Facilitadores de milagres

Facilitadores de milagresBasta percorrer os Evangelhos e o leitor encontrará a marcante participação do Senhor Jesus em circunstâncias festivas. Temos menção de sua presença nas distintas festas religiosas judaicas e do uso que fez de seus simbolismos para apregoar a mensagem da salvação. Dentre as festas, destaca-se sua presença nas bodas realizadas em Canah da Galileia, onde principiou a realização de sinais. O segundo capítulo do Evangelho de João traz a narrativa e revela a figura de Maria de forma participativa e missionária, em especial se pensarmos em missões como sendo a identificação de uma necessidade no Reino e a pronta disposição para saná-la. A mulher assim procede. Percebe uma falta e apresenta o problema a Jesus. A resposta do Mestre diz bem de Sua plena consciência do propósito redentor de Sua vinda. Ainda não havia chegado a hora de sanar, em definitivo, a falta de alegria no coração dos filhos de Adão. Ainda não havia chegado a hora de curar as feridas provocadas pelo pecado. Ainda não havia chegado o momento de restaurar a paz. Haveria dia, hora e local para que isso acontecesse. Seria no Calvário, dentro de mais alguns poucos anos – não seria, portanto, naquele momento em Canah. A transformação de elementos simples, no entanto, poderia ser feita; era possível para Ele e era-lhe viável fazê-lo. Uma ordem é dada: “Enchei as talhas!”, e o milagre acontece.

No episódio citado, Jesus manifesta Sua glória pela operação de um sinal num ambiente festivo e importante. Lembremos que as festividades de Pessach, Shavuot e Sucot são mosaicas. A Festa da Dedicação (da qual o Senhor também participou) iniciou-se no período que chamamos inter-bíblico, durante a opressão grega. O casamento, por sua vez, é celebração anterior. Não é inter-bíblica, mosaica, abrâmica ou noaica, mas adâmica ou edênica. Ainda que anterior, ainda que exista uma prerrogativa cronológica humana, não se estabelece uma cronologia profética, e isso é claro no fato de que, tendo o Cordeiro sido morto desde antes da fundação do mundo, o Eterno preparara uma provisão para o homem mesmo antes de sua criação – dentro dessa ótica, a Páscoa é a celebração precursora de todas as outras. Na dimensão do tempo humano, no entanto, o casamento é a celebração primeira. Sua importância marca o início de nossa caminhada coletiva e individual. Com ele nasce a família e olhando para ele compreendemos nosso futuro como Igreja.

Encher as talhas é a ordem do serviço que precisa ser feito e do qual as bodas não podem prescindir, senão sob o risco de perder sua alegria. Seis talhas estavam dispostas e disponíveis. Alguns servos (seu número não é especificado) estavam presentes. Provavelmente havia algum lugar para o abastecimento, embora não saibamos o tipo ou a distância do que poderia ser uma cisterna, uma fonte, um rio… O peso das talhas, por sua capacidade, provavelmente exigiu que o trabalho fosse feito com sucessivas idas e vindas com reservatórios menores. Cada um dos servos obedeceu segundo as vasilhas de que dispunha e segundo sua força. Junte-se a isso que carregar água não é algo que se possa fazer sem atenção e equilíbrio. Qualquer um que tenha observado a maneira como são levadas as latas d’água nos lugares carentes de infraestrutura sabe do cuidado que a atividade requer. A necessidade parece desenvolver uma habilidade específica que resulta num quadro que mescla a postura principesca das mulheres aguadeiras e a triste realidade de meninos e meninas envolvidos no mesmo esforço, incompatível com a fragilidade de seus corpos.

Encher talhas é tornar-se um facilitador do milagre que não podemos fazer. A obediência produz gozo, após o trabalho, de ver o Mestre operar, de ver a alegria retornar e de se saber minimamente participante daquilo que aconteceu. O servo sabe, humildemente, que não possui poder para a transformação. Sabe, também, que foi chamado a envolver-se em algo que fez diferença para muitas vidas. Nos espaços pouco visitados da festa ele trabalhou, suou, cansou-se, precisou vencer qualquer desejo de desistir. Lutou contra pensamentos ou pessoas que lhe diziam da irracionalidade daquilo. Obedeceu àquele Convidado singular. Viu o milagre. Ouviu o som alegre do festejo retornando à casa.

Esta é uma mensagem para aqueles que foram chamados por Deus para serem “Facilitadores de Milagres” para Israel. Trata-se de um verdadeiro exército de servos que, contra todas as evidências e vencendo aqueles que não veem futuro em seu trabalho, prosseguem em ações, as mais diversas, nas mais diferentes áreas. Que o Eterno os fortaleça no amor a Sião e abençoe de maneira redobrada os que fazem menção de Israel para o bem. Há os que ensinam o amor pela descendência de Abraão; há quem faça reviver as canções hebraicas antigas, verdadeiros hinos em que as Escrituras são entoadas; há quem esteja atento para as publicações antissemitas; há quem zele pelas melhores traduções do texto bíblico para propiciar a remoção de quaisquer equívocos quanto aos propósitos divinos para o povo escolhido; há quem promova e financie projetos de Aliah (subida, retorno a Israel); há quem lide com a reconciliação entre cristãos e judeus (também entre árabes e judeus); há quem promova manifestações de amor a Israel, participando de suas dores, estando presente, ministrando consolo a Sião, conforme ordenado nas Escrituras; há quem desafie a mídia internacional e ofereça opção aos dados manipulados; há quem viaje a Israel, mesmo e, especialmente, em tempos difíceis; há quem ensine os jovens, livrando-os das tradições preconceituosas; há quem trabalhe voluntariamente em Israel, cuidando de crianças, de mutilados de guerra, de remanescentes, de imigrantes em fase de adaptação, de pobres em suas necessidades, de pessoas que perderam seus sonhos sob a ação dos mísseis inimigos. Há quem tenha sido levantado por Deus para agir na dimensão de nossa política externa, nos últimos anos tão partidária e próxima a grupos e países que se opõem aos judeus. Há quem tenha nas mãos algum bálsamo, ou pão, ou prata, ou pena, ou lei, ou força para o gesto ocidental de amizade que abriga na sua a mão de seu amigo.

Um Facilitador de Milagre sabe que vive num tempo precário, mas vê, nele, o prenúncio da transformação que virá. Lembrando as palavras do Senhor: “Aprendei, pois, a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as folhas brotam, sabeis que está próximo o verão” (Mateus 24.32). A figueira, Israel, não foi amaldiçoada como nação ou povo. Ainda que parte da geração dos dias de Jesus tenha desprezado sua mensagem, lembremos que Ele mesmo e que Seus apóstolos eram judeus, que a Igreja nascente era composta por judeus e que não cabe neles a imagem da árvore frondosa em suas folhas, mas destituída dos frutos. A religiosidade que foi barreira para a fé em muitos corações não era o retrato de outros corações fiéis em sua busca pela vontade de Deus. Debaixo de uma figueira, o israelita Nathanael testemunhava secretamente sua verdadeira dedicação, a ponto de ser declarado isento de dolo pelo Senhor. O verão está próximo. “… e a voz da rola ouve-se em nossa terra. A figueira começou a dar os seus figos e as vides em flor exalam o seu aroma; levanta-te querida minha, formosa minha, e vem” (Cantares 2.12b e 13). Enquanto Israel produz suas folhas e frutos (restauração nacional e projeção internacional através de avanços nas mais variadas áreas) e a vide produz suas flores (restauração espiritual), a amada noiva prepara-se para levantar-se e ir ao encontro do Amado. Benditas as folhas, os frutos e os aromas que prenunciam nossa partida. Benditos facilitadores de um milagre que não podem fazer, mas para o qual são ordenados a abrir caminho e fornecer material. Bendito o que leva a mensagem da salvação e que diz a Sião “o Teu Deus Reina”. Bendita esperança de nosso levantar.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Google Translate »