Gideão e o teste junto às águas do terror

Gideão e o teste junto às águas do terrorAo pé do Monte Gilboa, no limite sudeste do Vale de Jezreel, brotam, ainda hoje, as águas frescas e límpidas da caverna de Harod. A pequena elevação local, parte de um conjunto maior, costuma ser chamada de Monte Harod e a fonte que ali emana alimenta um complexo de piscinas muito requisitadas por turistas e por moradores de Israel, especialmente porque, logo ao se distanciarem da origem, suas águas ganham uma temperatura morna, atraindo famílias que se reúnem para o lazer, gozando desse verdadeiro oásis de vegetação abundante. Visitas ao local têm sido cada vez mais requisitadas por evangélicos de vários países, proporcionalmente ao distanciamento crescente entre nossos roteiros e os fantasiosos roteiros tradicionais. A sede dos que se dedicam ao estudo da Palavra de Deus finda por requerer das agências de viagens e dos guias turísticos um maior conhecimento da geografia, da história e dos achados arqueológicos. Em Jerusalém, por exemplo, tornou-se comum ver grupos optarem por percorrer os túneis sob a Cidade, com suas pedras datadas de mais de dois milênios, em lugar de aceitarem os caminhos da chamada “via dolorosa”, de idade mais recente, como caminho por onde teria passado o Salvador.

O crescimento do turismo evangélico em Israel ganha espaço e requer novas opções. Grupos procuram sítios históricos, inclusive doando um dos dias de excursão para trabalhar em escavações que estejam em curso, outros oferecem voluntariado com crianças ou com idosos. Há quem decida separar uma noite para cultuar ao Senhor junto aos irmãos em uma das muitas igrejas locais. Deixando de lado as catedrais e as vias enganosas, abrem-se para os cristãos os caminhos para um sem número de museus, locais de exploração, congressos, cursos, passeios de charrete, de barco, experiência no deserto em tendas beduínas, passeios de camelo, visita a lugares que retomam a vida como nos dias de Jesus com suas eiras, lagares, apriscos e fontes.

Um ‘tour’ pelas fontes de Israel pode ser a proposta de uma viagem repleta de ensino e de beleza. A fonte de Gion, nos subterrâneos de Jerusalém é um passeio desafiador. A fonte junto à qual o Rei David se refugiou no deserto de Ein Gedi fará o visitante entoar os salmos segundo uma nova ótica. O louvor também brotará dos lábios de quem contemplar o Jordão próximo às suas nascentes, no Monte Hermon. As águas de Harod, especialmente no início de sua jornada, na caverna de Gideão, convidarão à lembrança do exame pelo qual passaram seus guerreiros, naqueles tempos terríveis em que os midianitas atacavam as colheitas do povo de Deus.

Junto à face brilhante das águas os homens foram provados. Mayam Harod significa, literalmente, águas do terror ou águas do medo. Alguns atribuem o nome à evasão de milhares de guerreiros que se auto avaliaram, reconhecendo-se medrosos. Outros ponderam que o nome deve ser referência à localização das águas, cercadas de juncos onde um inimigo poderia espreitar e atacar. Outros consideram que as águas despertam o medo de perdê-las numa eventual batalha pois naquela localidade reúnem-se as únicas provisões de água da região. Estrategicamente, quem as possuísse guardaria a melhor condição de vitória num confronto. Além disso, seus cursos providenciam verdadeiras trincheiras para soldados, que poderiam simplesmente deixar-se ficar e atacar o inimigo que viesse matar a sede. Certamente não era lugar para um guerreiro desatento. Dos dez mil que desceram às águas, nove mil e setecentos mostraram-se despreparados para uma guerra em que a obediência e a astúcia responderiam mais pela vitória do que as espadas.

Sobre ‘Ain Jalud’ (nome árabe para Mayam Harod), o perito G. A. Smith declara: “Brota com cerca de quinze pés (menos de 5 metros) de largura e dois pés de profundidade do sopé do Gilboa […] alimentada também por mais duas fontes (‘Ainel Meiyiteh’ e ‘Ain Tuba ’un’) flui com força suficiente para operar seis ou sete moinhos. O leito fundo e as margens moles desta corrente constituem formidável trincheira em frente à posição de Gilboa e fazem com que seja possível que os defensores desta retenham a fonte a seus pés em face dum inimigo na planície: e a fonte é indispensável para eles, pois nem à esquerda, nem à direita, nem na retaguarda existe outra água viva… A corrente, que torna possível que os ocupantes da colina retenham também o poço contra o inimigo na planície, proíbe-lhes ser descuidados na utilização da água, pois eles bebem dela diante desse inimigo, e os juncos e os arbustos que assinalam seu curso fornecem abrigo para emboscadas hostis.” (The Historical Geography of the Holy Land, Londres, 1968).

Os trezentos aprovados junto às águas do terror constituíram a verdadeira espada de Gideão. Algo que foi comparado a um pão de cevada, o cereal dos pobres, o segundo grão citado em Israel, logo após o precioso trigo, ao qual o guerreiro dera importância a ponto de malhá-lo com risco num lugar inesperado. Cevada, alimento dos cavalos, cuja semeadura inicia-se em outubro ou novembro, antes da estação fria, amadurecendo no princípio de março, cresce em solos áridos e pedregosos, de forma rápida, e não requer muitos cuidados. Ao ser transformado em pão, alimenta, desde os tempos mais antigos, a população das classes inferiores do Egito, de Israel e arredores. Quem atribuiria valor à cevada? Quem lhe atribuiria alguma honra? O Eterno, Criador dos grãos, tanto do trigo quando da cevada. Ora, com cevada um homem deveria se apresentar diante do Senhor numa oferta por sua honra manchada. O resgate da honra de um homem dava-se através da instrumentalidade simples de uma oferta comum, do grão rústico ao qual não se dava valor. Um pão de cevada é a figura de um exército simples, composto por homens trabalhadores, coerentes em sua disposição de servir e, sobretudo, honrados.

Ficar com trezentos dos trinta e dois mil homens originais significou para Gideão ter menos de um por cento do exército inicial. O Senhor, porém, considerou correto fazer com que ele soubesse previamente que o líder conta, de fato, com poucos. Alguns sempre darão mais importância à própria sede, sem dar atenção à realidade da batalha na qual estão envolvidos. Outros vigiarão, queira Deus, constantemente. O Eterno malhou os grãos e separou para si a cevada com que preparou o pão honesto que saciou de vitória os israelitas daqueles dias. Ele ainda testa os verdadeiros grãos. A Igreja ainda vive em sua verdade simples, corajosa e eficaz, confiando menos na força dos homens na guerra e muito mais na direção preciosa de Deus, guiando aqueles que Ele mesmo aprovou.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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