A correta interpretação das Escrituras

A hermenêutica não é apenas a arte ou a ciência da interpretação de qualquer texto; antes de tudo, é um ciência que procura também o significado da palavra como evento histórico, cultural, social e de vida. O que representa um fóssil para o arqueólogo e o paleontólogo, tal é a palavra fossilizada através dos séculos nas Escrituras para o intérprete.

Hermenêutica Bíblica é a disciplina da Teologia Exegética que ensina as regras para interpretar as Escrituras e a maneira de aplicá-las corretamente. Seu objetivo primário é estabelecer regras gerais e específicas de interpretação, a fim de entender o verdadeiro sentido do autor ao redigir as Escrituras. É a ciência da compreensão de textos bíblicos.

A Hermenêutica como Ciência é:

Objetiva, pois está fundada em fatos concretos, isto é, na verdade bíblica.

Racional, pois é constituída de conceitos, juízos e raciocínios, e não por sensações e imagens.

Analítica, pois em virtude de abordar um fato, processo, ou situação de interpretação, ela decompõe o todo em partes componentes e relacionadas entre si. Isto quer dizer que a hermenêutica, ao analisar um texto, disseca-os em partes a fim de que o todo seja compreendido.

Explicativa, em virtude de ter como finalidade explicar os fatos em termos de leis, e as leis em termos de princípios. Ora, qualquer pregador ou estudante precisa justificar sua interpretação, isto é, mostrar a lei ou princípios que o conduziram na interpretação de qualquer texto bíblico. Como elemento explicativo, a hermenêutica é tanto descritiva quanto prescritiva. Como descritiva explica o que é o texto (seu significado), enquanto prescritiva, determina qual deve ser o nosso comportamento mediante a interpretação fornecida – o que deve ser feito.

A hermenêutica é como teoria que postula Métodos e Regras:

Método é como processo racional usado para se chegar a determinadas conclusões válidas. Em hermenêutica refere-se às, regras ou técnicas usadas para chegar ao conhecimento do significado original do texto. Para que o método seja útil e aconselhável, não basta que indique qualquer caminho; é preciso que indique aquele que melhor e mais satisfatoriamente conduza ao fim que se tem em vista. Método, então é a maneira de proceder.

Metodologia, entretanto, é uma indicação do método. Metodologia exegética é o conjunto de procedimentos científicos colocados em ação para explicar os textos. Diferencia-se das “abordagens”, que são pesquisas orientadas segundo um ponto de vista particular.

Função da Hermenêutica e da Exegese Bíblica

Traduzir o texto original tornando-o compreensível em língua vernácula, sem sangrar o sentido primário;

Compreender o sentido do texto dentro de seu ambiente histórico-cultural e léxico-sintático;

Explicar o verdadeiro sentido do texto, em todas as dimensões possíveis (autor, audiência, condições sociais, religiosas, etc);

Tornar a mensagem das Escrituras inteligível ao homem moderno;

Conduzir-nos a Cristo.

Formas pelas quais o Intérprete Pratica a Eisegese

1) Quando força o texto a dizer o que não diz:

O intérprete está cônscio de que a interpretação por ele asseverada não está condizente com o texto, ou então está inconsistente quanto ao objetivo do autor ou propósito da obra. Entretanto, voluntária ou involuntariamente, manipula o texto a fim de que a sua loquacidade possa ser aceita como princípio escriturístico.

Geralmente tal interpretação não possui qualquer justificativa lexical, cultural, histórica ou teológica, pois se baseia em pressupostos ou premissas previamente estabelecidos pelo intérprete.

Outro problema neste caso é o individualismo que embebe alguns na leitura da Bíblia. O que se busca como interpretação “é o que as Escrituras significam para mim agora”, e não “o que elas significam em seu contexto”.

2) Quando ignora o contexto, sob pretexto ideológico:

Poucas atividades hermenêuticas têm sangrado tanto o texto como o banimento do contexto. Ignorar o contexto é rejeitar deliberadamente o processo histórico que deu margem ao texto. O intérprete, neste caso, não examina com a devida atenção os parágrafos pré e pós-texto, e não vincula um versículo ou passagem a um contexto remoto ou imediato.

