Como eu quero teologizar

Como eu quero teologizarQuando assumimos um púlpito, a teologia passa a ser verbo. Pregar, interpretar a Bíblia, administrar eclesiasticamente sempre é teologizar, não tem como fugirmos a esta realidade. A grande questão não é se teologizamos, mas sim, como teologizamos. Que Deus apresentamos nesse processo de teologização? Um Deus distante, frio, presente apenas nos compêndios teológicos? Ou um Deus que além de transcendente é também imanente? Imana em nossas dúvidas, anseios, lágrimas e agruras, decepções.

Quero teologizar com uma homilética mais realista e humana construindo uma ponte perfeita entre o porvir e o “aqui agora”. Quero falar sobre as ruas da Nova Jerusalém sem deixar de esquecer as ruas das favelas, o pátio do colégio onde estudam, os corredores dos hospitais onde muitos choram, as encostas onde muitos tecem os fios de sua historia humana. Não quero empurrar toda a felicidade para o futuro, mas também não quero antecipar a felicidade escatológica para o momento. Sempre que vou pregar lembro-me que tenho diante de mim adolescentes irrequietos, universitários idealistas, pequenos e médios empresários, funcionários públicos, idosos sábios, profissionais liberais. Diante de suas aflições, vaidade, arrogância, desafios e questionamentos, pedem força. A pregação bíblica pode ajudá-los. Neste momento peço ajuda a Deus. Quero pregar uma mensagem relevante. Quero apresentar para tais pessoas um Deus que se importa com eles, um Jesus que os ouve, um Espírito Santo que os consola. Quero falar sobre o céu sem desgrudar do mundo. Quero apresentar a Nova Jerusalém sem levá-los a esquecer do suor da vida presente. Quero falar sobre vida eterna sem deixar de levá- -los a lutar pela vida presente. Assim, quero teologizar sem a homilética da arrogância, que torna os pregadores fantoches e os ministros do púlpito atores. A homilética da arrogância teatraliza nossas pregações e torna o púlpito vitrine para exposição de nossos talentos homiléticos. Quero uma homilética realçada por atitudes coerentes e ungida pelo Espírito Santo. Verbosidade destoante de ações concretas cheira farisaísmo.

Quero teologizar sem o fascínio do sucesso. O sucesso inebria-nos com aplausos, oculta a simplicidade da manjedoura e despi a diaconia do Cristo. O desejo incontrolável do sucesso teatraliza nossas pregações, torna o púlpito vitrine para exposição de nossos talentos homiléticos, além de nos fazer medir o sucesso meramente pelo tamanho da Igreja que pastoreamos ou a marca do veículo que dirigimos. Assim, a medição do sucesso deixa de ser pelos parâmetros bíblicos e são pautados pelos parâmetros materiais. Quero o sucesso pautado pelas Escrituras. O sucesso em Atos era uma Igreja que embora hostilizada, atraía inconversos pelas atitudes coerentes.

Quero teologizar sem as hermenêuticas do antropocentrismo. Estas, torcem textos bíblicos para satisfazer egos, alimentar messianismos e levantar vultuosas ofertas para erigir torres ao próprio nome. Quero uma hermenêutica que não apenas busque o sentido do texto, mas que construa sentidos àqueles que a vida não lhe ofereceu nem sentidos nem oportunidades.

Quero teologizar sem a hamartiologia da pós-modernidade que afinados com Russeau diz que o homem é bom, a sociedade é que os corrompe. Assim o pecado não é mais errar o alvo, pois até o alvo é mudado de lugar conforme a conveniência. Quero uma hamartiologia que não envernize pecado e nem utilize eufemismos para amenizar-lhes os efeitos ou não provocar, conforme dizem: “traumas” em consciências cauterizadas. Quero uma hamartiologia cujo verbete defina pecado como pecado. E que dos nossos púlpitos o pecado não seja apenas definido, mas confrontado! Aos arrependidos: o advogado Jesus! Aos impenitentes: o fogo do Geena! Afinal, não isto que afirma as Escrituras?

Quero teologizar sem a missiologia do período medieval que olhava apenas para o aumento do ouro e não para salvação das almas! Assim dilatavam os impérios e apequenavam o Reino! Quero a missiologia do Cristo encarnado e da Igreja apostólica, que partindo de Jerusalém chegou até Roma em poucas décadas! Missões somente em planilhas não coaduna com o propósito da encarnação. Cristo não ficou apenas planejando a salvação. Ele veio buscar e salvar o perdido. Não foi isto que fez a Igreja de Atos: fez-se missões?

Quero teologizar com a Escatologia da Esperança. Teologia que não enxuga lágrimas e só alimenta materialismos só enchem bolsos e esvaziam corações. Se nós esperamos Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. Quero uma Escatologia coerente que saiba esperançar sem desesperançar! Que mesmo que derrame lágrimas em um sepultamento saiba aguardar a resposta à exclamação de Paulo: “Onde está, ó morte o teu aguilhão?”

Quero teologizar com a Eclesiologia fundamentada nas Escrituras. Eclesiologias estilo empresarial não distingue a Eclesia fundada pelo Cristo. Não são chamados e muito menos para fora. Do mundo não saem e por isso não divisam a voz do Nazareno. Secularizam tudo: fundamentos, métodos e resultados. Reduzem a Eclesia a um mero grupo organizacional. Os itens da Grande Comissão são sempre itens em plano secundário.

Quero teologizar sem a poimênica do mercenário, que fazendo-se de pastor extrai a lã das ovelhas e não as pastoreia. Quero a poimênica do Sumo Pastor. Como Bom Pastor, Ele não se contenta com as noventa e nove do aprisco, mas sai em busca de uma que falta na sua aritmética e a traz em seu regaço. O Bom Pastor não conhece apenas a arte de tosquiar, mas também a arte de cuidar do rebanho.

Quero teologizar com a Educação Cristã do Mestre. Com uma didática perfeita Ele eternizou lições nos corações dos Seus discípulos. Assim, transformou o impulsivo Pedro, o enérgico João e o cético Tomé. Quebra preconceitos e transforma uma samaritana em uma testemunha eficaz. Com uma didática irretorquível, faz com que até Seus opositores reconhecessem: “Ninguém jamais ensinou como este homem.”

Se eu conseguir teologizar assim, dar-me-ei por satisfeito. Teologia não é especulação. E, acima de tudo, práxis. É vivencia. São os fios onde construímos o significado de nossa existência, realçando a “Imago Dei”. À semelhança de Paulo poderei no fim da jornada dizer: Acabei a carreira guardei a fé!

Por, Adejarlan Ramos.

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