A Palavra era Deus

A Palavra era DeusJoão, ao relatar o seu Evangelho, logo no início começou com uma introdução poética, onde é mais conhecida como o prólogo de João (João 1.1-18). A maneira como o apóstolo se expressou foi de uma forma impressionante e ao mesmo tempo complicada de se entender. Visto que, ele ainda no versículo primeiro do capítulo um registra o seguinte: “A Palavra era Deus” (João 1.1).

Por causa de tal expressão houve várias linhas de interpretações e até mesmo de traduções, isso devido o termo “Deus” não vir precedido por um artigo definido no texto grego, e supostamente deixando assim o equivalente termo (Deus) indefinido. Supostamente, porque nem sempre um substantivo que se encontra sem o artigo definido pode ser considerado indefinido, porque antes precisa, acima de tudo, analisá-lo segundo o contexto que se encontra. Isso no grego é claro.

Gramaticalmente não se encontra artigos indefinidos na língua grega como se encontra no português: um, uma, uns e umas. Normalmente, quando algum substantivo representado pela língua grega se encontra sem o artigo definido, consequentemente ele será traduzido como um substantivo indefinido ou não, conforme as exigências do contexto.

No texto grego, a seguinte oração está escrita assim: kai Theo sênho Logos (João 1.1). Nas versões Nova Tradução Internacional, Nova Linguagem de Hoje, Almeida Revista Atualizada, Almeida Revista e Corrigida, e em muitas outras, trazem o termo Deus sem o artigo definido e indefinido: “a Palavra era Deus” (João 1.1). Diferentemente das equivalentes traduções e versões já mencionadas, a versão Tradução do Novo Mundo traz o artigo indefinido precedendo o substantivo e, além do mais, o nome Deus vem com o “d”minúsculo: “a Palavra era [um] deus” (João 1.1).

Gramaticalmente e contextualmente é uma maneira errada de traduzir, porquanto a gramática grega confirma que um substantivo sem o artigo definido, dependendo do contexto, não precisa tê-lo como indefinido. Em outros termos, na equivalente oração que compõe o prólogo de João, vista pelo seu contexto, o termo Deus não precisa ser traduzido acompanhado de um artigo indefinido. O porquê, no contexto João não tem a intenção de evidenciar que a Palavra seja diferente ou mais um Deus.

Certamente se o substantivo predicado, Deus, viesse acompanhado do artigo indefinido na tradução, logo afetaria todo o contexto do equivalente texto como de todo o Novo Testamento, o porquê a passagem passaria ensinar que havia mais de um deus. Em certo sentido, se teria a impressão de que Jesus seria propriamente outro “deus” distinto do Deus criador de todas as coisas, desfazendo-se assim totalmente de todo o Evangelho de João (João 14.8-11; 17.21), e do apóstolo Paulo, quando disse: “Este (Jesus) é a imagem do Deus invisível, o primogênito de todas as coisas” (Colossenses 1.5). Ou seja, nEle foram criadas todas as coisas. Concernente à teologia do Novo Testamento, quando se refere a Jesus como Deus é no sentido de que toda a essência e plenitude da divindade está nEle (Colossenses 2.9).

Muitos poderiam até afirmar ou perguntar: o que mal teria se Jesus fosse outro ou mais um Deus? O mal seria que modificaria totalmente o pilar doutrinário do cristianismo, porquanto, a religião cristã, que é monoteísta, passaria a ser conhecida como uma religião politeísta.

Deve-se concordar que quando João colocou a palavra theos, Deus, sem o artigo definido, estava referindo-se à Palavra especificamente de Deus como “ser”, isto é, a Palavra não era apenas divina, mas Deus, no melhor sentido do termo. O Dr. Donald Carson relatou em seu comentário do Evangelho de João: “[…] Há uma palavra perfeitamente adequada em grego para ‘divina’ (theios). Mais importante, há muitas passagens no Novo Testamento em que o substantivo predicado não tem artigo, e mesmo assim é específico”.

Se João realmente quisesse identificar a Palavra com uma qualidade divina, teria usado o vocábulo grego theios, não theos (Deus). De todo modo, o termo “Deus”, quando se encontra sem o artigo definido não perde seu posto de “ser específico”. Contudo, ele está sem o artigo justamente para esclarecer que a Palavra é o ser específico, em outros termos, o texto não está confirmando que a “Palavra” tem qualidades de divindade, ao contrário, Ela é o próprio Deus que criou no princípio todas as coisas, e depois destas tais terem sido corrompidas pelo pecado a mesma Palavra (Deus) criadora se encarnou e se encarregou de recriar tudo novamente e especialmente o caráter moral espiritual do homem (João 1.14).

Em última análise, na organização da estrutura literária do texto grego, a passagem de João 1.1 não é escrita assim: “a Palavra era Deus”, ao contrário, “Deus era a Palavra”. Logo, não quer dizer que João estava querendo mostrar que Deus seja diferente da Palavra ou a Palavra diferente de Deus. Além do mais, o texto não está querendo dizer quem é Deus, mas quem é a Palavra. Visto que a estrutura literária do texto grego classifica e enfatiza que o substantivo predicado vem em primeira instância, porque está seguindo a ordem e a intenção do pensamento de João: “no princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus e Deus era (esta) a Palavra” – exatamente para evidenciar que esta Palavra, que era e estava no princípio, não é um atributo de Deus, mas Ela é o próprio Deus, o criador (João 1.3).

Por, Natanael Diogo Santos.

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