A “Graça Original” vence o pecado

A “Graça Original” vence o pecadoA teologia cristã em seu percurso histórico parece muito mais um itinerário do pecado do que o caminho da graça. Nossos milênios de reflexão sobre a divindade, seus atributos e seu relacionamento com a humanidade, parecem nada diante da terrível constatação de que a mentalidade religiosa cristã move-se centripetamente ao redor da tríade pecado-morte-condenação.

Muito mais relevante que a reflexão sobre a percepção de Deus como um todo de amor que se historificou, grande parte da empresa teológica cristã tem se comprometido com o discurso do medo e pavor, por meio da construção de uma teologia da ameaça, através da qual um deus melindroso sordidamente se magoa com as ações humanas mais comuns.

Exemplo primaz desta condição nefasta de parte da teologia cristã é o desenvolvimento do conceito de “pecado original” por meio do qual não apenas a humanidade é encerrada em sua clássica condição de queda, mas também cada indivíduo, do momento em que é gerado à morte, devem se perceber terrivelmente pecadores. Esta autocompreensão angustiosa tem seu pleno sentido desde que vista a partir de uma perspectiva sistemática do pensamento cristão, torna-se, todavia, elemento de opressão e controle quando isolada em si mesmo.

Para além de todos os questionamentos que o problema do mal pode suscitar – sobre os quais o pensamento cristão mais reflexivo ainda discute com humildade – restam-nos problemas aparentemente mais objetivos, tais como: e quanto àqueles que sequer conseguem se perceber enquanto pessoas, estes também estão submetidos ao crivo da queda?

Se reduzirmos nossa discussão à consciência condenatória do indivíduo orientado pela teologia da ameaça a resposta é imediata: Sim! A imagem de um inferno repleto de infantes e de incapazes cognitivamente parece algo para além da mais negra figura de sofrimento pensável. Deste modo, ao pensar “pecado original” como condição caída historificada no instante inicial da existência é conceber uma teoria do inferno infantil, algo absolutamente repudiável e imoral.

O conceito de “pecado original” parece ser melhor desenvolvido se compreendermo-lo a partir da perspectiva da graça, deste modo, como a racionalização de uma condição existencial e não uma verificação histórica constatável, ou seja, enquanto humanos que somos o pecado é um horizonte inevitável.

Desta maneira, a criança que ainda não pecou, por não discernir ainda o bem do mal, certamente o fará quanto sua consciência deixar de ser algo externo a si e passar a ser de seu domínio. Tendo, todavia, a condição condenatória atuação sobre esta a partir do desenvolvimento de tal consciência.

O pecado original nesta concepção é a constatação da terrível expectativa decaída da condição humana a qual mesmo não carregando o pecado em si – como uma determinação genético-espiritual ou um caráter ontológico – certamente se manchará nele – por uma inevitabilidade existencial.

Há, todavia, uma derivação deste encadeamento lógico-teológico que demonstra um caráter positivo: se o pecado é uma condição existencial que se constitui no humano a graça também o é.

Se compreendermos o pecado como um estado inevitável de autocompreensão decaída, a graça é exatamente o oposto, isto é, o reconhecimento de que o incomensurável amor de Deus que se move em nosso favor nunca nos abandonará; tal verdade também não pode ser negada, muito menos desconsiderada no movimento de fazer-se discípulo de Cristo.

Se nossas contingências históricas parecem apontar para uma vida dominada pelo mal, à humanidade Deus oferece eternamente redenção, perdão e graça. Se quisermos assim enxergar no homem um “pecado original” é inevitável vermos ganhar forma o conceito de uma “graça original” no interior da mesma humanidade.

Nesta perspectiva fica mais claro o projeto universal de salvação divino que, se não se concretizar historicamente persiste, mesmo assim como horizonte de esperança. Por isso Paulo pode asseverar que “a graça salvadora se há manifestado a todos.” (Tito 2.11); ou ainda que, a misericórdia, assim como foi a desobediência, um dia será usada para com todos (Romanos 11.32).

A graça original foi o que nos concedeu a própria existência diante do prévio conhecimento da queda do gênero humano. A angústia advinda da autopercepção de nossa condição claudicante não nos conduziu a inexistência imediata, porque, juntamente com amarga consciência deste estado, veio a vivência da graça que, para além de uma mera constatação teórica, é uma experiência de vida.

Se compreendermos que a divindade não somente era necessária como também suficiente a si mesma, entenderemos que foi esta graça originária que engendrou tudo o que existe, pois nada é imprescindível neste cosmo criado, senão a própria divindade.

Deste modo o que está na origem do gênero humano, não é a queda-morte-condenação, mas a misericórdia-vida-graça, e por meio desta, tudo que a humanidade tornou-se e veio a ser.

Por, Thiago Brazil.

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