A imprensa de Gutenberg e a Reforma

Como a imprensa ajudou na disseminação da mensagem da Reforma

A imprensa de Gutenberg e a ReformaUma das principais invenções do período da Renascença, e que marca o início da chamada Era Moderna, é a criação da imprensa pelo inventor alemão Johann Gutenberg (1398-1468), que simplesmente revolucionou a escrita e a leitura para sempre. Alguns consideram sua invenção a mais importante do segundo milênio da Era Cristã.

Apesar de o termo “imprensa” remeter hoje em dia às organizações cujo negócio é a divulgação e venda de notícias e opiniões (jornais, revistas, sites noticiosos etc), ele, na verdade, diz respeito originalmente a um tipo de dispositivo técnico capaz de reproduzir em grande escala palavras, frases, textos ou mesmo livros inteiros através de caracteres ou tipos móveis. Esse dispositivo foi criado por Gutenberg em 1440, mas o primeiro livro publicado por ele foi um exemplar das Sagradas Escrituras, cuja impressão só iniciada em 1450 e concluída somente em 1455.

A Bíblia impressa por Gutenberg teve o auxílio ainda de Johann Fust (1400-1466) e Peter Schoeffer (1425-1503) e ficou conhecida mundialmente como “A Bíblia de 42 linhas”, devido ao fato de a maior parte dela ter sido impressa contendo 42 linhas por página. Gutenberg iniciou sua impressão da Bíblia com 40 linhas por página, porém, objetivando diminuir os custos da edição de sua obra, passou a fazê-la com duas linhas a mais por página. Ao todo, a Bíblia de Gutenberg era composta de dois volumes que continham, na soma dos volumes, 1.281 páginas. A tiragem foi de apenas 100 exemplares e a qualidade gráfica era excelente. Os caracteres usados eram do tipo “gótico missal”, os quais eram grandes e semelhantes aos da caligrafia da época.

Criada pouco mais de 60 anos antes da Reforma Protestante vir a acontecer, a imprensa foi importantíssima para a disseminação e a consolidação da Reforma, posto que foi por meio dela que a mensagem da Reforma pôde se popularizar em toda a Europa e no mundo.

Como explica o professor Cláudio Fernandes, “durante milênios, a escrita restringia-se a modos de réplica muito limitados, como as tabuinhas com escrita cuneiforme dos povos sumérios, os papiros egípcios, os ideogramas chineses, entre outras variadas formas de reprodução, cujo acesso era restrito a pequenos grupos de pessoas, geralmente escribas. Apenas com a invenção de Gutenberg a propagação de livros, como a Bíblia – o primeiro dos livros inteiros publicados pela técnica da imprensa –, passou a ficar intensa. Isso se dava, fundamentalmente, em razão da facilidade que havia na reprodução dos textos. Não era necessário copiar à mão palavra por palavra como se fazia até então. Fazia-se um molde com os caracteres móveis e, a partir dele, imprimiam-se quantas cópias o estoque de tinta à base de óleo suportasse. O nome que passou a ser dado ao conjunto de papéis impressos em caracteres móveis foi ‘códice’, do latim ‘Codex’. Como já dito, o primeiro livro impresso foi a Bíblia, em idioma vernáculo (em alemão). Esse fato foi de fundamental importância para a Reforma Protestante, que se desenrolou no século 16, haja vista que até então a Bíblia era lida em latim e sua circulação não era tão grande tal como passaria a ser a partir da invenção da imprensa” (FERNANDES, Cláudio, “A Invenção da Imprensa”, disponível no site Brasil Escola).

Como a Reforma Protestante foi marcada, sobretudo, por um retorno às Escrituras, era de fundamental importância para os reformadores fazerem a Bíblia chegar ao povo e na língua falada pelo povo. A divulgação da Bíblia na língua vernácula de cada povo e nação era um dos pontos centrais do movimento protestante em todos os países da Europa, isso porque os reformadores criam que, uma vez as Escrituras estando nas mãos da população e na língua do povo, todos os que desejassem poderiam ouvir a voz de Deus e todos os crentes saberiam como obter acesso pessoalmente à presença de Deus.

Lutero começou a traduzir a Bíblia para o alemão em 1521, concluindo o seu trabalho exatamente em outubro de 1534. Essa obra de Lutero é considerada o principal marco da literatura alemã. A primeira edição de seu Novo Testamento foi de 3 mil exemplares, os quais se esgotaram rapidamente. Só entre 1522 e 1524 foram feitas 14 reimpressões do Novo Testamento de Lutero na cidade de Wittenberg e 66 outras edições dele em Augsburgo, Basiléia, Estrasburgo e Leipzig.

A primeira edição completa da Bíblia de Lutero foi de 4 mil exemplares. Enquanto Lutero era vivo, foram feitas 11 edições de sua Bíblia, com 84 impressões originais e cerca de 400 outras impressões baseadas nesses originais. Os fatores positivos para o sucesso da obra foram a sua linguagem (Lutero traduziu a Bíblia para o alemão falado pelo povo mais simples) e o valor da obra: conta-se que enquanto outras traduções da Bíblia para o alemão anteriores à de Lutero eram muito caras, além de publicadas em um alemão mais rebuscado e erudito, a de Lutero era barata. As Bíblias em latim usadas nas igrejas da época custavam de 360 florins a 500 tálares, enquanto o Novo Testamento de Lutero, por exemplo, era vendido por menos de 2 florins, cerca de três francos.

Até o final de sua vida, Lutero fez revisões no texto de sua Bíblia, com a última – a décima primeira – sendo feita em 1545, um ano antes de sua morte. Johann Cochlaeus (1479-1552), um grande inimigo de Lutero, teve de admitir o sucesso da sua Bíblia, ressaltando que “alfaiates e sapateiros, e até mulheres e crianças que mal haviam aprendido a ler algumas poucas palavras nas embalagens de um bolo de mel, liam o Novo Testamento de Lutero com grande avidez dentro de suas naturais limitações. Alguns o carregavam consigo por onde andavam e, na medida do possível, o aprendiam de cor. Destarte, eles conseguiam, em poucos meses, capacitar-se a discutir, sem constrangimento, com padres e monges sobre aspectos da fé e do evangelho. Sim, houve também o caso de mulheres humildes que tiveram a ousadia de discutir temas religiosos com doutores e homens letrados. Acontecia mesmo, nessas discussões, que leigos luteranos mostravam mais facilidade para citar passagens bíblicas de improviso que muitos monges e sacerdotes” (“Ciências da Religião – História e Sociedade”, volume 6, número 2, 2008, Universidade Mackenzie, p. 134).

Hans Lufft (1495-1584) conta que, durante 40 anos – de 1534 a 1574 –, ele chegou a imprimir 100 mil exemplares da Bíblia completa de Lutero e, entre 1546 e 1580, publicou 37 edições só do Antigo Testamento de Lutero, de maneira que a Bíblia de Lutero foi a primeira “literatura de massa, destinada e acessível a todos” da Era Moderna (Ibid., p. 134).

Tudo isso só foi possível por causa do advento da imprensa. Aprouve a Deus que essa invenção viesse ao lume no Ocidente justamente às portas da Reforma Protestante, para catapultar a disseminação da Palavra de Deus entre o povo.

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