A fé cristã e a política

A fé cristã e a políticaFé e política é a nomenclatura mais comum dada aos cursos e eventos relacionados ao papel do cristão frente à política. Acontece que, invariavelmente, essa abordagem é feita por setores cristãos que defendem as ideologias de esquerda. São os que comungam com o comunismo ou, no mínimo, com o socialismo.

Na verdade, entre os cristãos as discussões políticas são sempre capitaneadas pelos segmentos católico ou protestante reformado, as denominadas “igrejas históricas”. As igrejas evangélicas historicamente aparecem depois, como se arrependidas por não terem se enfronhado antes nos debates políticos-ideológicos e nas atividades político-partidárias.

Diria que além das históricas e das evangélicas temos as evangelicais. As primeiras têm suas raízes diretamente nos principais reformadores, especialmente Lutero e Calvino. As segundas, que podemos chamar de proto-evangélicas, são originárias dos avivamentos e grandes despertamentos na Europa e na América do Norte, entre os séculos XVII e XIX. As últimas (as evangelicais) se originaram dos ventos do Evangelho Social, do final do século XIX em diante, tendo como ponto de destaque o Congresso Nacional de Evangelização Mundial realizado em Lausanne, Suíça, em 1974, quando foi celebrado o conhecido Pacto de Lausanne. Isso está muito identificado com Missão Integral da Igreja e ecumenismo!

Nunca houve consenso sobre qual deve ser a participação do cristão nos assuntos e práticas da política secular. O judaísmo já tinha esse problema, com tantas divergências entre fariseus, saduceus, zelotes e herodianos quanto à posição dos judeus frente a César. Esse conflito, como sabemos, foi levado algumas vezes a Jesus. Em uma delas, o dirimiu com a sábia expressão “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” (Mateus 22.21).

Até Constantino os cristãos eram todos hostilizados. Depois de Constantino e Teodósio surgiram pelo menos dois grupos: os que ficaram com Roma no processo de paganismo e catolização do mundo e os que resistiram fiéis aos postulados das Escrituras, assumindo a posição de rejeitados e perseguidos. Desses resistentes surgiram os pré-reformadores e os reformadores que hoje tanto reconhecemos e admiramos. Mas é preciso dizer que, na época, eram tidos como insurgentes, inclusive por não se conformarem com a mistura da Igreja com o Estado.

Nenhum pré-reformador ou reformador defendeu a criação de alternativas políticas para combater a escuridão da Idade Média. Todos eles se entregaram a uma vida de piedade e se apegaram às Escrituras. Viveram e morreram por elas. O apoio que tiveram e a influência que causaram nos assuntos políticos da época não resultaram de articulações políticas, mas foram meios que o próprio Deus providenciou para que a Reforma ganhasse força e espaço na Europa.

É fato que já no ápice da Reforma surgiu pensamento de que era imperativo atuar diretamente nos assuntos políticos para reformar a sociedade, o que teve em Calvino o principal precursor. Mas isso faz parte de um viés não predominante e que também não se mostrou o mais viável, pelos próprios resultados alcançados. Também é importante considerar o destacado protagonismo protestante em muitas causas libertárias, como o abolicionismo inglês, por exemplo. Mas nem isso indica a participação institucional da Igreja com as questões do Estado.

A visão calvinista ou neocalvinista relacionada ao papel do cristão na política não pode seduzir especialmente os pentecostais, porque o pentecostalismo emergiu forte justamente porque o método de evangelização político-social não estava produzindo grandes resultados no mundo, especialmente na América Latina. E isso se mostraria ainda mais verdade com a Igreja Católica criando e difundindo a Teologia da Libertação, muito mais ativa e militante nas questões temporais.

Nunca houve consenso entre os cristãos sobre qual o papel da Igreja relacionado às questões políticas. Ou seja, qual a relação entre Igreja e Estado. Na história mais recente, os evangélicos da América do Norte estavam divididos nos anos 60, com a esquerda ardorosa liderada por Martin Luther King e a “direita”, reticente, avessa a essa militância política (os Batistas do Sul, por exemplo), ou simplesmente alheia (pentecostais, principalmente). Nos anos 70 muda-se o cenário. Surge a direita evangélica – liderada principalmente pelos Batistas do Sul – que vai exercer forte protagonismo político até o início dos anos 90.

A direita evangélica americana se frustrou e produziu muitos fracassos. Basta analisar o desfecho do Movimento Moral Majority (Maioria Moral). Mesmo com todas as boas intenções de seus fundadores, os escândalos foram muitos. E os resultados efetivos duradouros de transformação política… Quase nenhum!

Na América Latina os evangélicos levariam um tempo maior para se iludirem com a política secular. As igrejas pentecostais foram decisivas para postergar a perpetração desse engano. Isso digo porque as igrejas históricas já tinham forte protagonismo político desde o século XIX. No século XX cabe destacar o projeto político dos metodistas, que elegeu o primeiro pastor protestante ao Congresso Nacional, Guaracy Silveira.

O exemplo de Guaracy deveria ser mais conhecido. De tudo o que se tem registrado sobre ele, a suma é que os resultados de sua incursão na vida pública como um representante do protestantismo foram muito mais negativos que positivos. Guaracy entrou protestante e saiu ecumênico. Trouxe conflitos e crises para a liderança metodista. Por fim, já fora da política, abandonou a vida pastoral. Se queremos um exemplo do que ocorre com o “projeto político” de uma igreja, podemos olhar para o plano metodista dos anos 30 e 40 do recente século XX.

A questão toda, a meu ver, é o declínio da verdadeira fé bíblica. Fé e política têm muita coisa a ver, quando cremos que orando a Deus e vivendo de acordo com Sua Palavra podemos influenciar o mundo, mover as estruturas humanas, inclusive políticas. Isso tudo sem deixar sistematicamente nosso papel espiritual e nos tornar militantes políticos. O cristão, se vocacionado, pode atuar em qualquer esfera da vida humana, inclusive a política, mas sem levar a reboque a Igreja como instituição ou fazer dela sua plataforma.

O liberalismo e o secularismo produziram forte influência nas igrejas evangélicas, inclusive pentecostais, ao ponto de, hoje, se ridicularizar quem defende que devemos orar e não enfatizar a necessidade de uma ativa militância política. O Senhor Jesus prenunciou que quando voltasse seria difícil encontrar fé na terra (Lucs 18.8).

Quando Jesus disse isso estava concluindo justamente uma parábola a respeito do dever de orar sempre e nunca desfalecer. Sim! Estamos desfalecendo na oração e passando a acreditar que somente resolveremos nossos problemas políticos, sociais e econômicos se “pegarmos em armas”. Orar “pelos reis e por todos os que estão em eminência” não basta mais “para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda piedade e honestidade”(1 Timóteo 2.2).

Paulo escreveu que“isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador”(1 Timóteo 2.3), por isso concluiu: “Quero, pois, que os homens orem em todo o lugar, levantando mãos santas, sem ira nem contenda” (1 Timóteo 2.8). Enquanto isso, os que mais defendem a participação do cristão no ativismo político o fazem cheios de ira e com manifesto espírito de contenda!!!

É bom refletir sobre isso! Deus requererá de nós, principalmente os pastores e demais líderes, o que e como ensinamos e orientamos Sua herança na Terra!

Por, Silas Queiroz.

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