A bênção da Salvação

A bênção da SalvaçãoCertamente nunca se falou tanto em bênçãos como no cristianismo atual. Parece que a alegria de boa parte dos cristãos está movida ou tem sua fonte nas bênçãos terrenas que o bom Deus nos dá. Parece que a força motriz de muitos para a oração, o culto a Deus e o serviço no Seu Reino está nas bênçãos que o Senhor pode oferecer. Mas, o que há de errado com as bênçãos? Absolutamente nada. As bênçãos são, sim, ações de benevolência do Senhor para com nossa caminhada nesta Terra. É o agir do próprio Deus em nosso favor. Elas são inúmeras em nossas vidas. O que precisamos contrastar, sim, é a disparidade que existe entre o foco nas bênçãos e o foco na maior de todas as bênçãos que o Senhor nos dá: a Salvação em Cristo Jesus.

Certa vez, vários discípulos de Jesus vieram até ele cheios de alegria, orgulhosos (qualquer um de nós se sentiria assim) pelas bênçãos que receberam no trabalho de evangelismo que fizeram. Porém, estavam mais alegres de terem expulsado demônios em nome do Senhor Jesus do que nas possíveis almas que se salvaram. É aqui que Jesus entra no âmago da questão. Ele reafirma que havia dado autoridade contra o poder do inimigo, e isso é uma bênção; contudo, essa não deveria ser a alegria principal deles, mas sim aquela decorrente do fato de que eles tinham seus nomes escritos nos céus! Em outras palavras, a certeza da salvação deveria ser a fonte, a origem, o nascedouro de seu contentamento. Após Jesus ter despertado em Seus discípulos a consciência da verdadeira bênção, Ele agradece ao Pai por ter-lhes revelado tão grande graça (Lucas 10.17-24).

É difícil dizer a causa de tantos cristãos não darem o devido valor à salvação em suas vidas. Talvez seja porque muitos crentes hoje estão mergulhados no que o professor e escritor J. I. Packer chama de “Teologia do Prazer”, em que precisamos sempre sentir algum tipo de prazer na vida cristã, e isso parece ser um sintoma mais sentido atualmente. Naturalmente que não podemos ser saudosistas a ponto de vangloriarmos tanto do passado que nos parece que Deus somente agiu, inspirou e santificou as pessoas nos “tempos áureos” do cristianismo com suas dificuldades e muito sofrimento. Com certeza isto incomoda. Mas, como nosso Redentor “é o mesmo ontem, hoje e ternamente” (Hebreus 13.8), Ele continua levando e capacitando homens e mulheres para realizar Sua obra em todos os lugares. Porém, uma coisa nós temos que admitir destas épocas – início do pentecostalismo no Brasil, primeiras gerações de crentes na família, etc: a alegria da simplicidade do Evangelho era um traço marcante nelas. O que lhes importava era verdadeiramente a alegria da salvação. Isso não quer dizer que não ansiavam mais bênçãos do Senhor. Naturalmente que sim. E receberam muito mais, pois Paulo nos lembra que “aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Romanos 8.32). No entanto, estavam alegres de saberem que Deus os amava e enviou Seu único Filho, Jesus, para salvá-los e garantir-lhes a vida eterna, que o mundo poderia acabar, mas eles estavam bem, pois estavam salvos. Esse era motivo suficiente para desejarem espalhar as boas novas.

Será que esta mensagem mudou ou não faz muito efeito mais? Será que ela significa muito pouco para ainda acordarmos de manhã com alegria e esperança por nossa redenção? A verdade é que substituímos as coisas eternas pelas transitórias. O céu pela vida terrena, a obra de Deus pelo prazer e o conforto, a soberania de Deus pelo triunfalismo, o evangelismo pelas vitórias, as músicas de louvor e adoração por letras de autoajuda e vingança. Se essa ênfase está nas coisas desta vida e deste mundo, estaremos continuamente insatisfeitos. Pois não há um limite de necessidades a ser suprido aqui: sempre teremos algo que nos falta, porque criamos tantas necessidades ao longo dos anos.

É natural que sempre teremos algo a receber da parte de Deus. Ele é bom e galardoador dos que o buscam (Hebreus 11.6). Mas creio que a razão de termos tantos crentes continuamente frustrados, descontentes com a vida, é justamente por não atentarem que já possuem a mais grandiosa de todas as bênçãos. Quando temos este prazer em continuamente lembrarmos que Deus já realizou o maior milagre em nossas vidas e que nos garantiu a vida eterna com Ele, mesmo passando por lutas nesta terra, sempre teremos motivo para nos alegrar no Senhor conforme insiste o apóstolo Paulo (Filipenses 4.4).

Gosto muito quando o salmista diz no Salmo 16.3: “Digo ao Senhor: Tu é o meu Senhor; outro bem não possuo, senão a ti somente”. Bom seria se todos nós pudéssemos dizer diuturnamente que nossa salvação em Cristo é o nosso maior bem. Muito acima de qualquer bênção ou dádiva ou dom. É somente na contínua convicção da segurança e esperança de que temos na salvação em Cristo que podemos realmente viver pela fé.

Um dos maiores princípios a ser relembrado pelo nosso cristianismo atual é que para vivermos como cristãos precisamos saber quem somos como cristãos. Em muitas cartas paulinas, primeiro vem a exposição a respeito da obra de salvação realizada por Cristo e o chamado à fé, seguindo-se daí o chamado para viver em conformidade com o Evangelho, que corresponde à parte ética (Gálatas 1; Efésios 1; 4.16; Colossenses 1, 2, 3 e 4). Em outras palavras não conseguiremos, de maneira alguma, viver de acordo com os padrões de Deus se não nos conscientizarmos de quem somos. Só conseguiremos ter uma família estruturada e fazermos a Obra do Senhor dignamente quando percebermos quem somos.

Enquanto milhões de pessoas se afundam cada vez mais no vazio e na desesperança de sua existência, já temos uma viva e rica esperança, certos que cada dia que passa, mais perto está a consumação de nossa redenção. Esta ainda deve ser nossa alegria suprema. Nosso ar puro em meio à poluição de nosso tempo. Nosso alarido a todos que ainda precisam desta tão grande bênção.

Por, Henrique Pesh.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Google Translate »