Princípios que devem reger uma igreja missionária

Princípios que devem reger uma igreja missionáriaO capítulo 13 de Atos dos Apóstolos é emblemático por várias razões. É nesse capítulo que a Igreja, de uma forma organizada, envia seus primeiros missionários (Atos 13.1-13). É verdade que antes de Antioquia houve investidas missionárias, como por exemplo, a ida de Filipe à cidade de Samaria (Atos 8.5). Todavia a ida de Filipe à terra dos samaritanos não aconteceu em decorrência de uma mobilização da igreja como aconteceu em Antioquia.

“Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram. Enviados, pois, pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre. Chegados a Salamia, anunciaram a Palavra de Deus nas sinagogas judaicas; e tinham também João como auxiliar. Havendo atravessado toda a ilha de Pafos, encontraram certo judeu, mágico, falso profeta, de nome Barjesus, o qual estava com o procônsul Sérgio Paulo, que era homem prudente. Este, tendo chamado Barnabé e Saulo, diligenciava para ouvir a palavra de Deus. Mas opunhase-lhes Elimas, o mágico (porque assim se interpreta o seu nome), procurado afastar da fé o procônsul. Todavia, Saulo, também chamado Paulo, cheio do Espírito Santo, fixando nele os olhos, disse: Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os retos caminhos do Senhor? Pois agora, eis aí está sobre ti a mão do Senhor, e ficarás cego, não vendo o sol por algum tempo. No mesmo instante, caiu sobre ele névoa e escuridade e, andando à roda, procurava quem o guiasse pela mão. Então, o procônsul, vendo o que sucedera, creu, maravilhado com a doutrina do Senhor. E, navegando de Pafos, Paulo e seus companheiros dirigiram-se a Perge da Panfília. João, porém, apartando-se deles, voltou para Jerusalém” (Atos 13.1-13).

Sendo que a Igreja Primitiva é o nosso modelo e que o livro de Atos deve servir de paradigma para Igreja contemporânea, faz-se necessário atentarmos para as lições que esse texto traz.

Em primeiro lugar, missões se faz com fundamentação

Missões se faz no contexto de uma igreja local. É ela que fundamenta as missões – “Havia na igreja de Antioquia”. Podemos ler esse texto na sua ordem invertida e teremos: “Em Antioquia havia uma igreja”. Foi nessa igreja que aconteceu o envio dos primeiros missionários. Missões acontece no contexto de uma igreja. É a Igreja que gera missionários e é a partir dela que os mesmos são enviados. Sem igreja não há missões. Hoje tenho observado que há uma terceirização do movimento missionário que sai da esfera da Igreja para uma esfera simplesmente institucional, como por exemplo, uma Convenção. As Convenções são importantes, mas a responsabilidade de gerar missões não é dela. Convenção não é Igreja! Essa missão é da Igreja local e se ela não se envolver com missões então nada feito.

Em segundo lugar, missões se faz sob inspiração

“Havia na igreja profetas”. Profeta é alguém que fala sob inspiração divina. Paulo, o apóstolo, diz que quem profetiza edifica a igreja (1 Coríntios 14.3). Foi nesse contexto de inspiração divina que o Espírito Santo comissionou os primeiros missionários. Sem inspiração não há missão. Qualquer igreja que faz missões sem a participação direta do Espírito Santo está fadada ao fracasso! Não tenho dúvida alguma que em Antioquia, tinha a profecia como ofício e também como dom estavam em operação. Foi essa capacitação profética que permitiu a escolha dos primeiros missionários: Paulo e Barnabé.

Em terceiro lugar, missões é feita com instrução

“Havia na igreja Mestres”. A palavra “mestres” (gr. didaskalos) vem da mesma raiz da palavra didaquê, ensino ou instrução. Se a inspiração é importante para as missões, a instrução da mesma forma. Sem ensino, e ensino bíblico sob a direção do Espírito Santo, não há missões de verdade. Tenho observado muita gente querendo os dons do Espírito e reivindicando-os para o movimento missionário, mas negligenciando a instrução que vem pela Palavra de Deus. O resultado disso são movimentos com muito “peneumatismos”, mas sem nenhuma fundamentação teológica consistentes. O resultado disso é fracasso.

