O anjo encarcerado

O anjo encarceradoNo mês passado, desembarquei em Bizâncio, onde me aguardava o Teólogo Divino. Como já era noite, conduziu-me ele, sem muito preâmbulo, a uma hospedagem rústica, mas gentilmente acolhedora. Ali, banhei-me à maneira otomana, fiz uma refeição leve e recolhi-me a pensar na visita que, no dia seguinte, faríamos a um anjo encarcerado. Enquanto conciliava o sono, pus-me a folhear as teologias que se enfileiravam em minha estante virtual. Em nenhuma delas, quer patrística quer medieval, encontrei um anjo que fosse débil ou que se deixasse aprisionar. Daquelas páginas, todos eles avultavam-se fortes, enérgicos e sempre prontos a servir ao Senhor dos Exércitos. Por essa razão, foi-me difícil atinar com a história do ser angelical metido num cárcere romano.

Teologando, adormeci profundamente.

Com os primeiros raios de sol, o Ancião veio despertar-me. Ele trazia um bornal surrado, no qual apertavam-se quatro pães, duas porções de frutas passas, uma capa rústica e três livros. Ao ver-me, levantou o ofertório e, movendo- -o, balbuciou algo que beirava à liturgia do último domingo: “É para o anjo”. Confirmei-lhe a litania com um reverente “assim seja”. Entretanto, não conseguia livrar-me das interrogações.

Se o preso era anjo, por que os pães? Comida de anjo é maná, não trigo. Não insisti na observação, pois os seres que visitaram Abraão até churrasco comeram. Então, que lhe regalemos com uvas e broas. Só não entendi a razão da capa. Não são belas e resplendentes as vestes angelicais? Então, por que a rusticidade do manto? Logo, o pano é dispensável. Quanto aos livros, acalmei-me. Os anjos são inteligentes e sábios, mas não sabem tudo. Entre a consciência angélica e a onisciência divina, vai todo um abismo de inquisições. Que o nosso encarcerado, pois, se dê à leitura. Informou-me ainda o Divino Teólogo, que portava uma carta do Cordeiro ao anjo. Nesse ponto, resolvi interromper-lhe a narrativa, a fim de impacientá-lo com uma pergunta, cuja resposta parecia-me óbvia: “Por que o Leão de Judá não lhe envia brigadas e legiões para libertá-lo? Será que as falanges do demônio são mais poderosas que os batalhões angélicos?”.

Envolto em seu interrogativo silêncio, o Ancião constrangeu-me amavelmente. Lembrei-me, então, de um provérbio chinês que rezava mais ou menos assim: “É indelicadeza fazer perguntas das quais conhecemos as respostas”. É claro que os exércitos de Jeová são imbatíveis; basta um querubim para destruir ajuntamentos e multidões. Avexado, corei-me. Vendo-me sem jeito, acudiu o bom homem: “Daqui a pouco, veremos por que o Senhor ainda não libertou o seu anjo”.

Decorridos quarenta minutos, adentramos Esmirna. Litorânea e bela, a cidade é afamada por seu porto, que, mesmo ao longe, recende uma essência rara e quase lendária. Mercadores chegam de vários extremos para adquiri-la. E, carregados, levantam âncoras, perfumando oceanos e mares. Se atentarmos às ruas e praças de Esmirna, logo concluímos que ela em nada fica a dever a Éfeso ou à Laodiceia. Orgulhosa, presume-se a principal metrópole da Ásia Menor.

Na avenida central da cidade, o Divino Teólogo quebra o silêncio: “O cárcere do anjo fica um pouco mais além”. E, assim, respirando algum receio, andejamos outras centenas de metros. Já no final do logradouro, avisto um começo de periferia; descolorido, lúgubre, sujo. Aquele perímetro em nada lembrava o aroma da mirra; o cheiro, agora, recordava afronta, degradação e morte. Já no imenso pavilhão, minha liberdade esmaeceu-se; tive a impressão de que jamais voltaria a respirar o ar de Jacarepaguá.

Quanto ao presídio de Esmirna, como descrevê-lo? Lembra a prisão Mamertina junto ao fórum de Roma. Sua frieza e rigidez em nada diferiam-no de um sepulcro. Ali, entre cubículos de pedras, homens sepultavam-se à espera da sentença final. Definitivamente, não é lugar para seres humanos, nem para entes angélicos. No entanto, ali estava o nosso anjo.

Acompanhados pelo chefe da carceragem, descemos uma tortuosa escada e, depois de alguns volteios, paramos em frente à cela, onde era guardado o preso do Senhor. Seu rosto, embora sofrido e descarnado, irradiava uma esperança que ia além da esperança. Um guarda, então, destranca a porta, e dá-nos dez minutos, para nos espremermos naquela escura e fétida câmara. Depois dos cumprimentos iniciais, o Ancião entrega-lhe a oferenda. Em seguida, passa-lhe às mãos a carta do Cordeiro. O anjo, quebrando o selo da epístola, põe-se a lê-la em voz alta:

“Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver: Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás. Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte” (Apocalipse 2.8-11)

Finda a leitura, consolamo-nos. O prisioneiro, apesar das grades, sentia-se livre. Quanto a nós, embora livres, deixamo-nos aprisionar pelo amor que ele consagrava a Cristo e às ovelhas de seu rebanho. Sua detenção entrava no sétimo dia. E, pelo que inferi da missiva, no sábado seguinte, nosso irmão seria solto, voltaria às suas ovelhas; assim, toda angústia e tribulação seriam esquecidas. Nessa esperança, despedimo-nos do pastor da igreja confessante da Ásia menor.

Já na rua, eu disse ao Teólogo Divino: “Pelo que entendi, logo o pastor de Esmirna será posto em liberdade”. Ante minha observação, ele deteve-se, olhou-me com penetrante complacência, e declarou-me: “Para nós, que seguimos o Cristo, o martírio também é libertação. Por isso, exorta-nos o Cordeiro de Deus: “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida”.

Por, Claudionor de Andrade.

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