Bendito seja o nome de Sem

Bendito seja o nome de SemPodemos definir o antissemitismo como “a hostilidade ideologicamente motivada contra judeus, indivíduos judeus ou cultura judaica”. Essa hostilidade envolve uma “percepção pejorativa dos traços físicos ou morais judaicos que não têm fundamento algum ou é o resultado do exagero ou da generalização irracional”. Os critérios de veracidade e de racionalidade foram rebatidos no passado por Goebbels, ministro da propaganda nazista, segundo quem: “a verdade não tem nenhuma importância, pois a mentira falada milhares de vezes com convicção acabará impondo-se como verdade”. Desse ensino beberam os nazistas nos dias de Hitler e dele ainda servem-se os nazistas na atualidade. Sem refletir, repetindo e propagando, muitos aumentam o coro da oposição aos filhos de Israel, subestimando ou ignorando as consequências de seus comentários.

Há, porém, muitas maneiras de perpetrar o preconceito. Uma delas pode ser percebida nas constantes tentativas de reduzir os males que esse mesmo preconceito provocou, e isso através do apagamento histórico ou do deslocamento de uma nomenclatura para fazer parecer que o passado de horrores em nada difere de outras recorrentes situações. Dessa forma é feito com o termo ‘holocausto’, frequentemente usado em ocorrências legitimamente repudiáveis por sua desumanidade, mas para as quais não se pode atribuir uma expressão que conjuga perversamente o conceito de mortandade à ideia de um cerimonial religioso em que a purificação se obtém através do extermínio de um povo. Afinal, em nome de que “deus” subiu a fumaça das atrocidades cometidas e, em nome de quem e a quem interessa banalizar uma palavra tomada, justificavelmente, como símbolo dos horrores cometidos na segunda grande guerra mundial? No sentido extrabíblico e na dimensão histórica houve apenas um holocausto – a expressão grega retirada da tradução do Tanach hebraico passou a designar, a partir de 1960, o genocídio de “seis milhões de seres humanos, sem discriminação de idade ou sexo, cujo único delito, cuja única culpa foi serem judeus”. Qualquer tentativa de “descolar” a palavra da situação histórica específica revela a manobra ideológica de reapresentar uma terminologia em situação diversa para fazê-la herdeira da força daquela que a antecedeu, junto com a aprovação ou o repúdio que a acompanham. Resumidamente, trata-se da prática da manipulação pelo deslocamento lexical sem que se anule o sentido original para valer-se dele e atribuí-lo a quem ou àquilo de que se queira fortalecer ou envilecer o sentido.

Coisa similar ocorre com o termo ‘antissemitismo’. Aqueles afeitos às narrativas bíblicas poderiam compreender como uma aversão a todos os descendentes de Sem, filho de Noah. A palavra ‘semita’ envolve a subfamília da família das línguas afroasiáticas, incluindo o hebraico, aramaico, árabe e amhárico (etíope), sendo relativa aos semitas de maneira geral e aos judeus em sentido particular (Dicionário Merriam Webster). O antissemitismo poderia ser, então, qualquer hostilidade a judeus, árabes, etíopes ou arameus. O entendimento assim estendido é especialmente caro a quem queira deslocar os relatos de anti-judaísmo e sinonimizá-los a, por exemplo, anti-arabismo.

As palavras, como os povos, possuem sua gênese particular. A palavra alemã ‘Antisemitismus’ é atribuída a WilhemMar, escritor antissemita que a cunhou numa época de crescente ódio racial (ainda que o ódio religioso não houvesse tomado as dimensões que tomou posteriormente). O pastor Sady Rachewsky ressalta que o termo foi uma “alternativa à palavra alemã mais antiga ‘Judenhass’, significando ódio aos judeus”. Nascida, portanto, em 1873, com Wilhem Mar, foi primeiramente impressa em 1880 (“Cadernos informais antissemitas”) e modificado para ‘Antisemiten’ por Wilhelm Scherer no jornal “Neue Freie Presse”. Derivando dos dois vocábulos (e não ao contrário, como normalmente se pensa), o termo ‘Semitismo’ foi criado em 1885. As expressões sempre estiveram relacionadas aos judeus e não buscavam evocar toda a descendência pós-diluviana daquele cuja bênção esteve atrelada ao seu Deus.

“Bendito seja o Deus de Sem” – e, assim, as gerações posteriores do homem cujo nome significa… ‘nome’ (Sem=nome) foram abençoados. Fique claro, no entanto, que ‘antissemitismo’ não é anti-arabismo ou anti-islamismo – é o ódio aos judeus fomentador de muitos fornos de destruição. Qualquer deslocamento lexical reflete ato manipulador de viés ideológico acrescido, no mínimo, de severo desconhecimento histórico.

Para combater o ódio é preciso enfrentá-lo quando “jaz à porta” para destruí-lo antes que destrua a nós e aos nossos irmãos. O Eterno a todos ama e é o verdadeiro Nome debaixo do qual os povos encontram refúgio. Bendito seja HaShem – O Nome e benditos aqueles que não guardam dEle ou de Seus filhos hostilidade alguma.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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