Em quarto lugar, missões é feita com adoração

“E servindo eles ao Senhor”. “Servindo” é a tradução do grego leitougeo, de onde procede a palavra portuguesa “liturgia”. É um termo usado para se referir ao culto ou serviço cristão. Nesse contexto significa, sem dúvida alguma, adoração. Eles estavam adorando quando o Espírito Santo os comissionou para fazer missões. É no contexto da adoração cristã que acontece os despertamentos missionários. Foi assim com o envio dos primeiros missionários oriundos do avivamento da Rua Azuza e foi assim com o envio dos suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren para o Brasil. Estes últimos estavam adorando a Deus quando o Espírito Santo os comissionou a viajarem para o Brasil. Hoje nós temos muita música, muito show, mas pouca adoração. Qual é a consequência disso? Um esvaziamento do movimento missionário.

Em quinto lugar, missões é feito com consagração

“E jejuando”. Em todo movimento de avivamento, que desaguou em missões, estão presentes uma volta à Palavra de Deus e à santidade. O que se depreende de uma leitura dos Atos dos Apóstolos é que o jejum era uma prática comum na Igreja Apostólica (Atos 13.1-4; Atos 14.23). O jejum bíblico estava associado à prática da oração e a oração conduz a vida santa. Não se trata de uma questão legalista ou simplesmente um rigorismo ascético. Uma vida piedosa, onde os limites entre o sagrado e o profano são respeitados, invariavelmente tem como resultado um cristianismo contagiante. Não há dúvidas que a igreja hodierna perdeu muito da sua piedade pessoal, enveredando por um institucionalismo fossilizado. Não há mais espaço para práticas piedosas, como por exemplo, o jejum. As consequências são sentidas nas tentativas frustradas de se fazer missões.

Em sexto lugar, missões é feito com vocação

“Separai-me a Barnabé e Saulo”. Evidentemente que aqui foi o próprio Espírito que vocacionou e selecionou Barnabé e Paulo para a obra missionária. Já disse no livro de minha autoria As Ovelhas Também Gemem (CPAD, 2007), que a vocação é o pilar sobre o qual se alicerça toda a vida ministerial. Todavia ela vem sempre acompanhada de sua irmã gêmea – a preparação, que também denomino de lapidação. Deus nos vocaciona, mas somos nós que precisamos nos preparar, quer biblicamente ou teologicamente, para melhor servirmos ao nosso Deus. Já conheci diversos movimentos missionários, alguns deles fora do Brasil, e vi os mesmos sofrerem por conta de obreiros mal preparados e mal treinados. Foram vocacionados, mas não foram lapidados. Alguns se envolveram com mulheres enquanto outros foram corrompidos pelo dinheiro. Não há dúvidas que a Igreja deve investir no preparo espiritual de seus missionários, mas o mesmo pode ser dito do preparo moral. A prática de uma vida disciplinada evitaria muitos acidentes (1 Timóteo 4.7).

Em sétimo lugar, é feita com adoção

“E impondo-lhes as mãos”. A imposição de mãos implicava cuidado, responsabilidade pelo envio. Ao impor as mãos nos missionários a Igreja se comprometia de cuidar deles. Alguém já disse que quando uma pessoa desce para dentro do poço, alguém precisa segurar a corda! Infelizmente a igreja não tem segurado a corda daqueles que tem sido enviado ao campo missionário. Infelizmente o número de patrocinadores de missões diminuem ou até mesmo deixam de existir a medida que os resultados demoram a aparecer. Há missionários que trabalham sobre pressão, alguns são tentados até mesmo a maquiar relatórios para apresentarem nas suas agências. A igreja deve dar todo apoio espiritual e material a fim de que o missionário possa fazer com alegria a obra para a qual foi comissionado.

Por, José Gonçalves.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *