Um crente salvo pode apostatar-se?

Um crente salvo pode apostatar-seA apostasia é uma realidade indubitável ao longo da história, embora para muitos ela não seja possível para um cristão verdadeiramente salvo. O termo apostasia no original grego é apostasis, significa o abandono deliberado e premeditado da fé em Cristo. “É o ato de uma pessoa renegar a sua fé” (SCHÜLER). Para alguns teólogos, a apostasia de um crente salvo não é possível. Pois se um cristão apostatou-se da fé, é porque nunca foi salvo, pois uma vez salvo, salvo para sempre.

No entanto, a Bíblia como nosso manual de regra, fé e prática, nos mostra que é possível sim, um cristão salvo apostatar-se. O texto bíblico nos faz fortes advertências em relação a sua possibilidade. Paulo ao escrever sua primeira carta ao jovem pastor Timóteo, declara: “Mas o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, atendendo a espíritos enganadores e a doutrina de demônios” (1 Timóteo 4.1 – TB). Observemos que o eminente apóstolo, não apenas mostra que ela seria uma realidade, mais aponta dois fatores que podem levar o cristão à apostasia: obedecer a espíritos enganadores e a doutrina de demônios.

O anônimo escritor da carta aos hebreus, também nos faz uma sólida advertência quanto ao perigo da apostasia. Se não, vejamos: “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mal e infiel, para se apartar do Deus vivo” (Hebreus 3.12 – ARC). “O termo ‘apartar’, verbo grego aphistemi, é definido como: Decaída, deserção, rebelião, abandono, retirada ou afastar-se daquilo a que antes se estava ligado” (STAMPS). O versículo supracitado sugere claramente um autoexame, pois a negligência e desobediência premeditadas, e um coração mal e infiel, podem levar uma pessoa a cair e apostatar-se de Cristo.

Para entendermos melhor essa questão, vejamos outro texto neotestamentário que também trata do assunto em voga: “Ora para aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, experimentaram a bondade da palavra de Deus e os poderes da era que há de vir, e caíram, é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública” (Hebreus 6.4-6 – NVI). Nesse versículo podemos observar a declaração explicita e categórica do autor sacro. Porém, alguém ainda pode objetar que o texto não se refere a um cristão fiel. O teólogo norte americano Lawrence O. Richards afirma que devemos admitir que o autor do texto de Hebreus, sem dúvida, identificou as pessoas que ele tem em mente como cristãos. Pois o autor está falando de pessoas que: (1) Foram iluminadas; (2) provaram o dom celestial; (3) se fizeram participantes do Espírito Santo; (4) provaram a boa Palavra de Deus. Ele ainda declara: “Estes são os verdadeiros crentes, que experimentaram o dom da salvação, receberam o Espírito Santo e participaram da boa Palavra de Deus. Eles são fieis cristãos em todos os sentidos da palavra” (RICHARDS).

Quando lemos o Livro de Hebreus, observamos que nos capítulos anteriores ao capítulo 6, o autor fala da apostasia fazendo uma relação com os hebreus que experimentaram milagres e provisões de Deus, mais mesmo assim se apostataram do Deus todo poderoso. Eles passaram o sangue do cordeiro nos umbrais das portas do Egito, seus primogênitos do sexo masculino foram poupados da mortandade, atravessaram o Mar Vermelho, comeram do Maná, contemplaram a Coluna de Fogo, mais seus corações foram endurecidos pelo pecado da incredulidade. Por isso, o teólogo Simom Kistemaker arrazoa: “O que a passagem de Hebreus 6, significou para seus leitores originais? O Autor meramente dá um aviso ou ele pensa que o exemplo dos israelitas seria imitado pelas pessoas às quais ele se dirige em sua carta? Os avisos constantes, repetitivos e profundos do autor provam conclusivamente que a apostasia pode ocorrer” (Hebreus 3.12-13; 4.1,11; 12.15).

Sabemos que um servo de Deus, é inerente ao perigo de cair da graça. Porém precisamos considerar que “há uma diferença entre cair em pecado e apostatar. Pedro caiu em pecado, mais se arrependeu e viu Jesus ressurreto, ao passo que Judas apostatou-se de Cristo e nunca mais o viu” (KISTEMAKER). Pois a natureza do pecado de apostasia opõe-se ao arrependimento (Hebreus 6.6). O artigo IV da remonstrância diz: “Que esta graça de Deus é o começo, a continuação e o fim de todo o bem; de modo que nem mesmo o homem regenerado pode pensar, querer ou praticar qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação para o mal sem a graça precedente (ou preveniente) que desperta, assiste e coopera”. Entretanto, jamais somos eximidos da responsabilidade de correr com perseverança a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus Cristo (Hebreus 12.1-2).

Admitir que um crente salvo pode apostatar-se, não torna o sacrifício de Jesus insuficiente. Pela Bíblia sabemos que Jesus morreu por todos (Hebreus 2.9); é o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem (1 Timóteo 4.10b); o desejo de Deus é que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1 Timóteo 2.4). Assim podemos afirmar que o sacrifício de Jesus é ilimitado e suficiente a todos, mas eficiente apenas para os que creem (João 3.16). Como afirma o teólogo assembleiano Elinaldo Renovato: “Jesus é o salvador em potencial de todos os homens; mas efetivamente só dos crentes”.

No que tange ao perigo da apostasia, a Bíblia ainda fala dos judeus que procuraram ser justificados pela lei, separaram-se de Cristo e caíram da graça (Gálatas 5.4); da apostasia como um dos sinais da segunda vinda de Cristo (2 Tessalonicenses 2.3); de alguns que por rejeitarem a boa consciência, naufragaram na fé, como Himineu e Alexandre (1 Timóteo 1.19,20); e também dos anjos que se apostataram (Judas 6). A blasfêmia contra o Espírito Santo, também gera apostasia, pois se constitui como pecado que não tem perdão (Mateus 12.31). Assim podemos concluir com base na Escritura Sagrada, que se um crente salvo não perseverar com uma vida de santidade (Hebreus 12.15), vigilância e oração (Mateus 26.41), poderá cair e até mesmo apostatar-se da fé.

Soli Deo Glória!

REFERÊNCIAS

1. KISTEMAKER, Simom. Comentário do Novo testamento, Exposição de Hebreus. Traduzido por Marcelo Toletino, Paulo Arantes. 2ª Edição – São Paulo: Cultura Cristã, 2013.
2. LIMA, Elinaldo Renovato de. Os cinco pontos do arminianismo. Revista Obreiro Aprovado. Ano 36 – nº 75. Rio de Janeiro: CPAD, 2016.
3. RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.
4. STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1995. 5. SCHÜLER, Arnaldo. Dicionário Enciclopédico de Teologia. Canoas: Editora ULBRA, 2002.

Por, Raydfran Leite de Oliveira.

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