O discipulado e os valores eternos

O discipulado e os valores eternosO que leva alguém que tem um futuro promissor, possuidor de princípios e valores familiares, a deixar tudo para trás em busca do desconhecido e da ganância de uma aventura? Nesses últimos dias da Igreja do Senhor na terra, vemos o esfriamento espiritual de muitos, inclusive jovens, que, no ápice de sua mocidade, optam por deixar tudo para trás: a convivência com os santos, a certeza de salvação e a convicção de vida eterna. O que tem levado essas pessoas a se afastar do Senhor?

Esse assunto me leva a refletir, em primeiro lugar, sobre a questão do discipulado cristão. A Bíblia nos mostra que Jesus fazia discípulos. Fazer discípulos implica fazer um trabalho de corpo a corpo, sondando, observando e cuidando. Em Israel, as crianças com 12 anos de idade já estão aptas para serem doutores da lei – os chamados “talmidin”, palavra hebraica para “discípulos”. Os que não são selecionados para o oficio voltam para casa e seguem o oficio da família. Ora, quando Jesus chega em cena, começa a fazer uma seleção que nós não faríamos. Ele começa a escolher os que foram desprezados como alunos, os que foram reprovados para serem rabinos.

Talvez nós não os escolheríamos, por que gostamos de “pessoas fortes”, “pessoas que venham somar”. O texto bíblico diz que o rei Davi, quando estava na caverna de Adulão, se juntou a ele “todo homem que se achava em aperto, e todo homem endividado, e todo homem de espírito desgostoso, e ele se fez líder deles. E eram com ele uns quatrocentos homens”. Que coisa fantástica é um líder assim! Os princípios e valores a serem lapidados em uma pessoa não se encontram na superfície ou no exterior dela, mais, sim, em seu interior, na profundidade do ser.

Muitas vezes, o que é de valor é como o ouro ou o diamante: encontrado apenas em determinadas profundidades, o que vai exigir mais daquele que está garimpando. Mas, isso não diminui em nada o valor que há guardado no interior da terra. Depois de se alcançar o que se achava inalcançável, chega o fino processo de lapidação. Muitos são garimpeiros, mas poucos são os garimpeiros e fundidores que lapidam.Tanto o que lapida quanto o que garimpa, depois de executar seu trabalho, entrega a joia pronta para o dono do garimpo, atribuindo valor à sua obra. Assim funciona também no Reino de Deus. E talvez um melhor discipulado, no sentido bíblico, evitaria mais esfriamentos.

Por outro lado, há também o fato de que a mocidade é um momento de deslumbre, momento em que nos encantamos com as coisas mais simples e bobas, até compreendermos que existem coisas que têm mais valor, um valor eterno. É uma vida “líquida”, onde nada tem solidez e onde tudo se esvai. O que se coloca dentro cai no chão das ilusões da mocidade. Quantos de nós já não tomamos atitudes em nossa mocidade da qual nos arrependemos pouco tempo depois? Caímos em si e vemos que tolice fizemos. A vida é, de fato, feita de escolhas. Por essa razão, precisamos ver bem se as coisas que vamos escolher são perenes.

O jovem pródigo da parábola contada por Jesus em Lucas 15 colocou de lado toda sua história, anulou uma convivência plena de valores e exigiu uma parte que a ele não cabia, pelo menos naquele momento (Geralmente, só depois da morte do pai o filho recebia sua parte). Esse moço não percebia o valor que havia em estar com o pai. Não entendia que sua herança era recebida uma fração por dia. Não compreendia que deveria guardar os valores e princípios nos depósitos da eternidade e da consciência. O filho age como se o pai já estivesse falecido. O filho que anula, ignora e abre mão da vida, da presença, dos valores e dos princípios ensinados pelo pai sepulta o pai dentro de si mesmo. Ele deixa para trás o pai, como se nada mais pudesse aprender com o mesmo ou não houvesse mais o que desfrutar de sua presença.

Aquele jovem dissipou todos os seus bens, gastou com o que não era pão. Tudo que bastava já não lhe era mais suficiente. Aí, ele percebe que o que era realmente importante já se foi. Assim acontece quando não temos maturidade para administrar o que chega em nossas mãos, permitindo o que é importante escapar. Quando nos falta a maturidade para sabermos dar determinado valor às coisas realmente importantes. Liberdade sem maturidade é pior do que falta de liberdade, pois pode fazer com que nos tornemos construtores de nossas próprias prisões. Aquele moço desejava tanto a liberdade, mas sem maturidade necessária para geri-la. Terminou passando fome e desejando comer o alimento dos porcos. Tornou-se escravo de suas necessidades. Com o uso irresponsável da liberdade nos tornamos escravos de nossos atos.

“Quanto dos trabalhadores do meu pai tem pão com fartura!”, diz ele. Só o pai sabe dar valor e empregar valores em seus filhos. Longe do pai, geralmente o que se adquire é decepção, frustações, sentimentos indesejados. E muitas vezes precisamos perder o que tínhamos para darmos valor ao bem perdido. A perda traz reconhecimento e valorização.

Aquele jovem “caiu em si”. A maior parte das pessoas passa uma vida inteira e não consegue cair em si sobre a grande verdade do Evangelho: a nossa pequenez, a nossa falibilidade, a nossa dependência do Pai. Sem Ele, não temos, não podemos, não somos absolutamente nada. Deixar o Pai é a pior das decisões. O cair em si a é o exercício da consciência voltando para o seu lugar de origem: o Pai, Aquele que sempre sabe o que é melhor para nós.

“Levantar-me-ei e irei ter com o meu pai!”, disse ele. E partiu. “Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou e, compadecido dele, correndo o abraçou e beijou” – Que belo momento! A reação do pai, as lembranças evidentes de uma convivência perdida… E estavam se encontrando novamente! Voltar para casa significa retornar aos valores e princípios de outrora. A primeira coisa que o pai faz quando encontra o filho é expressar-lhe seu amor (beijos e abraços) e lhe devolver seus valores. O que mais precisamos não são os bens terrestres, mas, sim, os bens eternos, que não são dissolvidos com o tempo.

“Já não sou digno de ser chamado teu filho, trata-me como um dos teus trabalhadores”, diz ele ao pai. O jovem começa a se questionar se, depois de tudo o que fez, merecia tanto amor como estava recebendo em sua volta. Ele sabia que estava recebendo mais do que realmente merecia. Quando deixamos o Pai, tornamo-nos indignos, mas o Pai está sempre disposto a nos acolher novamente como filhos. Independentemente do que fizemos, o amor dEle para conosco é imutável! Não há variação em seus sentimentos. Por isso Paulo diz em Romanos 8: “Quem poderá nos separar do amor de Deus em Cristo?”. Ele nos amou primeiro, e amou quem não tem nada a lhe oferecer em troca. Logo, é um amor verdadeiro. Por mais que tentemos retribuir o sentimento e a entrega, nunca nada do que fizermos se aproximará da entrega dEle por nós. Portanto, a única coisa que nos cabe é cumprir a condição de filhos e recebermos submissos o que o nosso Pai tem para nos dar: a sua graça, o seu amor. Diz o pai: “Trazei depressa a melhor roupa! Dê-lhe suas vestes, lhe ponham seu anel no dedo e as suas sandálias nos pés”. Vistamo-nos com a sua graça!

Por, Cleber Teixeira.

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