Conselho de Lutero aos governantes

Conselho de Lutero aos governantesEm fins da Idade Média e início dos Tempos Modernos, era comum entre grandes pensadores escreverem ou dedicarem suas obras às autoridades constituídas com a intenção de dizer como os príncipes e reis deveriam governar seus súditos. Citando uns poucos exemplos temos Erasmo de Roterdã (1463-1535), Thomas Morus (1480-1535) e Nicolau Maquiavel (1469-1527). Estes três pensadores redigiam pareceres, opiniões e até mesmo conselhos de como se deveria governar.

Maquiavel, por exemplo, considerado o fundador da Teoria do Estado Moderno, publicou em 1532 a obra “O Príncipe”, dedicada e oferecida como “presente” ao príncipe Lorenzo de Médice, da cidade italiana de Florença. Seu objetivo era transmitir como os “principados hereditários podem ser governados e mantidos”. Seus “conselhos”, hoje, não são considerados sadios, a ponto de se lhe atribuir a máxima “Os fins justificam os meios”.

Se atualmente os escritos de Maquiavel não são aplicáveis nas modernas democracias ocidentais, o mesmo não podemos dizer de algumas orientações dos escritos de Lutero que, mesmo redigidos na segunda década do século 16, continuam atuais em função da coerência bíblica pelo qual se orientava.

É oportuno contextualizar o reformador aos nossos dias. Ele não escrevia aos nossos presidentes, governadores e prefeitos, e, sim, aos príncipes das cidades alemães. No entanto, a aplicação de muitos de seus conselhos é não somente atual, mas necessária. É o que estaremos demonstrando.

Temos em Martinho Lutero (1483-1546) um texto de 1523 em que o reformador, de forma coerente, bíblica, cristã e diferentemente dos pensadores acima citados, apresenta vários conselhos ao príncipe João, Duque da Saxônia, conforme ele mesmo disse, “pela necessidade e pelas solicitações de numerosas pessoas, e pelo desejo de Vossa Alteza”. Embora estejamos a 500 anos de distância no tempo, cremos que seus conselhos são atuais e deveriam nortear a prática dos governantes.

Não há aqui nenhuma intenção em melindrar ou ferir quem quer que seja. Minha intenção é que cada representante do nosso povo, diante desta grande responsabilidade que lhe é atribuída, possa ler e meditar o “lado espiritual” de sua administração, e também constatar a visão deste profeta do século 16.

Em primeiro lugar, Lutero diz que o governante deve sempre ter em vista os governados e colocar seu coração na disposição que para isso convém. Neste mesmo conselho, ele cita o exemplo de Cristo: “Cristo veio e se pôs a meu serviço; não procurou como poderia adquirir poder, bens e honra nele e por ele”. Lutero conclui esta assertiva dizendo que “não é impossível ser ao mesmo tempo príncipe e cristão”.

Em segundo lugar, Lutero afirma que não se deve desprezar nenhum homem, por mais modesta que seja a sua condição. Nesta assertiva, Lutero vai ser contundente ao afirmar que não se deve governar somente para os “grandes senhores e seus conselheiros”, e “não ficar cativo deles”.

Em terceiro lugar, diz Lutero que o governante deve vigiar para proceder como é devido com os malfeitores. Lutero cita o caso do rei Davi, que tinha um capitão, Joabe, e o mesmo feriu de morte a dois inocentes, devido ao mau exemplo do pai destes dois inocentes (2 Samuel 3.26-29). Assim, Lutero afirma que deve-se castigar os maus, no entanto sem prejudicar o inocente. Cita também que às vezes um governante, para atingir um adversário, irresponsavelmente sacrifica um inocente.

Em quarto lugar, o governante deve se comportar de modo cristão para com seu Deus também, ou seja, lhe ser submisso com toda confiança e rogar para que lhe dê sabedoria, a fim de que possa reinar com correção. Lutero afirma: “O príncipe deve envidar esforços em quatro direções: para Deus, com toda confiança e sincera orações; para seus súditos, com amor e para servi-los de modo cristão; para seus conselheiros, com livre razão e inteligência imparcial; contra os malfeitores, com rigor e severidade sabiamente medidos”. E conclui: “Fazendo isso, porém, deve ser preparar para suportar muita inveja e confusão. E muito depressa, essa empresa será uma cruz muito pesada para carregar”.

Para uma melhor avaliação e ampliação do assunto, deve-se ler “Da Autoridade Temporal”, de Lutero.

Por, Vantuil Gonçalves dos Santos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *