O Perfil Bíblico de um Missionário

O Perfil Bíblico de um MissionárioO capítulo 13 de Atos dos Apóstolos marca o início do avanço missionário que levou o Evangelho de poder às mais distantes partes do mundo conhecido daqueles dias. A Palavra de Deus é fiel. Nos Evangelhos de Marcos 16.15 e Mateus 28.19, o Senhor Jesus outorgou aos seus fiéis a Grande Comissão: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho à toda criatura” e “Ide e ensinai as nações”, respectivamente. Podemos verificar nos capítulos 8 e 10 do livro de Atos as primícias dessa gloriosa obra de evangelização e missões: o diácono Filipe desceu à Samaria e lá o Senhor o instrumentalizou na evangelização, realização de milagres e na libertação de possessos de espíritos imundos (8.4-8), além disso aconteceu o batismo de novos convertidos (v 12); os crentes receberam o batismo no Espírito Santo (v 17); “muitas aldeias dos samaritanos foram evangelizadas” (v 25); o alto oficial da corte de Candace, rainha dos etíopes recebe a Jesus Cristo como Salvador pessoal, após ser evangelizado por Filipe (vv 27-39), o novo convertido leva a mensagem do Evangelho para a Etiópia, um país estrangeiro; as cidades costeiras localizadas ao sul da Palestina são evangelizadas até Cesaréia, a capital romana no país (v 40); os cidadãos romanos convertem-se em Cesaréia, a saber, o centurião Cornélio, sua família, seus amigos e conhecidos.

Mas o perfil que intitula este artigo pode ser observado no capítulo 13 do livro de Atos. Vamos analisar cada característica registrada na Palavra de Deus.

O missionário deve ser um homem (ou mulher) ligado à Igreja de Deus

“E na igreja em que estava em Antioquia” (v 1), isto significa que o candidato tem que ser alguém em comunhão com a Igreja, integrado à Igreja, que conhece a Igreja, que trabalha na Igreja, moldado na Igreja, comprometido com a Igreja, aprovado pela Igreja, credenciado pela Igreja e submisso à Igreja. Por toda a parte a obra missionária tem sofrido com homens e mulheres mal relacionados com a Igreja, que mal a conhecem e muito menos a doutrina bíblica da Igreja; tanto a Igreja como o corpo universal de Cristo, como a Igreja no sentido de congregações locais.

O missionário deve ser uma pessoa que sabemos de onde vem

“Que estava em Antioquia” (v 1), nesse momento, sabe-se onde estavam os candidatos a missionários e de onde vieram. Eles não eram homens desconhecidos, nem forasteiros, mas estavam na igreja em Antioquia e eram conhecidos de todos ali. A Igreja precisa saber e conhecer muito bem a quem está enviando para o campo missionário para representá-la, para depois não vir a colher uma odienta safra de problemas de toda natureza. O missionário deve ser uma pessoa conhecida do seu povo, o qual dá bom testemunho dele.

O missionário deve ser um homem portador dos dons de Deus

“Havia ali alguns profetas e doutores” (v 1), diferentes dons completam-se entre si nos homens de Deus, para a edificação da igreja. Ninguém sozinho possui todos os dons de Deus para o seu serviço. Muitos crentes só querem saber dos “profetas”, e cedo enveredam pelo fanatismo. Os verdadeiros profetas de Deus estão mais relacionados à espiritualidade do povo. Crentes à também, que só querem saber dos “doutores” ou mestres, e muito cedo enveredam pelo formalismo frio e sem vida, mas havendo profetas e mestres da parte do Senhor e agindo em conjunto, trazem o equilíbrio espiritual à congregação. Os mestres bíblicos estão mais relacionados ao discipulado cristão, ao ensino da Palavra. O profeta do Senhor conduz o povo à santidade e ao avivamento, enquanto o mestre cuida da doutrina, da edificação e da consolidação da Igreja.

Na obra missionária, o trabalho do profeta sem o mestre, não se consolida e o trabalho do mestre sem o profeta, não se avolumará.

O missionário deve entender bem de variadas etnias e culturas

“Barnabé e Simeão, chamado Niger, e Lúcio cirineu, e Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca e Saulo” (v 1), Barnabé era judeu, oriundo da tribo de Levi, nascido em Chipre, outro país. Simeão possuía pele negra (o termo “Niger” significa literalmente “negro”), Lúcio era africano (“cirineu” vem de Cirene, uma região no norte da África); Manaém fora criado com Herodes, o tetrarca, ou seja, o Herodes Antipas, o governante que ordenou a execução do profeta João Batista, no cárcere. Manaém conheceu a vida palaciana, como irmão de criação desse monarca. Paulo era judeu, portador de vasta cultura geral, nascido em Tarso, na Cilícia. O transculturalismo, como se vê, está implícito aqui, nos primórdios da obra missionária, mediante tantas etnias e suas diferentes culturas. O choque cultural, proveniente do desconhecimento desse assunto, pelo novo missionário, causa-lhe uma série de problemas no tocante à sua adaptação, comunicação e aceitação pelos nacionais,  resultando isso muitas vezes no retorno desse missionário à sua terra de origem.

O missionário deve ser um dos melhores crentes na igreja

Citaremos aqui apenas o primeiro e o último da lista em consideração: Barnabé e Saulo (v 1). A dupla era formada por homens de grande calibre moral e espiritual, envergadura, testemunho, integridade, responsabilidade, confiança e fidelidade. Por vezes, considerando interesses divorciados da vontade de Deus, a Igreja envia para o campo missionário os piores elementos; são pessoas que vão causar problemas aos que já estão por lá, e também problemas para a igreja que os enviou.

