Origens da falha Teologia da Substituição

Origens da falha Teologia da SubstituiçãoA profecia bíblica tem como característica peculiar o povo judeu. Este, como frisam alguns exegetas, protagoniza cerca de 70% do conteúdo profético. Para chegar a este diagnóstico, basta responder a algumas perguntas: Qual o público alvo da profecia veterotestamentária? Cumpriram-se todas? A quem Deus prometeu uma terra localizada no Oriente Médio? À Igreja ou a Israel? Tal promessa se cumpriu plenamente?

Essas questões despertam variados sentimentos dos cristãos do mundo contemporâneo em relação ao povo judeu. Elas atrelam-se ao método de interpretação bíblica adotado pela Igreja ao longo da história eclesiástica. A eleição do método de interpretação escatológico tem levado certos segmentos da igreja protestante a adotarem variadas posições sobre o protagonismo israelita na profecia bíblica.

Diferentes métodos interpretativos foram desenvolvidos ao longo da história da Igreja, objetivando extrair a compreensão mais clara das Sagradas Escrituras.

No terceiro século da Era Cristã, o período patrístico – onde a doutrina cristã se desenvolveu através dos Pais da Igreja nos séculos I, II e III – destacou três grandes escolas catequéticas de interpretação bíblica: a de Alexandria, a de Antioquia e a Ocidental.

A Escola Alexandrina desenvolveu um método natural e harmônico entre teologia e filosofia (neoplatonismo), e desencadeou um dos principais métodos de interpretação bíblica do período: o Alegórico. Por influência de Filo, um filósofo judeu, esse método desenvolveu-se e se expandiu através de Clemente de Alexandria e Orígenes respectivamente (BERKHOF, Princípios de Interpretação Bíblica. pp. 19-22). O Método Alegórico propunha figurar as Escrituras em detrimento da sua literalidade.

Naquele período, o clero cristão era constituído por bispos ocidentais e orientais influenciados pelo método alegórico – eles uniram-se ao império romano mediante Constantino, imperador de Roma, no século IV.

Um acontecimento fulcral que aproxima o método alegórico com o surgimento da Teologia da Substituição foi a destruição de Jerusalém, a Cidade de Deus, no ano 70 d.C. Poucos séculos após esse acontecimento, os clérigos cristãos da Igreja em Roma não excitaram em considerá-lo um claro sinal da rejeição de Deus ao povo semita. Por isso, insistiu junto ao Império Romano por um tratamento tórrido e severo em relação ao judaísmo – ou seja, de perseguida, a nova igreja, legitimada pelo império, passou a perseguir os judeus. Mas, não só eles: outras religiões também.

É nesse contexto que a Teologia da Substituição prevalece e ganha força. A igreja romana advoga para si o título de “O Novo Israel de Deus” e passa a julgar os judeus como “o povo rebelde que matou Jesus” e “para sempre” fora “rejeitado por Deus”. O estudioso Arnold Fruchtenkbaum conceitua a Teologia da Substituição como uma teologia que “entende que o moderno Estado israelense é apenas um acidente na história, sem nenhuma relação com a profecia bíblica. Segundo essa visão, quando Israel rejeitou o messiado de Jesus, Deus rejeitou o povo judeu. Assim, todas as profecias sobre o povo judeu já estariam cumpridas e não haveríamos de esperar nenhuma futura restauração. Deus transferiu para a Igreja todas as promessas de Sua aliança com Israel, de modo que todas as promessas ainda não cumpridas serão concretizadas na Igreja. As profecias que falam sobre uma reunião mundial do povo judeu não devem ser entendidas de forma literal. Na verdade, falam sobre Deus reunindo seus eleitos na Igreja até que esta se complete. Os judeus de hoje podem ser salvos em Cristo, mas é necessário que se unam à Igreja. Deus não planejou uma restauração futura do povo de Israel como grupo étnico. Nada do que esteja acontecendo hoje com Israel está relacionado às profecias e o povo judeu não possui nenhum futuro profético” (Enciclopédia Popular de profecia Bíblica, CPAD, 2008, pp. 372 e 373).

Alguns métodos de interpretação sofreram influências do racionalismo, do iluminismo e do existencialismo – modo filosófico de ver o mundo. O Método Histórico-Crítico é um exemplo. Aplicado como uma muleta pelo seu intérprete, tende a “desmitologizar” a Bíblia. Por isso a dificuldade de afirmar a relevância da nação de Israel hoje. Todavia, devo ressalvar a razoabilidade de usá-lo, em alguns casos, sem os pressupostos desconstrucionistas do intérprete. É possível.

As Assembleias de Deus no Brasil e todas as igrejas teologicamente conservadoras adotam oficialmente o Método Histórico-Gramatical de interpretação. Este, diferentemente do alegórico, procura interpretar o texto bíblico respeitando o contexto histórico e a semântica das palavras do vernáculo original. Assim, tende o intérprete a chegar ao sentido objetivo da mensagem exposta pelo autor sagrado. Nesse aspecto, a escritura Sagrada é interpretada de acordo com a literalidade do que é inequivocamente literal no texto, e conforme a figuratividade daquilo que é invariavelmente figurado na passagem.

O Método Histórico-Gramatical leva em conta o pensamento do autor sagrado, o que disse e o seu contexto vivencial: social, cultural, político e religioso (vide a obra Hermenêutica Fácil e Descomplicada, editada pela CPAD, do professor Esdras Bentho). Não obstante, o Método Alegórico anula o contexto vivencial do autor e o que ele disse. Sua interpretação é baseada nos pressupostos do intérprete em detrimento do que saiu objetivamente da pena do autor sacro.

No método histórico-gramatical, a nação de Israel exerce um importante papel profético. Há nas Escrituras claros sinais de que Deus não rejeitou para sempre a nação. Quando olhamos a peregrinação judaica pelo mundo, constatamos a bondade do Eterno na condução de um povo específico. Isso gera em nós uma preciosa Esperança: a de que Deus realiza tanto o Seu querer como o Seu efetuar.

Por, Marcelo de Oliveira e Oliveira.

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