Castelo Forte: o hino da Reforma

Castelo Forte - o hino da ReformaO hino “Ein Feste Burg” (“Fortaleza Poderosa” ou “Castelo Forte”, no alemão) é um dos mais importantes e belos hinos da história do Cristianismo. Seu autor, o ex-monge agostiniano Martinho Lutero, foi o homem usado por Deus para iniciar a Reforma Protestante, evento que afetou a cristandade para sempre e o Ocidente como um todo, inaugurando o mundo moderno. Esse hino, cuja letra e melodia são de Lutero, era considerado pelos primeiros reformadores “O Hino de Batalha da Reforma”, e o célebre poeta lírico alemão Christian Johann Heinrich Heine (17971856) costumava denominá-lo ainda, e com propriedade, de “A Marselhesa da Reforma”, numa alusão ao hino nacional francês, que é uma canção de batalha.

Segundo informa Heinrich Heine, esse hino foi composto por Lutero por volta de 1521, por ocasião de sua convocação para a histórica Dieta de Worms. Dieta era o nome dado às assembleias políticas da época, onde assuntos de interesse do reino eram discutidos e também era, em casos especiais, dado a pessoas acusadas o direito de se defenderem perante os membros ilustres da assembleia especialmente convocada, uma cúpula oficial, que depois discutiria o assunto para dar o seu parecer, que valeria como lei. A tal Dieta foi convocada pelo imperador Carlos 5º (1500-1558) para os dias 27 de janeiro a 25 de maio de 1521, na cidade de Worms e, dentre os assuntos a serem discutidos, o principal era a polêmica em torno dos ensinos de Lutero.

Para garantir a segurança de Lutero, foi-lhe dado um salvo-conduto, uma garantia legal dada pelo imperador de que o ex-monge agostiniano poderia se defender naquele lugar sem medo de sair de lá para a execução. O problema é que nem sempre esse tipo de documento era uma perfeita garantia, já que, em 1415, o pré-reformador John Huss (13691415), em situação semelhante, mesmo com um salvo-conduto do imperador da Boêmia, saiu do Concílio de Constança, na Alemanha, diretamente para a cadeia e, de lá, para a fogueira. Por isso, muitos companheiros de Lutero instaram para que ele não fosse. Segundo a maioria dos hinólogos, teria sido nessa época de tensão sobre se ele deveria ir ou não a Worms que Lutero concebeu o hino “Ein Feste Burg”.

Depois de orar sobre sua convocação, o reformador alemão sentiu que deveria ir à Dieta e declarou: “Ainda que haja em Worms tantos demônios quantos sejam as telhas nos telhados, confiando em Deus, eu ali entrarei”. A inspiração para o hino surgiu durante a sua preparação espiritual para ir àquele lugar. Contava Lutero que foi na leitura do Salmo 46 que ele recebeu a inspiração para compor esse hino.

Após ler esse belíssimo Salmo que fala sobre a fé perfeita em Deus mesmo em meio às situações mais aterradoras, Lutero, com seu coração ainda inflamado, pôs-se a escrever a poesia de “Ein Feste Burg” e, em seguida, uma melodia para ela. Após compor esse belíssimo hino e depois de ordenar todas as coisas relativas ao seu trabalho para o caso de ele não voltar, Lutero partiu para Worms, onde se apresentaria nos dias 16 a 18 de abril daquele ano.

O missionário norte-americano Orland Spencer Boyer, em seu clássico Heróis da Fé, relata o que ocorreu no trajeto de Lutero ao Worms e descreve o momento em que esse hino foi provavelmente apresentado ao mundo pela primeira vez, no dia 16 de abril de 1521: “Na sua viagem para Worms, o povo afluía em massa para ver o grande homem que teve coragem de desafiar a autoridade do papa. Em Mora, pregou ao ar livre, porque as igrejas não mais comportavam as multidões que queriam ouvir seus sermões. Ao avistar as torres das igrejas de Worms, levantou-se da carroça em que viajava e cantou o hino de sua autoria ‘Ein Feste Burg’ – ‘Castelo Forte’ –, que se tornaria o mais famoso da Reforma”.

O poeta alemão Heinrich Heine ainda acrescenta que os colegas que acompanhavam Lutero naquela viagem também cantaram o hino efusivamente com seu líder enquanto entravam com ele pelas portas de Worms de pé sobre aquela carroça, atraindo a atenção da multidão que se juntou à sua chegada: “Um cântico de guerra foi este hino, com o qual ele e seus colegas entraram em Worms. A velha catedral tremeu ao som destas novas notas e os pássaros foram espantados dos seus esconderijos nas torres. Este hino, conhecido como ‘A Marselhesa da Reforma’, conserva até hoje o seu poder e poderíamos usá-lo ainda em ouro conflito semelhante”.

Boyer relata ainda que Lutero, “ao entrar, por fim, na cidade, estava acompanhado de uma multidão maior do que a que fora ao encontro de Carlos V”.

