Teologia da Prosperidade: uma praga que invadiu o meio evangélico

Saiba as origens desse ensino, seus principais propugnadores, no que se inspiraram para criá-lo e quais os principais equívocos de seus argumentos

Teologia da Prosperidade - uma praga que invadiu o meio evangélicoJá há alguns anos que grassa no Brasil uma doutrina divorciada da Palavra de Deus e que sobrevive justamente da distorção da interpretação do texto bíblico. Infelizmente, ela ainda prepondera no meio evangélico brasileiro, devido à influência midiática das igrejas neopentecostais, principalmente seguidoras e  disseminadoras desses ensinos. Trata-se da Teologia da Prosperidade, que também responde pelo nome da Confissão Positiva, que nada mais é do que o seu arcabouço argumentativo.

A Teologia da Prosperidade é o ensino de que todo cristão verdadeiro obterá a prosperidade financeira e estará imune a todas as doenças, podendo inclusive exigir tais coisas de Deus durante a vida presente sobre a Terra. Para isso, basta apenas que use o nome de Jesus e “chame a existência aquilo que não existe”, imitando o que Deus fez na criação do mundo.

O primeiro propugnador desse ensino espúrio foi o norte-americano Essek William Kenyon (1867-1948), que foi pastor de várias igrejas nos Estados Unidos, tendo até fundado uma denominação para ele. Influenciado por ideias de seitas que pregavam o poder da mente, a crença na existência de doenças pelo poder da mente e do pensamento positivo, Kenyon criou a Doutrina da Prosperidade. Tudo começou quando frequentava a Escola de Oratória Emerson, em Boston, considerada o berço das ideias filosóficas do movimento denominado Novo Pensamento. Os principais ensinos desse movimento eram a cura, a saúde, a abundância, a prosperidade, a riqueza e a felicidade, e todas via poder da mente.

O sistematizador do chamado Novo Pensamento foi um homem chamado Phineas Parkhust Quimby (1802-1866), que teve seus ensinamentos repercutidos no final do século 19, logo depois de sua morte. Quimby baseou sua filosofia em seus estudos sobre o espiritismo, o ocultismo, a hipnose e a parapsicologia de forma geral.

Conta o Dicionário do Movimento Pentecostal (CPAD) que “Foi Quimby quem disse ter curado Mary Backer Patterson Eddy, a fundadora da Ciência Cristã, em 1862. Ele tentou tornar a feitiçaria confiável usando a linguagem científica. Parece que o termo ‘Ciência Cristã’, usado por Eddy, fora criado por Quimby, junto com suas formulações teóricas, as quais se tornaram a base para a seita Ciência da Mente, que Eddy fundou. Quimby rotulou a sua formulação de ‘a ciência de Cristo’”.

Os seguidores de Quimby, os chamados quimbistas ou adeptos do Novo Pensamento, chegaram ao ponto de negar a existência da matéria, do sofrimento, do pecado e da enfermidade, dizendo que dores, enfermidades e desgraças poderiam ser banidos pelo poder da mente. Foi sob a influência dessa espécie de xamanismo (bruxaria) científico do Novo Pensamento que Kenyon criou sua doutrina, denominada originalmente de “a confissão positiva da Palavra de Deus”. Ele tentou fazer uma fusão entre os ensinos de Quimby e a Bíblia. Ele tentou adaptar sua crença nos ensinos do Novo Pensamento à Bíblia.

Apesar de Kenyon ser considerado o pai desse ensino espúrio, é outro nome que se destaca no mundo estando ligado a ele. Trata-se de um dos maiores discípulos de Kenyon, o homem que mais popularizou a Teologia da Prosperidade no mundo: o pastor norte-americano Keneth Hagin (1917-2003).

Hagin era um batista que creu nas doutrinas bíblicas pentecostais e filiou-se à Assembleia de Deus norte-americana, tendo, inclusive, sido pastor nela. Porém, seu apreço aos ensinamentos de Keyon o levaram à Confissão Positiva. Hagin, então, saiu da Assembleia de Deus, tendo peregrinado por algumas outras igrejas até, finalmente, fundar a sua própria aos 30 anos, época que fundou também o Instituto Bíblico Rhema, grande centro divulgador de suas ideias.

Além de Hagin, são responsáveis também pela popularização dessas ideias nomes como os pastores Kenneth Copeland, Frederick Price e Charles Capps, menos conhecidos no Brasil, mas tão populares como Hagin nos Estados Unidos. Aliás, não é à toa que, em 1979, Hagin, Kenneth Copeland, Frederick Price, Charles Capps e outros ensinadores da Confissão Positiva resolveram se unir e fundaram a Convenção Internacional de Igrejas da Fé, em Tulsa, Oklahoma.

Hagin ensinava que todo cristão verdadeiro deverá ter sempre saúde plena e riquezas, de sorte que toda doença ou pobreza é sinal de “maldição”. Afirmava ele: “Todo cristão deve esperar viver uma vida plena, isenta de doenças”. Ele cria que o crente fiel deve viver pelo menos 80 anos “sem dor ou sofrimento” e que quem ficasse doente é porque não reivindicava seus direitos ou não tinha fé. Ainda hoje, os seguidores de Hagin enfatizam que o crente deve ter carros novos, casas novas e próprias, as melhores roupas e uma vida de luxo.

