O relativismo e os absolutos de Deus

O relativismo e os absolutos de DeusSteven L. Mcavoy escreveu: “O relativismo ocidental atacou furiosamente. Allan Boon viu esse fenômeno assumir o controle de suas salas de aula na Universidade de Chicago no final da década de 1980: ‘Existe uma coisa que um professor pode estar absolutamente certo: quase todo aluno que entra na universidade acredita, ou diz que acredita, que verdade é relativa’. Em 1991, o Barna Reserch Group relatou que 28% dos americanos concordavam fortemente com a declaração de que ‘não existe verdade absoluta; diferentes pessoais podem definir a verdade de formas conflitantes e, ainda corretas’. Alguns níveis de concordância são expressos por 67%. O mais alarmante, 53% das pessoas identificaram-se como cristãs ‘nascidas novamente’: e, 53% de adultos associados a igrejas evangélicas expressam alguma concordância com a declaração. Em 1994, 74% dos adultos americanos – quase três a cada quatro – afirmam algum tipo de aceitação do pensamento relativista.” (Os fundamentos para o século XXI, pp. 37 a 38).

O relativismo empestou a Europa e os Estados Unidos, e de uma coisa podemos estar certos: o relativismo já chegou aos estabelecimentos universitários e de ensino médio de nosso país. O relativismo é o coroamento da teoria do conhecimento do mundo pós-moderno. O relativismo não está só na gnosiologia crítica do conhecimento; há o relativismo axiológico [ref. aos valores], relativismo científico [o probabilismo], relativismo religioso [ecumenismo], relativismo histórico [historicismo], relativismo da práxis [ação], o pragmatismo, etc. Portanto, o relativismo é uma realidade que a Igreja não pode ignorar.

No presente artigo tratarei do relativismo epistemológico, isto é, que diz respeito ao conhecimento, que é o pai de todos os outros relativismos. A origem do relativismo está nas aporias do conhecimento. Norman Geisler escreveu: “Alguém ilustrou a diferença entre os três períodos do pensamento usando a imagem de um árbitro. O árbitro pré-moderno diz: ‘Eu os [os objetos] chamo como eles são’ [realismo]. O árbitro moderno afirma: ‘Eu os chamo como os vejo’ [idealismo de Kant]. Mas o árbitro pós-moderno declara: ‘Eles não são nada até que eu os chame de alguma coisa’ [idealismo de Fichte e Hegel], (Obreiro nº 60 p. 78). Os períodos do pensamento correspondem às três teorias do conhecimento, a realista, a apriorística e a idealista. As terias realistas afirmam: “[…] as percepções que temos dos abjetos são reais, ou seja, correspondem de fatos às características presentes nesses objetos, na realidade” (fundamentos da filosofia, pg. 157).

Tomás de Aquino, que era realista, afirmou: “As próprias coisas são causa e medida do nosso conhecimento”. Diz ainda Tomás: “A verdade do intelecto humano tem sua regra e medida na essência da coisa. Uma opinião é verdadeira ou falsa de acordo com o que a coisa é ou não é”. Neste caso o conhecimento é a representação verdadeira do objeto ao pensamento. A segunda teoria do conhecimento é o apriorismo (de a priori=antes da experiência) Kantiano. “Kant afirmava que todo conhecimento começa com a experiência, mas a experiência sozinha não nos dá o conhecimento. Ou seja, é preciso um trabalho do sujeito para organizar os dados da experiência” (Fundamento de Filosofia. p. 159). Kant estudou o sujeito do conhecimento antes da experiência e deduziu que a mente humana é constituída de estruturas que ele chamou-as de estrutura da sensibilidade [o espaço e o tempo] e estrutura do entendimento [as categorias]. As categorias são conceitos puros existentes na mente antes da experiência, princípio ou causa, quantidade, pluralidade, totalidade, qualidade, modalidade, possibilidade, existência, necessidade, etc.

Para uma melhor compreensão de como funciona o sujeito transcendental ou mente, apresentamos aqui um exemplo extraído do estudo introdutório do livro De Trinitate de Boécio pelo filósofo Luiz Jean Lauand, ei-lo: “A árvore refrigera seis servos queimados pelo ardor do sol. Amanhã no campo estarei de pé, mas estarei tunicado. Aplicando as categorias, fica assim: Árvore (substancia) refrigera (atividade) seis (quantidade) servos (qualidade) queimados (passividade) pelo ardor (relação) do sol. Amanhã (quando) no campo (onde) estarei de pé (situação), mas estarei tunicado (condição)”. Uma coisa, portanto, só existe ou pode ser conhecida quando pode ser posta pelo sujeito do conhecimento, entendido não como sujeito individual ou psicológico, mas como sujeito universal ou transcendental” (Marilena Chauí). Isso quer dizer que só conhecemos as coisas no espaço e no tempo e nas categorias. Daí dizerem que Kant fez a síntese entre os dados da experiência e as regras do intelecto, i.e., a experiência fornece o material do conhecimento e a mente os organiza. O idealismo de Kant é um pré-idealismo porque ele distinguia a coisa em si, isto é, o Ser enquanto Ser [o nôumeno, o ser em si] e o fenômeno, as coisas que nos aparecem. Seu idealismo não nega a existência de Deus, embora nos impeça de conhecê-Lo. No idealismo absoluto de Fichte e Hegel a diferença entre mundo e consciência foi eliminada. Segundo Hegel o mundo é a consciência transformado nas próprias coisas. Sendo assim tudo é fenômeno, fenômeno interior [a consciência] e o fenômeno exterior [o mundo como manifestação da consciência das coisas] Como pode ser isso? – É muito simples: o mundo foi transformado em deus pelos idealistas, o idealismo é panteísmo puro. A personalidade ou consciência do deus [o mundo] do idealismo é o homem. “deus só é deus enquanto se conhece a si; seu auto-conhecimento é, além disto, seu auto-conhecimento no homem e o conhecimento que o homem tem de deus, progredindo até o conhecimento que tem de si em deus” (Hegel).

Podemos afirmar primeiramente que a origem do relativismo decorre da limitação do intelecto sobre a realidade, isto é, o sujeito do conhecimento (a mente humana) não possui uma faculdade capaz de aprender todos os modos de ser da realidade. A segunda origem do relativismo é a negação explicita do Criador como fundamento de toda a realidade. E a terceira fonte do relativismo é inverter o paradigma, isto é, pôr a criatura no lugar do Criador. É certo que a razão, isto é, a mente, é incapaz de aprender todos os modos da realidade, mas isso não nos leva a desembocar no ceticismo absoluto ou relativista; nos leva apenas a reconhecer a nossa finitude. Sermos conscientes de que não podemos conhecer todos os modos da realidade (do ser, do universo) não nos mutila e nem impugna a pesquisa científica.

É incontestavelmente certo que Deus propôs um processo ascendente do conhecimento, que podemos chamar de processo econômico do conhecimento. Isto é, o conhecimento nos veio por graus ascendente. Esse processo histórico não pode ser negado na prática. Mas mesmo esse processo ascendente do conhecimento autoriza afirmar que chegaremos obter um conhecimento absoluto da realidade. O relativismo ocorre quando não reconhecemos nossa condição de criatura finita. O relativismo não está na coisa em si, está sim, no sujeito do conhecimento, o homem. Logo, no plano religioso, quando rejeitamos a essência da suficiência da revelação, desembocamos também no relativismo religioso. Na ausência de um padrão uniforme doutrinário ou na negação de tal padrão cai-se no relativismo doutrinário, mesmo no seio do cristianismo. Isso ocorre porque o relativismo está nos exegetas, não na doutrina revelada. O relativismo gnosiológico é o protótipo das outras formas de relativismo. A gnosiologia é o campo de estudo que se dedica ao conhecimento dito científico, aqui por extensão também do religioso. Podemos pois, afirmar que a não aceitação da impotência da mente ou da razão para compreender todos os modos de ser da realidade se torna o útero do relativismo. E no campo da religião, a rejeição da universalidade de revelação divina [a Bíblia], bem como sua interpretação equivoca, constitui-se matriz do relativismo doutrinário ou do ecumenismo religioso. Portanto, o relativismo nega a universalidade, a autoridade e a verdade do conhecimento com saber absoluto. O relativismo é um dos males dos últimos tempos para a ruína eterna do homem.

Referências

CHUÍ, Marilena. Convite à filosofia. Ática. São Paulo: 2006.
COTRIM, Gilberto & Fernando Mirna. Fundamentos de Filosofia. Saraiva. São Paulo: 2010.
LAUAND, Jean. Razão, Natureza e Graça – Tomás de Aquino em sentenças. Local e data não disponíveis.
LAUAND, Jean. Boécio e o De Trinitate. Local e data não disponível
MCAVOY, Steven L. in: Os fundamentos para o Século XXI. Hagnos. São Paulo: 2009. pp. 37-38.

Por, Francisco Gonçalves.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *