A doutrina da encarnação do Verbo

A doutrina da encarnação do VerboA doutrina da justificação é o artigo de fé cuja compreensão constitui-se o meio pelo qual a Igreja mantém-se de pé ou desaba. A Cristologia, analogamente, é a doutrina cuja compreensão determinará a continuidade ou a anulação do cristianismo. A doutrina bíblica, em determinados contextos, como, por exemplo, a encarnação, tem que ser compreendida pelo chamado método estruturalista. A essência desse método diz que o particular está subordinado ao todo. Em termos hermenêuticos, diríamos: um dado texto deve ser interpretado à luz do contexto, ou seja, um dado texto deve ser compreendido à luz do texto todo. O evento da encarnação deve ser visto à luz do propósito final da criação. O propósito final de Deus com relação ao homem constitui-se, pois, a noção de totalidade. E esse propósito final de Deus com relação ao ser humano está expresso na revelação divina, ou seja, nas Sagradas Escrituras.

As Escrituras, em sua primeira dispensação, isto é, o Antigo Testamento, já contém paramentos, isto é, a pré-compreensão do evento da encarnação de Deus. O evento da encarnação, registrado no Novo Testamento, não constitui uma ruptura em relação à Escritura hebraica, isto é, ao Antigo Testamento. Pelo contrário, as Escrituras como um todo são o fundamento inabalável do evento da encarnação de Deus Filho. Sendo o evento da encarnação a revelação final de Deus à humanidade, fica assim compreendido que o nosso conceito de Deus deve ser entendido à luz desse evento. Como de fato assim é, devemos, pois, demonstrar textos do Antigo Testamento que fundamentem essa visão de totalidade no que diz respeito à encarnação. O próprio Cristo nos aponta essa visão. Em Lucas 24.25-26, lemos: “Então, lhes disse Jesus: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua gloria? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras”.

A encarnação tem de ser vista pela visão de totalidade das Escrituras. O primeiro registro bíblico que nos dá uma pré-compreensão do conceito de Deus como Trindade acha-se no primeiro versículo da Bíblia (Gênesis 1.1): “No principio, Deus (Elohim) criou os céus e a terra”. O termo Elohim é um substantivo plural. Tem-se objetado que o termo se trata de um plural majestático, mas aqui eu aplico a máxima de Jean-François Lyotard: “Quem decide o que é o saber, e quem sabe o que convém decidir?” Ou seja, quem tem o poder ou a capacidade de dizer que o termo Elohim não trata da pluralidade de pessoas em Deus? O chamado plural de majestade é na realidade o plural da incredulidade. Eu aplico aqui também a máxima de Kant, que diz: “Das coisas só conhecermos a priori (antes da experiência) aquilo que nós mesmos colocamos nelas”, ou seja, ninguém teve um conhecimento experiencial de Deus que possa afirmar que Deus não seja uma pluralidade de pessoas. Aplico também a essência do método fenomenológico que diz: “Voltemos às próprias coisas mesmas”, isto é, deixemos que a Escritura se explique a si mesma. Façamos, pois, uma epoché, isto é, uma suspensão de juízo, de nós mesmos e do que os outros dizem. Deixemos o próprio texto bíblico em sua totalidade falar.

Outros textos que falam da pluralidade de pessoas no Antigo Testamento são os que dizem respeito ao Anjo do Senhor. Sobre este tema, escreveu Charles Hodge (2001:363): “Assim descobrimos por todo o Antigo Testamento constante menção de uma pessoa, distinta de Jeová, como alguém a quem, contudo, se imputam os títulos, os atributos e as obras de Jeová. […] Mas quando tal descrição se repete por toda a Bíblia; quando descobrimos que esses termos se aplicam não antes a um anjo particular, que a pessoa assim designada é também chamada de o Filho de Deus, o Deus Onipotente; que a obra a ele atribuída é em outras partes atribuída ao próprio Deus, e que no Novo Testamento, esse Jeová manifesto, que conduziu seu povo sob a dispensação neo-testamentária, se declara ser o Filho de Deus, o Logos, que se manifestou na carne, torna-se indubitável que pela expressão Anjo de Jeová, nos primeiros livros da Escritura, devemos discernir uma pessoa divina, distinta do Pai”.

O Anjo do Senhor revelado na Escritura é o Logos de Deus. Logos, em grego, quer dizer “razão” ou “palavra”. Para os gregos, o Logos era a forma universal e princípio de todas as coisas existentes, é o princípio da ordem e forma do universo. Na Bíblia, o Logos é auto-manisfestação de Deus, é o Anjo de Javé. Deus é essência infinita e espiritual. Por infinito, quer se dizer que Deus é maior que a Sua criação, Sua criação é sustentada por Ele (Hebreus 1.3). Deus, como Ser infinito, tem Seu Logos, que é Sua Palavra interior. A Palavra de Deus é a auto expressão de Deus, é da mesmíssima essência, é o Filho do Pai. Deus se comunica por meio de Sua Palavra, o Seu Logos. Logo, a Palavra de Deus, sendo Deus mesmo, é distinta do Pai. Por que a salvação veio através dos judeus (João 4.22)? Porque os judeus era o povo que servia o Deus verdadeiro, portanto o Cristo ou Logos tinha que vir dentro dessa estrutura do conhecimento do Deus vivo e verdadeiro.

Os primeiros cristãos eram monoteístas, serviam o Deus único (Mateus 4.10). “Todos os cristãos adoravam a Cristo. Ele era para eles o objeto de supremo amor e a base de sua confiança; a ele estavam sujeitos no coração e na vida. Nele esperavam para tudo. Ele era seu Deus no mais estrito sentido da palavra. Além do mais, era visto como uma pessoa diferente, e não meramente como um nome distinto para o Pai” (Hodge, 2001. pg. 343). Textos que têm que ser interpretados como reivindicação de deidade pelo próprio Cristo se acham em todo o Novo Testamento. Por exemplo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14.6); “Quem me vê a mim vê o Pai” (João l4.9); “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11.28). Nem homem ou anjos podem se expressar dessa maneira, só Deus pode fazê-lo.

Sobre a adoração a Deus na Pessoa de Jesus, devemos considerar a experiência de milhões de cristãos em todas as eras e em todos os lugares: em Cristo, o cristão se encontra com o Deus verdadeiro, e o método pragmático diz: “A força da verdade se manifesta onde a verdade funciona”. Portanto, toda crítica que afirma que o cristianismo foi helenizado não passa de falsos pressupostos para manter a visão panteísta de Deus na “alta cultura alemã”. O Concilio de Calcedônia definiu a pessoa do Senhor como: “Seguindo, então, aos Santos Padres, unanimemente ensinamos a confessar um só e mesmo Filho: nosso senhor Jesus Cristo, perfeito em sua divindade e perfeito em sua humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem (composto) de alma racional e de corpo, consubstancial ao Pai pela divindade, e consubstancial a nós pela humanidade, similar em tudo a nós, exceto no pecado, gerado pelo Pai antes dos séculos segundo a divindade, e, nestes últimos tempos, por nós e por nossa salvação, engendrado na Maria virgem e mãe de Deus, segundo a humanidade: um e o mesmo Cristo senhor unigênito; no que têm que se reconhecer duas naturezas, sem confusão, imutáveis, indivisas, inseparáveis, não tendo diminuído a diferença das naturezas por causa da união, mas sim, tendo sido assegurada a propriedade de cada uma das naturezas, que concorrem a formar uma só pessoa. Ele não está dividido ou separado em duas pessoas, mas sim é um único e mesmo Filho Unigênito, Deus, Verbo, e Senhor Jesus Cristo como primeiro os profetas e mais tarde o mesmo Jesus Cristo o ensinou que si e como nos transmitiu isso o símbolo dos padres”.

Mas esse símbolo de fé não deve ser compreendido como se Cristo fosse um ser mitológico: uma banda Deus e a outra, humana; dois seres, um ligado ao outro. Ao contrário, devemos entender que Deus, o Logos, agiu no nível humano, isto é, agiu como um verdadeiro homem, foi um esvaziamento, mas Deus Filho jamais deixou de ser Deus. Sirvamos o Deus Todo Poderoso na Pessoa de Seu Logos, isto é, na Pessoa de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Bibliografia

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Hagnos. São Paulo. 2001.
KELLY, J. N. D. Doutrinas Centrais da Fé Cristã – Origem e Desenvolvimento. Vida Nova. São Paulo. 1994.
TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. ASTE. São Paulo. 2007.

Por, Francisco Gonçalves da Costa Gomes.

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