A macabra festa das Ñatitas na Bolívia

A macabra festa das Ñatitas na BolíviaEm 8 de novembro, os cemitérios em La Paz e em El Alto, na Bolívia, recebem a visita de milhares de pessoas. Trata-se do dia em que muitos bolivianos saem às ruas com suas caveiras para comemorar o dia das “ñatitas” – diminutivo da palavra ñata ou ñato, que significa pessoa que não tem nariz. Olhando rapidamente, pode parecer uma mera prática macabra, observando com mais atenção, no entanto, a festa releva algo mais complexo. É entender o que a Bíblia revela sobre a interação com os mortos, é pensar na maneira como devemos apontar tradições pecaminosas que prejudicam o nosso relacionamento com Deus e ao mesmo tempo valorizar a cultura local.

Uma tradição entre os aimaras, os crânios são mantidos em casa durante todo o ano em caixas ou bandejas, as pessoas enfeitam-nos com chapéus, óculos, flores, joias e outros. Algumas pessoas possuem uma caveira; outras, cinco, ou cinquenta. É lhes construído um santuário domiciliar onde recebem ofertas, assim, os crânios só saem no dia festa para celebrar. De acordo com a crença aimara, no dia 8 de novembro, a alma da caveira regressa ao mundo dos vivos para protegê-los, e em troca da proteção que dura o ano inteiro, os vivos celebram a caveira guardiã com missas, vela, dança, música, folhas de coca, álcool e cigarro.

Diferentemente de outros povos que cultuam os ancestrais falecidos, demonstrando respeito, essas caveiras não são de parentes ou amigos queridos. Para o historiador da arte Paul Koudounaris, na festa das ñatitas a pessoa não comemora a morte, mas sim o vínculo que ela tem com sua caveira a fim de garantir que o relacionamento continue bem e a proteção permaneça.

Embora não se saiba exatamente quando se iniciou essa celebração, sabe-se que é resultado do sincretismo entre catolicismo e crenças indígenas. Paul Koudounaris relata que o uso das caveiras para propósitos religiosos ou mágicos datam do período anterior à chegada dos espanhóis na região da Bolívia, onde se acreditava que crânios tinham, dentre outras coisas, poderes de cura e ajudavam no controle climático e na fertilidade da agricultura. Saavedra apresenta alguns documentos do período colonial que descrevem o ritual de desenterrar os mortos e a festa, além disso, explica a posição da Igreja Católica, que não criticava a prática. O catolicismo foi imposto pelos colonizadores espanhóis, mas, ao invés de serem erradicadas, as tradições locais se adaptaram e evoluíram.

A proibição de violar as covas veio a partir do século XVIII, e só nos últimos anos, que o desenterro dos defuntos vem ganhando força novamente. A prática, então, promove a distribuição dos esqueletos, permitindo que as pessoas colecionem as caveiras. O atual presidente, Evo Morales, é aimara e é a primeira vez na história do país que um indígena governa, por isso é significante a valorização da cultura andina neste momento. Ou seja, na festa das ñatitas, uma festa tipicamente aimara, há uma combinação de fatores religiosos, defesa de expressão cultural e afirmação política.

Nós, brasileiros e brasileiras, seguimos determinado procedimento para lidar com os mortos. Seguimos com o funeral rapidamente, e a ideia de guardar um esqueleto em casa nos é estranha. Isso pode ser diferente em outras culturas, alguns povos demoram semanas com o velório. Na Indonésia, por exemplo, não é estranho manter o esqueleto da pessoa falecida em casa e cuidar dele como se fosse uma pessoa viva. É uma maneira de demonstrar carinho e respeito pelo falecido e preservar sua presença entre os vivos.

Indo além dos cemitérios, as caveiras aparecem em outras circunstâncias com um aspecto simbólico. Na pintura cristã renascentista, George Ferguson explica, o esqueleto humano simboliza a morte enquanto os crânios aparecem como símbolo da natureza transitória na terra. Este último sugere, portanto, a vaidade inútil das coisas terrenas. Atualmente, a caveira está se popularizando em diversas áreas. O artista Damien Hirst expressa essa transitoriedade da morte num molde de caveira com os dentes originais de um homem europeu do século XVIII, revestido com 8.601 diamantes e vendido por 100 milhões de dólares em 2007. É frequente a presença de imagens de caveiras nas bandas de rock e em tatuagens, transmitindo geralmente uma mensagem de rebeldia ou de envolvimento com práticas malignas. Os crânios também são usados na decoração de Halloween (dia das bruxas), uma festa americana que têm atraído a atenção dos brasileiros, para criar a atmosfera macabra. A aparição simpática, que para alguns consiste de mau gosto, acontece em camisetas e joias, é uma das tendências da moda.

Mas, afinal, o que a Bíblia tem a dizer sobre os mortos? No livro de Jeremias é possível identificar o respeito dos judeus em relação aos ossos humanos (Jeremias 7.34 e 8.1-3). No contexto da ida do povo de Judá ao cativeiro, por causa do grande número de mortos e o espaço insuficiente para o sepultamento, os cadáveres seriam lançados ao vale da Matança de modo que os animais e as aves de rapina deles se alimentariam. Isso era parte do castigo divino e tal profanação aos mortos causou temor nos antigos hebreus. A maldição de não enterrar os povos foi anunciada por Moisés e aconteceria no caso de violação do pacto que Javé estava fazendo com o povo hebreu (Deuteronômio 28.26). Esse castigo post-mortem era a forma de execrar a memória deles; representava grande desonra e maldição para que os sobreviventes do massacre e todos os povos e nações, em todas as épocas, aprendessem a tratar as coisas de Deus com seriedade e respeito, pois ele não se deixa escarnecer.

Quanto ao culto aos mortos, a Bíblia condena a prática. Consultar os mortos é violar as leis de Deus e, portanto, um crime em Israel nos tempos do Antigo Testamento (Levíticos 19.31; 20.27; Deuteronômio 18.11; 2 Reis 23.24; Isaías 8.19). É Deus quem dá segurança e proteção ao ser humano. Os mortos não podem se relacionar com os vivos, conforme Jesus contou aos discípulos sobre o rico e Lázaro (Lucas 16.19-31).

A tradição aimara não considera desrespeito aos antepassados violar as sepulturas, ao contrário, vê com honra o culto às caveiras. Do ponto de vista bíblico, há, portanto, um conflito entre preservar uma tradição cultural e servir ao Senhor. Apocalipse 5.9 descreve que toda língua, povo e nação se prostrarão diante do trono de Deus, ou seja, fala da diversidade cultural. A salvação está em Jesus Cristo (1 João 4.9, 10), e uma vida de santidade que promova o reino de Deus nos é exigida. A celebração das ñatitas é problemática porque não conduz as pessoas a esse tipo de vida, mas afasta do propósito para o qual o ser humano foi criado: ter um relacionamento com Deus.

Referências

FERGUSON, George. Signs & Symbols in Christian Art. New York: Oxford University Press, 1961.
HIRST, Damien. For the Love of God. Disponível em <http://www. damienhirst.com/for-the-love- -of-god>. Acesso em 24 nov. 2016.
KOUDOUNARIS, Paul. Memento Mori: The Dead Among Us. New York: Thames & Hudson Inc., 2015.
SAAVEDRA, Fernando Suarez. “Desenterramientos en Charcas y Bolivia desde la época prehispánica al siglo XX”. Estudios Bolivianos, La Paz, n.19, 2013. Disponível em <http:// www.revistasbolivianas.org.bo/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2078–03622013000200003&lng=es&nrm=iso>. Acesso em 24 nov. 2016.

Por, Esequias Soares.

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