Dois povos e a fronteira das palavras

Dois povos e a fronteira das palavrasPropusesse alguém dividir a história em dois períodos, tomando como marco o empreendimento de Babel, e a maior e mais gorda ‘fatia’ de tempo caberia aos esforços humanos para conviver na terra após a confusão instaurada. O texto bíblico que relata a punição divina à megalomania que desafiava a dependência dos filhos de Adão ao seu Criador possui, na maioria das vezes, tradução que não faz jus à descrição do original. O versículo 7 de Gênesis 11, muitas vezes usado como defesa do conceito de trindade, não deveria sê-lo, ainda que a Bíblia ofereça muitos outros que atendam e justificam a doutrina. Nele, em lugar do “eia, desçamos,…”, tão comum em nossas traduções, deveríamos encontrar: “Trago para baixo e trago para lá linguagem que não entenderá o homem que fala ao amigo dele”, ressaltando-se aqui o verbo entender na forma futura e o uso do termo safah, que se refere à linguagem e aos lábios, sendo estes tomados como bordas, limites a partir dos quais o som é emitido e, por extensão, também representando as fronteiras geográficas entre os povos. Pois é justamente aí, na região fronteiriça, onde se tangenciam as relações internacionais, que uma palavra mal compreendida ou mal interpretada costuma ocasionar maiores danos, sejam eles na forma de tratados feitos e desfeitos, sejam como fermento para concepções distorcidas e amplamente exploradas nos discursos inflamatórios do ódio.

Considerar o sionismo como uma ideologia racista e o Estado Judeu um estado discriminatório revela o desconhecimento da Declaração da Independência de Israel, estabelecido em bases democráticas, com a afirmação de que promoverá “o desenvolvimento do país para benefício de todos os seus habitantes; estará baseado nos princípios de liberdade, justiça e paz, à luz dos ensinos dos profetas de Israel; assegurará a completa igualdade de direitos políticos e sociais a todos os seus habitantes, sem diferença de credo, raça ou sexo; garantirá liberdade de culto, consciência, idioma, educação e cultura; salvaguardará os lugares santos de todas as religiões e será fiel aos princípios da Carta das Nações Unidas”. Foi por respeito a essa ampla expressão de liberdade que o Nome do Eterno não foi citado diretamente na Declaração, sendo referido no texto como a “Rocha de Israel”.

Composta por judeus, muçulmanos, cristãos, drusos, além de outros grupos minoritários, Israel é uma das sociedades mais abertas do mundo e um dos poucos lugares do Oriente Médio onde as mulheres árabes têm direito de votar. Uma diferença que permanece entre os judeus e os árabes é que aos últimos não é requerida a participação no exército, o que produz duplo efeito. Se, por um lado, os jovens árabes perdem a oportunidade de integração que o convívio e o preparo das forças armadas oferecem, ganham, por outro lado, no tempo investido em sua formação profissional. Um dos possíveis resultados disso é a sua predominância nas indústrias de construção e transporte.

Outro desentendido refere-se ao uso da expressão “territórios ocupados” para fazer referência às áreas legalmente chamadas de territórios em disputa. A alteração do termo revela o enfoque extremista e antissemita de muitos meios de comunicação, e carrega, de maneira nada inocente, a ideologia de seus financiadores.

No ano de 1312 a.C. Israel estabeleceu-se como nação, tendo conquistado a terra por volta de 1272 a.C.. Por mil anos os judeus tiveram domínio sobre a região. Apesar do Estado moderno ter nascido no ano de 1948, por mais de três mil anos os judeus têm tido ali presença contínua. O fato de, no passado, os dominadores romanos terem chamado o território de Síria Palestina (com o provocador uso dos nomes dos dois maiores inimigos de Israel historicamente, os sírios e os filisteus, donde o nome ‘philistina’ ou palestina), o termo não constituía qualquer vínculo étnico e não se referia qualquer grupo em particular. Basta conferir a saga do povo filisteu, sua chegada ao litoral das terras dos cananeus, seu desenvolvimento técnico, suas habilidades marítimas e de fundição, seu conhecimento da guerra e os consequentes embates com os filhos de Abraão. Muito distinta foi a caminhada dos ismaelitas, com os quais os filisteus não eram aparentados. Os árabes tiveram, com efeito, domínio sobre o território (635 d.C.), porém, não por mais de 22 anos. No entanto, por conta da prevalência do nome ‘Philistina’, ou ‘Palestina’, todos os nascidos naquelas terras, fossem árabes ou judeus, receberam por algum tempo o nome de palestinos em seus documentos. Até mesmo o conhecido jornal “Jerusalém Post” chamava-se “Palestino Post” até a fundação do Estado de Israel. Grupos árabes, no entanto, passaram a reivindicar, a partir de 1967, um pertencimento a um assim chamado povo palestino.

Calcula-se que 630.000 refugiados árabes deixaram o recém estabelecido Estado Judeu em 1948. Estima-se que o mesmo número de refugiados judeus deixou os países árabes na ocasião, rumo a Israel. Os refugiados judeus foram prontamente absorvidos pelo novo Estado. Os refugiados árabes não foram igualmente absorvidos, ainda que os estados árabes somem 22 países, com um território total 650 vezes maior do que Israel. A manutenção da condição permanente de refugiado foi alimentada pela ONU, que hoje estende a classificação aos descendentes desses primeiros 630.000, elevando enormemente o número dos ‘despatriados’. Nada se fala dos 630.000 judeus que, igualmente, deixaram suas terras, suas casas, seus negócios, debaixo de severa violência e perseguição. Nada se fala sobre os árabes que, na ocasião da partilha, optaram por permanecer no recém-criado Estado, onde habitam até hoje, em condições de liberdade, civilidade e respeito.

Há apenas um Estado Judeu. Jerusalém tem sido o coração geográfico do povo judeu por mais de 3.300 anos e é, biblicamente, a capital eterna e indivisível de Israel. Mencionada 667 vezes no Antigo Testamento e 144 vezes no Novo Testamento, ela não é mencionada nem uma só vez no Corão.

Fiéis às Escrituras e cuidando em amar todos os homens indistintamente, nós cristãos procuramos não nos deixar enganar pelas infundadas declarações repetidamente divulgadas por grande parte da mídia, sabendo que, por trás das expressões torcidas reside o antagonismo às determinações divinas, numa resistência que se assemelha em muito à dos construtores da antiga torre. O empreendedorismo humano, por tijolos ou por palavras revela-se, no entanto, fadado à destruição. Os edificadores do ódio a Israel precisam atentar ao fato de que, assim procedendo, delineiam com suas palavras as fronteiras que os distanciam da vontade e da pessoa do próprio Deus.

Por, Sara Alice Cavalcanti.

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