A canonização do padre José de Anchieta

A canonização do padre José de AnchietaNotícias dadas à imprensa pelo arcebispo de Aparecida (SP) indicam estar chegando ao fim um processo de canonização que já dura mais de quatro séculos. Brevemente, o papa Francisco expedirá um decreto declarando santo o padre José de Anchieta. Não haverá cerimônia solene na Praça de São Pedro, como normalmente ocorre. Somente discretas celebrações. Embora se possa divergir biblicamente da metodologia adotada pela Igreja Católica na santificação dos mortos, deve-se reconhecer que o processo é cercado de cuidados extremos, razão pela qual tanto tempo se despendeu na avaliação daquele sacerdote jesuíta, cognominado “O Apóstolo do Brasil”. Durante este longo período, Anchieta foi reconhecido venerável em 1736 e beato em 1980, às vésperas da visita de João Paulo II ao Brasil. Vamos, pois, buscar entender as razões de tantas delongas no referido processo, iniciado em 1597.

Antecedentes

Reunidos na cidade espanhola de Tordesilhas em 1494, os representantes dos reis de Espanha e Portugal assinaram o tratado de Tordesilhas, que declarava pertencerem àqueles dois países todas as terras da América, já descobertas ou não por Cristóvão Colombo. O tratado foi aprovado pelo papa Alexandre VI, autoridade que se sobrepunha à dos monarcas e dirimia litígios entre eles. O tratado desagradou aos demais soberanos europeus e um deles, Francisco I da França, resolveu enfrentar a situação, declarando ironicamente desconhecer o testamento do pai Adão que legara o mundo a espanhóis e portugueses. Em meados do século XVI, naus francesas passaram a percorrer o litoral do Brasil, estabelecendo bases comerciais e praticando o escambo, isto é, trocando mercadorias europeias por produtos locais. Muitos franceses até se uniram a mulheres indígenas, aumentando assim a população da colônia. Nesse tempo, a Reforma Luterana acendia fortes disputas religiosas na Europa e a chamada Santa Inquisição já mandara para a fogueira alguns “hereges”, pela ousadia de contrariarem dogmas católicos. Em ambiente assim, de disputas comerciais e religiosas, nasce a Companhia de Jesus, em 1540, ordem religiosa fundada por Inácio de Loyola, guerreiro e fidalgo espanhol, que a coloca à disposição do papa, esperando contribuir para a expansão da igreja, através da educação e da disciplina. Os jesuítas, que se intitulavam “soldados de Cristo”, assumiram a linha de frente da Contrarreforma, dispostos a matar e morrer pela conquista dos territórios perdidos, tanto na Europa quanto nas colônias. Com esse propósito, pois, chegam ao Brasil, em 1553, diversos padres, dentre eles José de Anchieta.

França Antártica

Em 1555, sob o comando de Nicolau Durand de Villegagnon, um grupo de huguenotes, franceses adeptos da Reforma, estabelecem uma base comercial na ilha de Serigipe (corresponde atualmente à ilha de Vilegagnon, onde se situa a Escola Naval, contígua ao Aeroporto Santos Dumont), no Rio de Janeiro, onde constroem um forte, o qual denominam Coligny em homenagem ao almirante francês Gaspar de Coligny, convertido à Reforma. O empreendimento se chamou França Antártica. Ali esperavam exercer o direito de comerciar com os silvícolas e praticar em liberdade a sua fé. Muitos indígenas já haviam sido mortos nas disputas com os portugueses e por isso os nativos hostilizavam a presença deles em suas terras. Os franceses se aproveitaram bem dessa insatisfação e valendo-se da presença de missionários huguenotes, comerciavam e catequisavam os índios segundo os princípios da Reforma. Destarte, se estabeleceram firmemente na França Antártica.

Jean Jaques Le Balleur (ou João Bollés)

Contando com pouca gente, Villegagnon formalizou pedido a João Calvino, em Genebra, solicitando o envio de missionários e famílias para expansão da França Antártica, no que foi atendido. Em 1557, chega à Guanabara uma comitiva de convidados do almirante Coligny, entre os quais o pastor João Bollés. Em seu livro O Santo que Anchieta Matou, Anibal Pereira dos Reis relata sérias divergências doutrinárias e desavenças entre os recém-chegados. Os litigantes tentaram chegar a um consenso, mas as divergências se acentuaram e Guillaume de Chartier, outro pastor, foi enviado e Genebra, para consultar Calvino. No fim de 1557, a comitiva de Genebra retornou à Europa. Entrementes, crescia a reação portuguesa aos invasores. Anchieta empenhou-se pessoalmente nesses eventos, estimulando o governador Mem de Sá a destruir aquele “ninho de hereges” e dedicando-lhe um longo poema épico, com largos elogios às suas qualidades guerreiras e à capacidade de matar os índios e destruír-lhes as aldeias. Não se sabe ao certo o que aconteceu nos últimos dez anos da França Antártica. Tudo indica que Vilegagnon abandonou o protestantismo, retornando a França e ao catolicismo, em virtude de questões doutrinárias. Diversos calvinistas foram expulsos da França Antártica, embrenharam-se na floresta ou regressaram à França em conturbada viagem. Bollés foi um dos que fugiram para a floresta, reaproximando-se dos índios, entre os quais dispunha de certo prestígio, em virtude do seu fervor missionário. Mais tarde, foi capturado pelos portugueses em Salvador, onde arrostou oito anos de masmorra, sem fraquejar na fé. Os relatos alusivos a esses acontecimentos são conflitantes. André Théver publicou na sua Cosmografia Universal que os protestantes foram culpados pela perda da França Antártica. Jean de Léry é de opinião contrária e em seu livro História de uma Viagem feita a Terra do Brasil atribuiu a culpa a Vilegagnon, que, segundo ele, traiu a confiança de Coligny. O franceses permaneceram na Guanabara até 1567, quando foram definitivamente expulsos. Bollés foi enviado preso ao Rio de Janeiro, onde o governador Mem de Sá mandou enforcá-lo. Anibal Reis, acima citado, relata em seu livro que, por ocasião do enforcamento, o carrasco, que conhecia Bollés e sabia da sua inocência, vacilou no cumprimento da tarefa. Anchieta então, assume-lhe o papel, e executa Bollés. Volta-se em seguida para o carrasco e exclama: “É assim que se mata um homem”.

Conclusão

Eis algumas das razões que por quatro séculos impediram o padre Anchieta de ascender aos altares da Igreja Católica. A matança de índios, por ele elogiada, e a execução de João Bollés, por ele consumada, serviram de impedimento à sua canonização. Seja como for, poderíamos parodiá-lo, Declarando: “Não é assim que se santifica um homem”.

Por, Paulo Ferreira.

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