Rosas de Israel, nosso próximo

yaronbobO desafio de amar o próximo está exatamente na maneira como Deus o define:  ele é o próximo, ou seja, está caracterizado por sua localização. Disso resulta o desafio geográfico de amar, pois amar o próximo é amar aquele que o Senhor decidiu colocar perto de nós, ainda que lhe faltem os atrativos afetivos, familiares,  profissionais ou mesmo financeiros que tanto buscamos. Amamos o próximo porque a soberania especial de Deus o colocou ao alcance físico de nossos cuidados e atenção. Somos instados a uma dedicação cobrada pela presença, mesmo quando negada pela vontade. Somos levados a aceitar a inserção do outro no curso de nossa caminhada porque Deus decidiu fazer coincidir as coordenadas espaciais de nossas vidas. Submeter-se à vontade suprema e decidir sofrer todas as alterações provocadas pela presença do imprevisto é a porção do desafio que envolve: atrasar os projetos pessoais, apear da cavalgadura, descer ao lugar onde se encontra aquele que está caído, gastar tempo, nosso precioso bem, aplicar remédios, encontrar lugar de tratamento para que a obra não seja interrompida, confiar, investir, ter esperança… coisas sabidamente trabalhosas, de forma que espantam os que já conhecem o  seu desfilar, como os sacerdotes e escribas, mas que, ainda que conhecidas, podem mover o coração samaritano por conseguir vê-las não como passos da obrigação, mas como oportunidades oferecidas à beira do caminho.

Á beira do caminho, tenho visto Israel. Caído, ferido e necessitado de consolação está o povo do qual somos, mais do que qualquer outro, próximos. Afinal, quão próximos estão João 3.16 e Gênesis 12.2-3? Que proximidade é essa que Maria compreende ao declarar, em Lucas 1.54-55, que o Senhor tem ajudado Israel conforme Sua misericórdia, derramada sobre os pais, sobre Abrão, sobre sua descendência para sempre? Que razão teria Estevão para iniciar a pregação do Evangelho a partir do chamado do Senhor a “nosso pai Abraão”.

O distanciamento daquele que hoje é alvo de perseguições e críticas pode parecer cômodo, pois, no dizer de alguns, a igreja precisa avançar, a igreja persegue seus objetivos, a igreja não têm tempo para refletir sobre tais coisas, esquecendo-se de que a igreja, sobretudo, precisa ser Igreja, conforme o Senhor a instituiu e planejou, viçosa em seus ramos, sabendo-os contudo enxertados numa raiz que remonta a uma promessa, inclui um povo, envolve uma terra. Assim, ocupar um púlpito para falar de Israel, de seus dilemas atuais e de nossa participação hoje resume-se num dever que é de todos quantos percorrem o Caminho.

O Reverendo Bill Adams, Sub-diretor Nacional nos EUA do ministério Pontes para a Paz (Bridges for Peace, “organização evangélica internacional baseada em Jerusalém e dedicada a apoiar Israel e construir relações genuínas entre cristãos e judeus ao redor do mundo por meio da educação e de ações práticas que expressem o amor e misericórdia de Deus”, lamentou, em estudo recente sobre a terra do pacto do Novo Testamento, um fato recente nos livros e Bíblias cristãs. Quando um mapa bíblico aponta que Jesus viveu numa terra chamada Palestina, insiste em perpetuar um erro, atribuindo anacronicamente um termo somente usado anos após o ministério terreno de Jesus, imposto pelos romanos com o objetivo de humilhar aqueles que se revoltavam contra seu domínio. Para saber o nome com o qual a terra era denominada naqueles dias, basta consultar as palavras do mensageiro celestial a José: “levanta-te, toma o menino e sua mãe e volta a terra de Israel…” (Mateus 2.20a). Também os discípulos procuraram um dia saber do Senhor se Ele restauraria “neste tempo o reino de Israel” – frase da qual seria bom destacar a forma do complemento verbal, pois não se trata de restaurar ‘o reino de Israel’, mas de restaurar o reino ‘a’ Israel, pressupondo, portanto, e existência de Israel como nação (Atos 1.6).

Esses e outros ‘esquecimentos’ tornaram-se parte do distanciamento que fizemos ao longo dos anos com o nosso próximo, mesmo que todos os dias, ao abrirmos as Sagradas Escrituras, sejamos confrontados com a sua presença histórica, nacional e profética. Há Jesus, mas para que Ele nos fosse concedido, foi construída uma estrada que passa pelos patriarcas, pela força de Rebeca, pela beleza de Raquel e pelo sofrimento de Lea, pela história de Moisés e pela coragem de Josué. Passa também pelas vidas daqueles que escolheram fazer parte do povo escolhido e hoje são pedras preciosas no edifício da tradição que chegou até nós, como Raabe e Ruth. Quem, no entanto, quer a especialidade vazia desse outro, pretende um Jesus sem Gideão, um Jesus sem Elias, um Jesus sem Miquéias, um Jesus sem povo, sem terra e sem nome. Talvez um Jesus ocidental, vestindo tênis e usando t-shirts, comendo fritas e bebendo refrigerantes, antenado e ‘bombando’ no facebook, não houvesse ele nascido a mais de dois mil anos, pobre, filho de carpinteiro, morador da Galileia e… judeu. Aliás, contam de uma mulher que, na Alemanha nazista, exigiu que um retrato de Jesus fosse retirado da enfermaria onde viria a dar a luz seu filho, pois declarava: “Meu filho não nascerá fitando um judeu”. Contam que, de fato, seu filho não contemplou o retrato ou pessoa alguma, pois nasceu cego.

Nosso próximo está aqui, conosco, ao nosso lado, interferindo em nossa vida e desafiando-nos a agir com ele e, por vezes, reagir – como Jesus faria – às demandas trazidas por ele. A bela reação do artista e escultor israelense Yaron Bob finda esta meditação com seu exemplo. De algumas dos cerca de 12 mil mísseis lançados ao sul de Israel nos últimos nove anos, ele reuniu destroços metálicos e passou a fabricar rosas. Exatamente – trata-se de rosas feitas com estilhaços de armamentos pesados, um lixo dolorosamente plantado nas terras de Israel. A venda das obras de arte ajuda a recuperação de famílias afligidas pelo conflito. O projeto Rockets into Roses já presenteou com essas singelas expressões de beleza e paz alguns dos maiores líderes do mundo, demonstrando que mesmo a proximidade mais provocadora pode despertar jardins de amor em nossos corações.

Por, Sara Alice Cavalcante.

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