade como fonte de lucroCerta igreja convidou um renomado preletor que dizia ter a “unção financeira” para participar de uma festividade. Informado de que seria o pregador das três noites do evento, o conferencista resolveu falar sobre Gênesis 22. Na primeira noite, fazendo uma “contextualização”, afirmou: “Isaque era o único filho de Abraão, o que ele tinha de mais importante nesta vida. Isaque representa a nossa melhor oferta. Diga para o seu irmão: ‘O que você tem de mais precioso? Qual é a sua melhor oferta?’” Mais ousado na segunda noite, ele disse: “Você mora de aluguel? Esse é o seu Isaque. Você precisa sacrificá-lo. Você é um empresário? Entregue todo o lucro deste mês. Esse é o seu Isaque. Obedeça! Eu sou profeta de Deus para a sua vida”.

Depois de mencionar vários “Isaque”, o conferencista lançou um desafio para a terceira noite: “Amanhã é o último dia da festa. E eu quero ver quem terá ousadia para dar a Deus a sua melhor oferta”. Ele também afirmou que, se alguém não tivesse dinheiro, poderia entregar relógios, alianças, cheques pré-datados, além de parcelar a sua oferta no cartão de crédito. Isso contagiou a todos, e a maioria dos irmãos estava disposta a ofertar o que tinha de melhor, financeiramente falando. Mas o pregador não contava com uma surpresa… Naquela igreja havia um obreiro antigo, muito perspicaz, o qual, diante do que ouvira nas noites anteriores, pedira ao pastor para dar uma rápida palavra antes do pregador.

“Saúdo os irmãos com a Paz do Senhor. Abramos as nossas Bíblias em Gênesis 22”, disse o sábio ancião. Após ler essa passagem, alfinetou: “Deus fez um teste com Abraão, ao pedir o seu único filho. Mas o que mais me chama a atenção é que Abrão levou seu Isaque de volta para casa. Os irmãos entenderam?” Ao som de muitos risos e comentários, o líder da igreja resolveu dar uma palavra à sua congregação: “Irmãos, como disse o nosso decano, Abraão levou o seu Isaque para casa. Nenhum de nós precisa sacrificar o Isaque. Não precisamos entregar nossas alianças e relógios ou deixar de pagar o aluguel para agradar a Deus, pois Ele é piedoso e conhece as nossas necessidades. Dê a sua oferta, mas de modo liberal e voluntário. Vamos ouvir, agora, a exposição da Palavra”.

Chega a hora da mensagem, e o preletor, muito irritado, afirma: “Irmãos, eu estava no hotel meditando e veio ao meu coração outra palavra. Nesta noite quero falar sobre o perigo de tocar nos ungidos de Deus e não ouvir seus profetas. Os incrédulos e desobedientes sempre terão uma vida miserável e desgraçada, pois não têm coragem de entregar sua melhor oferta para mim… Ou melhor, para Deus”.

A história acima (baseada em fatos reais) mostra como muitos “ungidos” se aproveitam da ingenuidade do povo para tirar o seu dinheiro. As estratégias para ludibriar os incautos são muitas: desafios, como “a entrega do Isaque”, vendas de produtos “abençoadores” (sal, óleo, toalhas, fronhas etc), além de falsos ensinamentos, como a “teoria das sementes” – o texto de 2 Coríntios 9 tem sofrido na mão dos eisegetas (e não exegetas) da Teologia da Prosperidade. Os propagadores desse engano afirmam: “Quem planta sementes de laranjas, colherá muitas laranjas. Quem planta dinheiro colherá muito dinheiro. E quem semeia muito dinheiro colherá muitíssimo dinheiro”. Os incautos que acreditam nisso aceitam cada novo desafio dos tais “ungidos”, que, por avareza (2 Pedro 2.1-3 e 1 Timóteo 6.10), pedem valores cada vez mais altos.

Se a “teoria das sementes” fosse mesmo uma lei, deveria funcionar para todos, em qualquer lugar do planeta. E, se isso acontecesse, a miséria do mundo diminuiria drasticamente. Imaginemos a situação de um pobre haitiano que tenha apenas um dólar no bolso. Digamos que, ao se converter, ele “semeie” sua única nota – miraculosamente – receba, depois de alguns dias, cem dólares. Contente, ele resolve “semear” mais dez dólares e, para sua surpresa, ganha mais mil! Em pouco tempo, apesar de toda a miséria à sua volta, ele fica rico. Que testemunho extraordinário! E tudo começou com uma única “semente”! Mas, as pessoas que vivem abaixo da linha da miséria, que sequer têm um dólar para “semear”?

Ao fazermos uma leitura atenta de 2 Coríntios 9, notamos que a lei da semeadura e sega foi apresentada pelo apóstolo Paulo dentro de um contexto de auxílio generoso aos pobres. Ela nada tem a ver com desafios egoísticos para obter prosperidade financeira. O texto de 2 Coríntios 8.1-6 mostra que os macedônios, conquanto pobres, ofertaram do pouco que tinham para socorrer os irmãos de Jerusalém. Quando Paulo estimulou os crentes de Corinto a serem generosos a favor dos mencionados santos, era notório que estes enfrentavam dificuldades (2 Coríntios 9.1-5; Gálatas 2.9, 10 e Romanos 15.25-32). E foi nesse contexto que ele disse aos coríntios: “Aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com fatura, com abundância também ceifará” (2 Coríntios 9.6). Paulo desejava que eles contribuíssem com espontaneidade e alegria, e não por causa do que receberiam em troca.

Se o que nos estimula a ofertar é prioritariamente a generosidade, não precisamos de pressão psicológica. Mas é isso que têm feito os adeptos da “teoria das sementes”, a ponto de um famoso “doutor” norte-americano ter ordenado, há algum tempo, em um programa de TV: “Eu quero que você vá ao telefone, saia da sua cadeira, saia do seu sofá. A obediência retardada se torna uma rebelião”. Tal “sábio”, mostrando o quanto está distante da sabedoria do alto, também afirmou: “Quando você quiser algo que nunca teve, deve fazer algo que nunca fez”. Imagine o que aconteceria se algum incauto resolvesse aplicar esse infeliz bordão como um princípio geral para a sua vida!

A Palavra do Senhor é clara, em 2 Coríntios 9, quanto à primacial motivação do cristão, ao contribuir financeiramente: “Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria” (v. 7). O ensinamento central desse capítulo neotestamentário é o de que a nossa contribuição para a obra do Senhor deve ser generosa, e não interesseira: “aquele que dá a semente ao que semeia, e pão para o alimento, também suprirá e aumentará a vossa sementeira, e multiplicará os frutos da vossa justiça; enriquecendo-vos em tudo para toda a generosidade…” (v. 10-11). Segue-se a “teoria das sementes” é uma grande falácia, haja vista opor-se ao princípio da generosidade, estimulando o crente a contribuir por causa de sua necessidade, egoisticamente, e não por altruísmo.

Como se vê, há muitas estratégias de enriquecimento ilícito sendo empregadas por aqueles que fazem da piedade a sua fonte de lucro. Eles usam “palavras fingidas” (2 Pedro 2.3) e produzem cristãos materialistas, que buscam os seus próprios interesses e ignoram as “coisas lá do alto” (Colossenses 3.1). Espero, sinceramente, que este artigo contribua para abrir os olhos de muitos.

Por, Ciro Sanches Zibordi.

One Response to A piedade como fonte de lucro

  1. Rosana disse:

    Obrigado contribuiu com certeza

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