Como estabelecido na convocação, lá estava Lutero em frente à assembleia para se defender. Ela era composta do imperador Carlos 5º, Johann Eck (delegado do papa, ex-colega de Lutero e agora seu grande opositor), seis eleitores do império, 25 duques, 8 margraves, 30 cardeais e bispos que estavam ansiosos para ver o fim do reformador, 7 embaixadores, os representantes de 10 cidades do império e um grande número de príncipes, condes e barões. Depois de uma longa introdução ao assunto, Eck mostrou a Lutero uma mesa repleta de cópias de seus manuscritos e perguntou-lhe se eram seus mesmos e se acreditava naquilo que eles diziam. Percebendo que não teria chances de se defender como gostaria, ele pediu tempo à assembleia para pensar em uma resposta, o que lhe foi concedido. Então, retirou-se para seu quarto em Worms, consultou seus companheiros e foi orar. Lutero orou a noite inteira. Conta Boyer: “Lutero passou a noite anterior em vigília. Prostrado com o rosto em terra, lutou com Deus, chorando e suplicando. Um dos seus amigos ouviu-o orar assim: ‘Oh, Deus Todo-poderoso! A carne é fraca, o diabo é forte! Ah, Deus, meu Deus, que perto de mim estejas contra a razão e a sabedoria do mundo! Fá-lo, pois somente Tu o podes fazer. Não é a minha causa, mas, sim, a Tua. Que tenho eu com os grandes da terra? É a Tua causa, Senhor, a Tua justa e eterna causa. Salva-me, ó Deus fiel! Somente em Ti confio, ó Deus, meu Deus! Vem, estou pronto a dar, como um cordeiro, a minha vida. O mundo não conseguirá prender aminha consciência, ainda que esteja cheia de demônios, e se o meu corpo tem de ser destruído, a minha alma te pertence e estará contigo eternamente’”.

Então, ao apresentar-se no dia seguinte, Johann Eck, sem introduções, perguntou-lhe diretamente: “Lutero, repeles seus livros e os erros que eles contêm?”. A resposta do reformador ficou para a posteridade: “Se não me refutardes pelo testemunho das Escrituras e claros argumentos da razão – uma vez que não creio somente nos papas e concílios, por ser evidente que já muitas vezes se enganaram e se contradisseram uns aos outros –, pelos textos das Sagradas Escrituras que citei e minha consciência, que é submissa à Palavra de Deus, não posso retratar-me, nem me retratarei de qualquer coisa, pois não é justo nem seguro agir contra a consciência”.

Diante da insistência de Eck, Lutero ainda acrescentaria terminantemente: “Não posso fazer outra coisa, esta é a minha posição. Deus me ajude. Amém!”. Conta-se que, ao voltar aos seus aposentos em Worms, o reformador levantou as mãos aos céus e exclamou: “Está cumprido! Está cumprido! Se eu tivesse mil cabeças, preferiria que todas fossem decepadas antes de me retratar”. Em poucos minutos, a notícia da resposta de Lutero correu em Worms, que se alvoroçou. Em poucas horas, a sua resposta ousada foi publicada e espalhada pelo povo em Worms e cidades próximas. Lutero deixaria Worms logo depois, sendo raptado pelos servos do príncipe da Saxônia, que sabendo que o reformador seria condenado, resolveu escondê-lo por um tempo, período no qual Lutero traduziu a Bíblia para o alemão e escreveu a primeira gramática alemã. E o protestantismo avançou, tornando-se uma realidade e espalhando-se pela Europa e o mundo.

Séculos depois, Johann Eck só é lembrado raramente e por ter confrontado Lutero. Este, porém, tem o seu nome lembrado e honrado até hoje, tendo sido consagrado na galeria dos grandes heróis da fé da história. E seu hino “Ein Feste Burg” também seria eternizado nos corações. A hinóloga metodista Ethel Dawsey Ream conta que, logo depois de Lutero compô-lo, “este canto se espalhou por toda a terra e tornou-se o hino nacional da Alemanha protestante”, ao ponto de os inimigos de Lutero afirmarem irados: “O povo inteiro está cantando para essa nova doutrina”. Quinhentos anos depois, em quase todos os países onde o protestantismo já chegou, há versões deste hino.

Ream diz que “Ein Feste Burg” era “cantado diariamente por Lutero e seus companheiros”. Registra o hinólogo batista Bill Ichter que, naqueles anos de tensão da Reforma, “Martinho Lutero, em tempos de dificuldades e provações, sempre se virava para seu companheiro Felipe Melanchton e dizia: ‘Vamos, Felipe, cantemos o Salmo 46’, e então cantavam Castelo Forte”.

Hinário alemão de séculos atrás contendo hino “Castelo Forte”, como é mais conhecido, ou “Deus é nosso Refúgio e Fortaleza”, de Martinho Lutero, baseado em Salmos 46.

(Trecho do capítulo 30 do livro A História dos Hinos que Amamos, CPAD, de Silas Daniel)

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