Desafios para uma espiritualidade Cristocêntrica atual

Desafios para uma espiritualidade Cristocêntrica atualO Cristianismo chegou ao século 21. Ao longo do tempo a mensagem que leva o nome de Cristo conviveu e sobreviveu à influência de diversas culturas, ao avanço da tecnologia e da ciência e as barreiras linguísticas (afinal, é possível calcular por quantos idiomas o Evangelho já foi pregado?). É difícil precisar quais fatores contribuíram para que o Evangelho chegasse até a nossa geração. O registro escrito, o fechamento do Canon, a dedicação de pessoas e instituições em traduzir a Bíblia e a ação missionária são apenas alguns deles.

Fato é que no Brasil em 2015, a maior parte da população é cristã. Sendo, mais de 42 milhões de brasileiros evangélicos1. Em nosso país há uma imensa facilidade jurídica na abertura de igrejas, há liberdade de expressão e não há perseguição religiosa (como em outros lugares do mundo). Essa conjuntura resulta na existência de diversas igrejas evangélicas.

Paralelamente, há um crescente número de desigrejados (4 milhões de pessoas). Insurgem modismos, heresias e denúncias de corrupção em contextos eclesiásticos, de modo que existe um hiato entre os indicadores estatísticos. Portanto, podemos nos perguntar: Como pode haver tantos seguidores de Cristo em nosso país e não haver impactos visíveis (tais como redução da criminalidade e da corrupção) na sociedade? Como ser uma igreja relevante, que contribua socialmente? Como vencer a onda de nominalismo e apostasia protestante?

Para isso, talvez a melhor saída seja (re) edificar uma espiritualidade Cristocêntrica, e para tal iremos destacar três desafios sendo o primeiro inspirado em Romanos 12.2: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”.

1º Desafio: Reaprendizagem conceitual

Neste texto o apóstolo Paulo indica a “renovação do entendimento” como o caminho da transformação do indivíduo, que o levará a experimentar a vontade de Deus. Assim, podemos afirmar que um dos fundamentais desafios para uma espiritualidade Cristocêntrica é reaprendermos os conceitos bíblicos básicos, dos quais vamos destacar dois: Missão e Reino de Deus.

  • Reino de Deus – No lugar do marketing material, da divulgação da denominação, do foco nos próprios eventos é preciso pôr o anúncio da chegada do Reino de Deus entre a humanidade. Este é exatamente o discurso de Jesus em Mateus 4.17: “Desde então começou Jesus a pregar, e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus”. Viver e anunciar os valores do Reino (que já foi inaugurado, mas ainda não consumado) é a forma pela qual podemos expandí-lo.
  • Missão – A missão de redenção, de transformação integral do ser humano é de Deus. Ele próprio iniciou a obra de reconciliação da humanidade consigo mesmo (2 Coríntios 5.19). De modo que somos seus cooperadores: “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” (2 Coríntios 5.20).

2º Desafio: Redescobrir o poder de impacto da igreja local

É essencial rever o valor da igreja local: uma igreja que não foca em expansionismo, mas antes em conhecer e servir a comunidade em seu entorno, tornar-se altamente relevante. Diversas igrejas consideram apenas o passado; seu principal objetivo é preservação da memória e das tradições. Outras anseiam apenas o futuro, seus projetos e o cumprimento das promessas celestiais.

Mas o desafio de ser igreja é se tornar um sinal histórico da presença do Reino de Deus, e isso apenas pode ser feito se a missão de Deus for encarada com a serenidade e urgência que merece. O foco da ação de Deus são as pessoas. Deus quer alcançar indivíduos com sua graça, para a partir daí fazer a redenção atingir seus relacionamentos, sua família com a Graça.

Uma igreja que dedica-se a servir seu bairro e sua cidade, visando necessidades reais, ao atender pedidos de socorro, administrar libertação, cura e salvação de uma maneira integral, torna-se relevante!

Uma igreja local engajada com as necessidades sociais no seu entorno consegue influenciar na formação de crianças e adolescentes (dentro da igreja e em parceria com as escolas), incentivar o crescimento profissional de jovens e adultos, acesso às famílias para mediar conflitos, fortalecer casamentos e ministrar aconselhamento, intervir em quadros de violência (seja doméstica ou urbana), etc.

A igreja não pode ser um polo de eventos do bairro, ela precisa ser a “candeia” acesa que emana a luz de Cristo na região em que está estabelecida (Lucas 8.16), e isso não é difícil porque servir é a vocação natural de todos os seguidores de Cristo (Marcos 10.43-45). Basta olhar em volta e se perguntar: o que eu posso oferecer para essas pessoas que vivem ao redor de mim? Cestas básicas? Limpeza das ruas? Cursos de idiomas? Aula de música? As opções são infinitas!

3º Desafio: Mais que evangelizar, formar discípulos

Finalmente, destacaremos o desafio do discipulado: O que será mais fácil ser discípulo ou formar discípulos? É complexo responder essa pergunta. A experiência de salvação é um milagre sensacional. Mas precisamos ser conscientes de que ela é apenas o primeiro passo de uma longa jornada.

Após entregarmos nossa vida ao Salvador Jesus, temos um caminho de transformação de hábitos e aperfeiçoamento de caráter a seguir. Ser discípulo é trilhar os passos de Jesus, é crucificar o nosso ego, é aprender a se sujeitar a vontade de Deus, é mortificar nossa carnalidade, é crescer em santidade, a fim de de nos tornarmos parecidos com o Mestre.

Nessa jornada, porém, precisamos ajudar o nosso próximo neste mesmo processo. Formar discípulos de Jesus é um mandamento: “Ide, portanto fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século” (Mateus 28.19-20).

Formar discípulos é um trabalho de longo prazo. Exige dedicação, paciência e compromisso com a vida da pessoa a ser discipulada. Discipular é uma alta responsabilidade, pois não formamos seguidores pessoais, mas seguidores de Jesus. De modo que antes de discipular é necessário:

a) Ter um relacionamento com Jesus – Conhecer a Jesus e receber a vida dEle, para depois transferir essa vida para outras pessoas (1 João 1.1-3).

b) Ser comprometido com o Evangelho (Mateus 16.24).

c) Ser discípulo – um aprendiz submisso ao Espírito Santo; que tem um coração ensinável, aberto para aprender e para ser aperfeiçoado diante de Deus (Salmos 51.10).

Importa destacar também que não podemos ousar fazer esse trabalho de maneira solitária, pois no discipulado nós somos apenas o instrumento. Quem age e transforma é o Espírito Santo. Somente Ele gera vida de Cristo em outras pessoas. Como Paulo disse: “não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa influência vem de Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; por que a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Coríntios 3.5-6).

Porém é certo que o desafio de discipular não foi dado a qualquer pessoa. Muitas pessoas simpatizam com Jesus (discipular é um privilégio). Multidões admiram seus milagres. Diversos mestres ficam impressionados com sua sabedoria. Porém, Jesus entregou a missão de evangelismo e discipulado das nações apenas para àqueles que eram seus discípulos. Apenas para àqueles que eram comprometidos com a mensagem do Reino de Deus, por isso o discipulado não pode ser esquecido. Ele precisa ser prioridade na agenda eclesiástica.

Referência

1 – Segundo o censo do IBGE de 2010. Dados disponíveis em ftp://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2010/Caracteristicas_Gerais_Religiao_Deficiencia/tab1_4.pdf

Fontes

CAMPANHÃ, Josué. Discipulado que transforma. São Paulo: Hagnos, 2013.
KIVITZ, Ed René. Mundo, igreja, céu e reino de Deus. Revista Ultimato, Viçosa, Ano XLVII, Nº 351, 2014.
http://censo2010.ibge.gov.br/
http://www.mackenzie.com.br/7123.98.html – Consultado em 01/12/2014 às 14.45.
http://ipbj-jataizinho.webnode.com.br/products/espiritualidadecristoc%C3%AAntrica/ – Consultado em 01/12/2014 às 16.05.

Por, Flaviane Vaz.

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