A perversão da ética e a fé em Cristo

A perversão da ética e a fé em CristoDurante algum tempo, a discussão sobre a ética foi alvo de desinteresse de muitas pessoas, de instituições e do próprio Estado, por parecer (aos olhos de alguns) uma área de atuação de grupos moralistas, em sua maioria religiosos.

O desprezo ou a indiferença das últimas gerações com o tema da moral humana resultou em um vazio de valores generalizado, de modo que cada pessoa e cada família tem dificuldade de saber a diferença entre certo e errado, e assim “cada um faz o que parece reto aos seus próprios olhos”.

Entretanto, diversos acontecimentos de repercussão nacional e internacional têm recolocado em pauta as discussões acerca da moral humana, dos quais destacaremos apenas dois.

O caso da brasileira Catarina Migliorini, 20 anos, que participou de um leilão internacional oferecendo sua virgindade no final de 2012, despertou um debate público sobre temas como prostituição, conduta moral e influência de mercado. Com isso, a sociedade brasileira refletiu sobre seus valores morais e todos que sabiam da notícia se questionavam sobre o que se pode colocar à venda.

Na mesma época, o filósofo Michael Sandel, autor do livro O que o dinheiro não compra, em entrevista à revista Veja, afirmou a diferença entre ter uma economia de mercado e ser uma sociedade de mercado: “O mercado produz riquezas materiais, mas sua lógica não pode dominar todas as demais relações entre as pessoas. Isso é empobrecedor.”

Outro advento envolvendo o debate ético foram os escândalos de corrupção na “Era Lula” (a partir de 2002), que culminaram no julgamento no Supremo Tribunal Federal, coberto (e bem explorado) pelos meios de comunicação de massa. A maestria do atual presidente do Supremo, o ministro Joaquim Barbosa, colocou “na boca do povo” a discussão entre a ética e política, o que promoveu um confrontamento da sociedade com a demanda de uma revisão em nossa moral. Quanto a nós, cristãos, a Palavra já nos conclama: “Para que sejais irrepreensíveis, no meio de uma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo” (Filipenses 2.15).

Grande é o desafio da Igreja

Quando olhamos ao redor e vemos uma sociedade em crise, esvaziando-se de seus valores e pervertendo a sua moral, há quem pense que a melhor opção para a Igreja é o isolamento.

Porém, Jesus tinha uma perspectiva bem diferente. Ao invés de afastamento, ele pensou em influência (Mateus 5.13-14). Nós somos chamados para influenciar o mundo com a mensagem do Evangelho, apresentando os valores transformadores do Reino de Deus – através da conduta pessoal, dos relacionamentos e da pregação. De modo que é apenas por meio da práxis do Evangelho que podemos espalhar os valores da ética cristã em nossa sociedade.

Há quem trate a ética cristã com um olhar de exclusividade, isto é, pensam sobre ela considerando apenas os cristãos, escrevendo sobre ela como norma de prática apenas para os cristãos, quando não apenas para uma denominação. Contudo, o desafio da ética cristã hoje é superar as fronteiras da confessionalidade e se tornar relevante para a sociedade, que está vivendo uma crise de ordem moral.

Através do Evangelho, nós podemos iniciar uma revolução de valores, se não em nossa nação, mas em muitas vidas. Por meio do anuncio da Palavra de Deus, do arrependimento, da confissão, Deus pode abundar a Sua Graça e preencher este vazio de valores, gerando, por fim, uma transformação moral.

Não obstante, se vamos pensar em uma revolução moral, precisamos começar dentro de casa. Primeiramente, pensemos a ética cristã dentro das igrejas. É preciso admitir que a crise de valores também pode nos alcançar. E, infelizmente, não seria o primeiro caso na história do povo de Deus.

A Bíblia conta histórias de líderes que corromperam o exercício do ministério: Hofni e Finéias, filhos de Eli, são um exemplo. Eles se corrompiam com o mau uso das ofertas de sacrifício que o povo trazia ao Senhor: “Eram, porém, os filhos de Eli filhos de Belial; não conheciam ao Senhor” (1 Samuel 2 .12); “E disse o Senhor a Samuel: Eis que eu vou fazer uma coisa em Israel, a qual todo o que ouvir lhe tinirão ambos os ouvidos. Naquele mesmo dia suscitarei contra Eli tudo quanto tenho falado contra a sua casa, começarei e acabarei. Porque eu já lhes fiz saber que julgarei a sua casa para sempre, pela iniquidade que ele bem conhecia, porque, fazendo-se seus os filhos execráveis, não os repreendeu. Portanto, jurei à casa de Eli que nunca jamais será expiada a sua iniquidade, nem com sacrifício, nem com oferta de alimentos” (1 Samuel 3.11-14).

O profeta Miquéias também anuncia palavras de juízo contra autoridades do povo de Israel que enriqueceram ilicitamente (durante os reinados de Jotão e Acaz): “Ouvi agora vós, chefes da casa de Jacó, e príncipes da casa de Israel, que abominais o juízo e perverteis tudo o que é direito, edificando a Sião com sangue, e a Jerusalém com iniquidade. Os seus chefes dão as sentenças por suborno, e os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao Senhor, dizendo: Não está o Senhor no meio de nós? Nenhum mal nos sobrevirá. Portanto, por causa de vós, Sião será lavrada como um e Jerusalém se tornará em montões de pedras, e o nome desta casa como os altos de um bosque” (Miqueias 3.9-12).

A sedução do enriquecimento pode gerar um jugo espiritual, nos desqualificando para o serviço do Reino de Deus. E essa é uma brecha que não podemos deixar abrir-se em nossos corações. “Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (1 Timóteo 6.10); “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mateus 6.24).

O sistema de valor do Evangelho de Cristo não visa ao enriquecimento pessoal, não é norteado pelas leis de mercado que conhecemos, mas pelos princípios do Reino: “Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai” (Mateus 10.8); “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14.17).

Michael Sandel, daquela entrevista de Veja, denuncia os males de se viver em uma sociedade de mercado. Não podemos pensar nos estragos que poderiam ser causados se deixarmos de ser a Igreja de Cristo para ser uma igreja  de mercado.

Talvez essa seja a área em que nós, a Igreja do Senhor, mais precisamos vigiar. Pois, para que os valores do Reino de Deus gerem impacto na vida das pessoas ao nosso redor, eles precisam ser uma verdade firme em nossas vidas.

Não pode haver entre nós espaço para corrupção e deturpação dos valores cristãos, pois nós somos o instrumento que Deus usa para trazer verdade e justiça para este mundo!

“E fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que manqueja não se desvie inteiramente, antes seja sarado” (Hebreus 12.13).

Por, Flavianne Vaz.

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