A Confissão Positiva prega a chamada “Fórmula da Fé”, que se resume a quatro pontos: “Diga a coisa” (ensinava Kenyon, e repetia Hagin, que “De acordo com o que o indivíduo quiser, ele receberá”); “Faça a coisa” (ou seja, depois de afirmar, faça conforme a sua afirmação, como se já tivesse recebido aquilo que você determinou ou decretou; “De acordo com a sua ação, você será impedido ou receberá”, ensinava Hagin sobre esse ponto); “Receba a coisa” (viva como se já tivesse recebido o que você decretou); e “Conte a coisa” (fale da coisa às pessoas como se você já a tivesse recebido). Segundo Hagin, o crente, ao orar, deve utilizar termos como “exijo”, “decreto”, “determino” e “reivindico”, em lugar de dizer “peço”, “rogo” e “suplico”. Aliás, de acordo com ele, o crente nunca deve dizer “se for da Tua vontade”, pois isso, “destrói a fé”.

Os muitos equívocos da Confissão Positiva

O pastor Esequias Soares, líder da Assembleia de Deus em Jundiaí (SP) e da Comissão de Apologia da CGADB, destaca os equívocos da Teologia da Prosperidade. “Para fundamentar a Teologia da Prosperidade, seus expoentes apresentam um Jesus rico e muito próspero financeiramente quando esteve entre nós. Afirmam ainda que Jesus vivia numa casa grande, administrava muito dinheiro, por isso precisava de um tesoureiro, e usava roupa de griff. Cremos não haver necessidade de refutar tais ideias. Comparemos, por exemplo, Lucas 2.21-24 com Levítico 12.2-4, 6,8 e 9.58, e veremos que a família de Jesus não era rica”, lembra pastor Esequias.

Pastor Esequias ressalta ainda a confusão que os adeptos da Confissão Positiva fazem entre os termos logos e essa diferença entre logos e rhema”, afirma pastor Esequias.

O apologista e teólogo lembra ainda que “Deus é Senhor e soberano e nós os seus servos. O Senhor Jesus nos ensinou, na chamada Oração do Pai Nosso: ‘Seja feita a tua vontade, tanto na terra como no céu’ (Mateus 6.10). Essas duas palavras gregas são usadas alternadamente para indicar a Bíblia. A Septuaginta usou o termo rhema tou theou, ‘palavra de Deus’, para designar a Bíblia em Isaías 40.8. A mesma expressão reaparece no Novo Testamento grego (1 Pedro 1.25). Isso encontramos também nos escritos paulinos (Efésios 6.17) e, no entanto, encontramos também logos tou theou para designar a Bíblia em Marcos 7.13. A Bíblia diz que devemos confessar nossas culpas para que sejamos sarados (Tiago 5.16) e isso não parece ser Confissão Positiva. O apóstolo Paulo afirma haver se contentado com a abundância e com a escassez (Filipenses 4.11-13). É verdade que a doença é consequência da queda do Éden, mas dogmatizar que todos os enfermos estão em pecado ou não têm fé é ir além do que está escrito. Há casos de pessoas que foram enfermas por desobediência a Deus (Números 12.10). Por outro lado, há casos de homens de Deus serem enfermos fisicamente. Timóteo (1 Timóteo 5.23) e Trófimo (2 Timóteo 4.20) são exemplos. Devemos ter discernimento para sabermos quando o caso é puramente clínico e quando é espiritual”, destaca o líder.

Ressalta ainda pastor Esequias: “As Sagradas Escrituras ensinam que nem a pobreza nem a riqueza são virtudes, e elas não tratam a pobreza com desdém. Não devemos ir para um extremo e nem para o outro (Provérbios 30.8-9). É verdade que a riqueza é bênção de Deus, desde que seja adquirida de maneira honesta, não vise exclusivamente aos deleites (Tiago 4.3) e não venha dominar a pessoa. Também é bom saber que a pobreza não é símbolo de maldição divina (Provérbios 17.1 e 1 Timóteo 6.7-9). A Confissão Positiva é uma crença sem fundamento bíblico”.

Ao final, o líder faz um alerta. “Algumas pessoas veem as aberrações da Confissão Positiva, mas às vezes hesitam em rebater esses abusos temendo dividir o povo de Deus, ou até mesmo ser reputado como incrédulo ou anti-pentecostal. Nós cremos no sobrenatural de Deus e na obra do Espírito Santo. Somos testemunhas de curas e outros milagres que o Senhor Jesus tem operado em nosso meio. Isso são promessas de Deus exaradas na Bíblia (Marcos 16.17-20 e João 14.12). Nem por isso vamos ser ingênuos para aceitar doutrinas sem base bíblica. Jesus disse: ‘Sede prudentes como as serpentes e símplices como as pombas’, Mateus 10.16”, conclui.

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