A espiritualidade que precisamos

A espiritualidade que precisamosÀ medida que amadureço, me torno mais reflexivo. Nos meus momentos devocionais, não me porto apenas como pedinte diante de Deus. Ajo também de forma reflexiva, pois somente assim posso reavaliar minhas posturas e como vai minha espiritualidade em tempos pós-modernos, e assim alcançar o repouso proposto por Agostinho. Foi assim que, em um destes momentos, concluí: desejo uma nova espiritualidade. Mas que tipo de espiritualidade?

Quero uma espiritualidade menos litúrgica. Cansei dessa espiritualidade que não consegue ver Deus além dos portões da Igreja. Que se apresenta muitas vezes teatral com luzes, câmera e ação, que não consegue ver o agir de Deus nos bastidores, quando as luzes da ribalta se apagam.

Quero uma espiritualidade de um relacionamento correto com Deus. Cansei dessa espiritualidade que faz de Deus meramente um cumpridor de meus desejos, que muitas vezes, sob o manto de piedade, esconde os meus desafetos. Cansei também da espiritualidade de um Deus só achado com irmãs muito “consagradas”, que de tão consagradas que são nem a igreja frequentam, fazendo de suas casas um rancho de profetas, onde os consulentes vão para ouvir a voz de Deus porque não a conseguem ouvir no recôndito de seus aposentos. Também cansei desta espiritualidade em que só se busca Deus como gênio da lâmpada para desatar os nós, seja na vida conjugal ou financeira. Quero uma espiritualidade que busque a Deus mesmo quando tudo está bem, pois não quero fazer de Deus um cumpridor de meus caprichos e, sim, um Pai amoroso que me ama e comigo se relaciona.

Quero uma espiritualidade que consiga ouvir a voz de Deus também no silêncio. Como pentecostais, somos levados a pensar que Deus só gosta de decibéis exagerados. Como pentecostal, eu gosto do mover genuíno do Espírito Santo, mas também sei que o Ele tem suas formas múltiplas de agir, e o silencio pode ser uma delas. Quero apreciar mais a espiritualidade contemplativa. Aliás, não foi isto que fez Tomas de Kempis, que com uma espiritualidade contemplativa conseguiu subir a picos elevadíssimos da devoção cristã?

Quero uma espiritualidade que não esteja relacionada apenas às insuflações homiléticas de pregadores de renome em megacongressos. Cansei dessa espiritualidade que sobe a picos elevados em momentos de um congresso, mas que desce aos vales do indiferentismo no pós-congresso, fazendo com que os seus participantes, por não erigirem altares na devoção diária, ajam como os mais contumazes ímpios no dia-a-dia.

Quero uma espiritualidade não apenas de ajuntamento. Cansei de ajuntamentos cuja tônica são os relatórios de quantas pessoas estavam presentes tão somente para alimentar nossos já tão massageados egos. Não que Deus não possa estar nos grandes ajuntamentos, mas que não esqueçamos que Ele está também nos pequenos, quando os holofotes não estão acesos. Não foi essa espiritualidade que Jesus buscou quando, cercado pelas multidões, Ele saía para as montes para buscar a comunhão com o Pai?

Quero uma espiritualidade que honre ao nome de Deus. Cansei dessa espiritualidade que prescindindo de honrar o santo nome de Deus, adorna os nossos com relatórios fantasiosos e espetaculares e até com currículos invejáveis para perpetuar o nosso nome na história e nos dar ares de superioridade. Pobre de nós! Até parece que aquilo que nos impressiona causa as mesmas impressões em Deus!

Quero uma espiritualidade menos míope e medíocre. Cansei dessa espiritualidade cujas orações são somente para atender às minhas necessidades particulares, como se eu fosse o único ser do universo. Uma espiritualidade com orações assim torna Deus pequeno e tribal. Deus está apenas na minha tribo e não no universo inteiro. É mediocridade demais para um momento só. Uma espiritualidade assim faz com que eu não ore por missões e nem pelas demandas do Reino de Deus, pois as demandas minhas não são as do Reino de Deus e nem as do Reino de Deus, as minhas. Neste momento, deixo de construir o Reino de Deus e passo a construir os meus impérios pessoais. Deus nos livre.

Por, Adejarlan José Ramos.

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