Uma interpretação que ignora e contraria o contexto não deve ser admitida como exegese confiável. Existem pessoas que são capazes de banir conscientemente o contexto e o sentido do texto, simplesmente para forçar as Escrituras a conformarem-se com suas ideologias.

3) Quando ignora a mensagem e o propósito principal do livro;

Um livro pode ser mais facilmente entendido quando se sabe qual é o propósito do autor e qual a mensagem que ele procura afirmar para seus contemporâneos. A mensagem do livro e o propósito do autor são “almas gêmeas” da interpretação bíblica.

Os assuntos genéricos tratados pelo autor precisam ser observados a partir dos propósitos da mensagem do autógrafo. Quando ignoramos a mensagem principal e o propósito do livro, somos dispersivos na aplicação coerente do texto.

Os livros de Lucas 1.1-4; João 20.30, 31; 21.24, 25; Atos 1, 1 Coríntios 5.1; 6.1; 7.1; 8.1; 12.1; 16.1 e muitos outros são melhor compreendidos quando conhecemos a intenção do autor, expresso no próprio autógrafo.

4) Quando não esclarece um texto à luz do outro:

Os textos obscuros devem ser entendidos à luz de outros e segundo o propósito e a mensagem do livro. Recorrer a outro texto é reconhecer a unidade das Escrituras na correlação de ideias. Por vezes, pratica-se eisegese por ignorar a capacidade que as Escrituras têm de interpretar a si mesmo.

5) Quando põe a “revelação” acima da mensagem revelada:

Por vezes, aparecem indivíduos sangrando o texto sagrado sob o pretexto de que “… Deus revelou”, ou “… essa veio do céu”. Estes colocam a pseudo-revelação acima da mensagem revelada. Quando assim asseveram, procuram afirmar infalibilidade à sua interpretação, pois Deus, que “revelou”, autor principal das Escrituras, não pode errar. Devemos ter o cuidado de não associar o nome de Deus a mentira, pois Ele não pode errar. Devemos ter o cuidado de não associar o nome de Deus a mentira, pois Ele não pode contradizer o que anteriormente, pelas Escrituras, havia afirmado.

6) Quando está comprometido com um sistema ou ideologia:

Não são poucos os obstáculos a que o exegeta encontra quando a interpretação das Escrituras afeta os cânones dos sistemas e as tradições de sua denominação. Por outro lado, até as ímpias religiões encontram justificativas bíblicas para ratificar as suas heresias. Kardec citava a Bíblia para defender a reencarnação! Muitos outros movimentos sectários torcem as Escrituras. Utilizar as Escrituras para apologizar um sistema ou ideologia pode passar de uma eisegese para uma heresia aplicada.

Pelo menos três razões podem ser apresentadas para explicar essa atitude imprudente do intérprete.

Atitude defensiva

Provavelmente, a atitude defensiva do intérprete em relação às suas ideologias seja responsável pela prática da eisegese. Com o doutrinismo, usa o Livro Sagrado para praticar suas doutrinas, em vez de confrontá-las com a Palavra de Deus. Ignora o caráter histórico e contextual da Bíblia e sobrepõe à ela a “revelação espiritual” das entrelinhas do texto. A interpretação histórica e contextual para esses não é suficiente, por isso, é necessário a espiritualização do texto.

Preconceito

Há muitos conceitos, costumes, interpretações e ensinos que procedem mais do preconceito, ignorância, e atitudes pré-concebidas do intérprete do que de uma exegese bíblica confiável.

Preferência ao Método Alegórico

O método alegórico de interpretação é um dos mais usados por esses intérpretes. Desprezam o significado comum e ordinário das palavras e especulam sobre o sentido místico ou simbólico de cada uma delas, além, é claro, de ignorar a interpretação autoral, inserindo no texto todo tipo de extravagância ou fantasia.

Por, Esdras Costa Bentho.

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