A Graça de Deus e seu propósito

A Graça de Deus e seu propósitoA palavra graça é um termo que tem se tornado comum na sociedade. É difícil encontrar um cristão ou não que não tenha sequer ouvido alguma vez esse termo. O cristianismo está tão encharcado com essa temática que, ao se chegar a qualquer culto, somos abordados com músicas, leituras e discursos envolvendo esta palavra, mesmo sem muitos compreenderem seu significado.

Sabemos que o ser humano tem a tendência de se acostumar com tudo que é repetitivo, pois ele não é ensinado a pensar no processo, muitas vezes complexo, das coisas com que lida. Isso é tão visível que fazemos muitas coisas sem perceber. Um exemplo claro disso é que, ao chegarmos à nossa casa após um dia maçante de trabalho, temos atitudes, como a de ligar a luz ou retirar os óculos antes de dormir, feitas automaticamente, sem percebermos.

Do mesmo modo que ligamos as luzes sem perceber, ou acordamos e colocamos os óculos, assim podemos visualizar o modo de percepção da palavra graça. Já estamos acostumados a ouvir esse termo, portanto ele já se tornou algo comum para muitas pessoas. Todavia, no momento em que a graça se torna algo normal e sem grande significado para o cristão, ele compromete seu relacionamento com Deus e põe em dúvida a obra redentora de Cristo.

Em meio a essa sociedade que vive tão próxima e ao mesmo tempo tão distante do termo graça, a ponto de não conseguir perceber a grandeza desta dádiva,, surgem algumas perguntas: Será que as pessoas compreendem qual é o significado de graça? Em meio a uma sociedade tão pluralista e miscigenada, quem pode se considerar herdeiro deste bem? Qual o propósito da graça envolver o homem?

Para compreender a temática, temos que nos libertar dos velhos jargões, esquecer as possíveis tentativas de explicações que a crescente cultura pós-moderna proclama, abrir nossa mente para viver o novo e imergir na história da religião cristã. A graça é tão antiga quanto a morte e ressurreição de Cristo, mas ao mesmo tempo tão nova quanto sua compreensão.

A palavra graça traduzida do termo grego Charis, pode ser transliterada por “graciosidade”, “amabilidade”, “favor imerecido” ou “gratidão”. Contudo, o seu significado mais original pode ser compreendido como “aquilo que traz bem-estar aos homens”.1 Estamos acostumados a ouvir que a graça é o favor imerecido de Deus, e realmente é, pois não a merecemos, mas quando lembramos que ela é também a fonte do bem-estar para o ser humano, sua compreensão excede a do favor que a humanidade não merece receber e centraliza na compreensão de tudo o que precisamos.

O Novo Testamento emprega o termo graça 155 vezes, sendo que a maior parte das referências se encontra nas cartas paulinas. Nos Evangelhos, o termo não é utilizado de maneira frequente, exceto no Evangelho de Lucas em oito referências e no de João, em quatro. O conceito teológico de graça nos Evangelhos e ditos de Jesus vai além do declarado nas epístolas paulinas. Tratando de uma teologia paulina, a graça indica o ato divino da entrega de Cristo a morte na cruz?2 Na concepção de Paulo, “a Charis parte de Deus, concretiza-se no evento da encarnação, morte e ressurreição de Cristo, e está voltada para as pessoas que creem e são batizadas”.3 Neste pensamento, a graça de Deus é manifestada aos homens possibilitando a salvação de suas vidas, sendo recebida por meio da fé, promovendo assim a reconciliação dos seres humanos com Deus.

Mas, a graça abrange mais do que isso. O relatos bíblicos nos ensinam que, desde o princípio, após o rompimento da aliança com Deus, a vida do ser humano é uma contínua busca pelo bem-estar. Vemos na busca incessante por avanços e melhoras. Em todos esses anos, não houve somente evolução tecnológica, mas, sim, uma tentativa constante de preencher todos os vácuos que o pecado deixou. É a falta do bem-estar existencial. Portanto quando os textos neotestamentários, escritos em sua maioria por Paulo, declaram a graça de Deus, eles não apenas relatam a forma do resgate do homem, restauração da aliança quebrada ou a forma benevolente de se chegar à salvação, mas também o ter a oportunidade de usufruir o bem-estar para a alma e a vida que o homem tanto busca e que Deus pôde proporcionar através do sacrifício de Cristo.

Se a graça é a fonte do bem-estar, então quem pode participar dessa dádiva? O apóstolo Paulo afirma que todos os povos, tribos e nações podem ser participantes da graça de Deus. Ela não está restrita à denominação, não deixa de ser eficaz entre os índios ou grupos étnicos que têm costumes diferentes dos nossos, muito menos perde sua importância quando é proclamada distante de um templo. A fonte do bem-estar (Jesus) pode se tronar real na vida de qualquer pessoa, em qualquer lugar, em qualquer tempo e em qualquer idade. Contudo, para o ser humano viver esse bem-estar dispensado por Cristo, ele precisa acreditar que a vida, a obra e o sacrifício de Jesus foram o plano perfeito de Deus para restaurar a aliança outrora rompida.

O propósito da graça de Deus para a humanidade é produzir harmonia perfeita entre o homem e Deus, entre nós e o próximo, entre a natureza e nós mesmos, ou seja, possibilitar ao ser humano o bem-estar integral. Essa harmonia só será liberada para aquele que Nele crê. Este é um presente de Deus para nós, porque o propósito principal da graça é produzir harmonia entre o homem e seu Criador, pois sua relação foi rompida com o pecado e, desde então, o homem procura saber como se chegar a Deus.

O povo que viveu no período conhecido como a época do Antigo Testamento usou de todas  as formas para agradar a Deus. Muitos foram os sacrifícios feitos para que o homem se sentisse bem com seu Criador, ofertas de todos os tipos, milhares de animais e aves morreram, mas o sentido de dívida não se ausentava do coração do ofertante. Por isso, Deus executou Seu plano para resgatar através de Cristo, oferecendo ao homem um novo tempo, o tempo da graça, onde cada pessoa se sentia livre da dívida e do sentimento de dívida que existia em seus corações.

Outro propósito da graça é efetuar harmonia entre o homem e seu próximo, pois o pecado causou um grande sentimento de rivalidade entre as pessoas. Inúmeras foram as guerras feitas em busca de poder e dominação. Entretanto, a graça, fonte do bem-estar, produz amor entre o homem e seu próximo. O novo tempo que cristo inaugurou possibilita todos viverem sem esse sentimento de rivalidade. Por último, como propósito, a graça provoca paz do homem consigo mesmo e com tudo à sua volta, pois o bem-estar somente será pleno e a humanidade se sentirá confortável quando o homem se sentir satisfeito com Deus.

Assim, podemos considerar que a graça é a fonte do bem-estar, que todas as pessoas podem ser participantes deste presente de Deus à humanidade e que o propósito dela é produzir harmonia entre Deus e o homem, o homem e seu próximo, e consigo mesmo e com a natureza. Por isso, a graça não pode ser algo banalizado na vida do cristão, pois ela é a fonte de todo bem-estar que Cristo nos concede através de Sua morte e ressurreição.

Notas

1 – Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, p. 907
2 – Teologia do Novo Testamento – Rudolf Bultmann, p. 359
3 – Paulo: vida e pensamento, Udo Schenelle, p. 620.

Referências Bíblicas

SCHENELLE, Udo – Paulo: vida e pensamento – Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2010
BULTMANN, Rudolf – Teologia do Novo Testamento – Santo André: Academia Cristã, São Paulo, 2008
CHAMPLIN, Russell Norman – Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia – Editora Hagnos, 9ª edição
BROWN, Colin – Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1978.

Por, Daniel Adenir dos Santos.b

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