O missionário deve ser uma pessoa anteriormente ocupada na obra do Senhor

“E servindo eles ao Senhor” (v 2), foi quando eles serviam ao Senhor que o Espírito Santo ordenou que os separasse para a obra missionária. Para fazer a sua obra, Deus chama homens e mulheres já ocupados, é isso que observamos através da Bíblia. Moisés cuidava do rebanho de seu sogro no momento em que o Senhor o chamou; Gideão realizou grandes feitos para Deus, mas estava malhando trigo quando foi chamado. Eliseu arava o campo com seus bois, um trabalho meticuloso e pesado; Davi apascentava o rebanho de Jessé, seu pai, quando recebeu a missão do Senhor por intermédio do profeta Samuel. Pedro e André, Tiago e João (dois pares de irmãos) estavam ocupados na pesca quando Jesus os chamou para outro tipo de pescaria. Mateus trabalhava na coletoria quando ouviu a chamada de Jesus para o seu trabalho. O ocioso e o indolente só dão prejuízo e complicação.

O missionário deve ser um homem piedoso, espiritual, que dependa primeiramente de Deus

“E jejuando” (v 2), o jejum é sempre um reforço e aliado da oração, como se vê no versículo 3. O jejum quando biblicamente observado, fala de quebrantamento de espírito, humilhação na presença do Senhor, e dependência de Deus. Estes obreiros do versículo 1 eram líderes dotados de dons divinos mas não desprezavam o jejum.

O missionário deve ser uma pessoa chamada por Deus para esta função

“Para a obra que os tenho chamado” (v 2), ninguém deve apresentar-se como candidato a missionário e muito menos seguir para o campo de trabalho sem ser chamado por Deus, que segundo a sua soberania e seus propósitos nos chama para executar a sua grande obra (“para a obra”, v 2). A chamada divina depende unicamente do querer de Deus. “E chamou a si os que ele quis” (Marcos 3.13). É possível observar que eles já eram chamados por Deus (“os tenho chamado”), mas não se enviaram a si mesmos.

O missionário deve ser um homem separado pela Igreja para o trabalho

“Apartai-me a Barnabé e a Saulo” (v 2), o Espírito Santo ordenou que a Igreja de Antioquia separasse esses homens para a obra missionária. O Senhor chama para o trabalho, mas é a Igreja que tem a responsabilidade de separar, consagrar, ordenar para o trabalho entre os homens. A voz do Espírito Santo foi clara; Ele conhece os  obreiros, os capacita e os dirige no trabalho.

O missionário deve estar preparado para mudanças administrativas durante o  seu trabalho missionário

“A Barnabé e a Saulo” (v 2), nessa ocasião era “Barnabé e Saulo”, mas depois passou a ser “Paulo e Barnabé”, quando Deus transferiu a liderança da obra para Paulo (Atos 13.43,46). Nem todo missionário está preparado para mudanças desse tipo na esfera ministerial.

O missionário deve estar ligado e submisso a uma igreja

“E pondo sobre eles as mãos” (v 3), o ato de impor as mãos sobre alguém concernente ao ministério, significa participação, apoio, reconhecimento, aceitação e compromisso da parte da igreja para com essa pessoa. A Bíblia adverte: “A ninguém imponhas as mãos precipitadamente” (1 Timóteo 5.22). Muitos missionários têm sofrido nos campos de trabalho missionário, abandonados pelas igrejas que os enviaram. Há também casos em que muitos nunca foram enviados, e querem que as igrejas se responsabilizem por eles.

O missionário deve ser uma pessoa enviada pelo Espírito Santo

“E assim estes enviados pelo Espírito Santo” (v 4), em resumo, vejamos o todo até aqui:

  • Eles eram homens integrados à Igreja (v 1).
  • Eles foram chamados por Deus (v 2).
  • Eles foram separados pela Igreja (v 2).
  • Eles foram despedidos pelos irmãos (v 3).
  • Eles foram enviados pelo Espírito Santo (v 4).

Pode acontecer de alguém pertencer à Igreja, ser chamado, ser separado, e ser despedido, e não ser “enviado pelo Espírito Santo”.

O missionário precisa ser um homem de fé

“E Manaém que fora criado com Herodes, o tetrarca” (v1), se Manaém continuasse no palácio de Herodes, ele seria um dos seus altos funcionários, na corte ou a serviço dos cortesãos, e isto regados a muitas honras e regalias. Talvez Manaém estaria em uma posição invejável como a de Blasto, o “camarista” do rei Herodes (Atos 12.20). O termo “camarista” corresponde hoje a um secretário pessoal, encarregado dos negócios particulares de um soberano, inclusive de seus aposentos pessoais, e de sua família. Muitas vezes, o obreiro tem de abrir mão de regalias, vantagens, posição e privilégios materiais para atender ao chamada do Senhor, mas Ele sabe como compensar tudo isso em um plano sobremaneira elevado.

Lembremo-nos aqui de Moisés que “recusou ser chamado filho da filha de Faraó”, para atender o chamado do Senhor (Hebreus 12.24). É oportuno lembrar aqui que o nome Manaém significa consolador, confortador e auxiliador.

Resumidamente, temos o perfil de um missionário, isto é, um enviado para realizar a obra de Deus. O termo missionário vem do latim, do verbo mitto, que significa enviar, enviado.

Por, Antoni Gilberto.

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