Amando como Jesus amou

Amando como Jesus amouA pós-modernidade é caracterizada por um crescente hedonismo onde as verdades cristãs são tidas como apenas um ponto de vista antiquado que deve ser superado pela ciência. Tal busca crescente pela satisfação pessoal faz com que o ser humano se aliene em relação às necessidades de seu próximo, fazendo com que a sociedade atual se torne cada vez mais egoísta e egocêntrica.

Este comportamento tem ameaçado invadir o arraial dos santos, através de modismos teológicos e doutrinas heréticas que fazem com que o homem busque apenas as bênçãos de Deus, se esquecendo de que a Igreja deve estar unida em amor como corpo de Cristo e que as aflições dos santos devem ser compartilhadas por todos.

O ensinamento de Jesus está firmado no amor a Deus e ao próximo (Marcos 12.30,31). No capítulo treze do Evangelho de João, após ser rejeitado pelos judeus, vemos o Mestre se voltando exclusivamente para os seus discípulos, neste caso representando toda a Igreja vindoura, para ensiná-los e confortá-los, pois Ele sabia que sua hora estava se aproximando. Jesus inicia esta série de ensinamentos com o assunto que considerava primordial e a base de toda a vida cristã: o amor.

Diferente de Moisés, que sendo usado por Deus, deixou para Israel dez mandamentos e mais de seiscentas ordenanças, Jesus deixou para a sua Igreja apenas um mandamento: “Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis” (João 13.34). É com esta medida que nós cristãos devemos nos amar, da mesma forma que fomos amados por nosso Salvador. Por mais difícil que possa parecer obedecer a este mandamento não é uma opção para aquele que quer seguir a Jesus. O Mestre foi enfático ao ordenar: “Vos ameis uns aos outros”.

Não é fácil amar desta maneira, ainda mais numa sociedade de consumo onde o ser humano é respeitado devido à quantidade de bens materiais que possui e não pela qualidade de seu caráter, mas também não é impossível, pois se fosse Jesus não teria nos ordenado.

Para que nos amemos desta maneira é necessário compreender o amor demonstrado por Cristo no seu ministério terreno, pois Ele é o exemplo maior a ser seguido em todas as áreas da vida cristã. Jesus amava indistintamente, ou seja, não fazia acepção de pessoas. Ele mesmo afirmou que “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (João 6.37). Nosso Senhor tinha prazer de estar com todos, desde Nicodemos, mestre em Israel, até a mulher samaritana, rejeitada pela sociedade de sua época. Socorreu de igual maneira Jairo, mestre da sinagoga, e aos leprosos que buscaram o seu auxílio. Se quisermos amar desta maneira, não podemos amar somente os que nos amam, mas acima de tudo temos que amar aqueles que mais nos odeiam (Mateus 5.43-48).

O amor de Jesus não tinha medida, pois Cristo era a manifestação do amor que o Pai tinha pela humanidade ao enviá-Lo para salvar o pecador (João 3.16). Ele mesmo afirmou que ninguém tinha um amor maior que o dEle (João 15.12-13). É necessário que manifestemos o amor ágape, incondicional, pois somente o amor oblativo procura a paz e o bem para todos os seres humanos.

Ao comentar este mandamento de Jesus, o Reformador alemão Martinho Lutero afirmou que aquele que escolhe somente uma ou duas pessoas para ser amável e favorável está na verdade sendo sujo, não manifestando assim o verdadeiro amor divino. Pois o verdadeiro amor é inteiro e completo não fazendo exceção, nem se dividindo ou fragmentando, mas se dirigindo livremente a todos. Toda a parcialidade de amor é perversa, pois não vem do fundo de um coração fundamentalmente bom e puro, mas busca apenas a sua própria vantagem. Aquele que ama desta maneira na verdade não ama a ninguém a não ser em causa própria, buscando apenas o que lhe serve seu proveito junto a cada pessoa, e não o proveito do próximo.

Mas que atitudes devem ser tidas se quisermos amar na intensidade demonstrada por Jesus? Que sentimentos devem ser manifestos? É simples, devemos agir da mesma forma que o Mestre agiu durante todo o seu ministério terreno, pois Jesus primeiro fazia dando o exemplo, depois ensinava aos seus discípulos como fazer (Atos 1.1).

Para amar indistintamente e sem medida, devemos ser humildes. A humildade era uma das principais características do caráter de Jesus, pois sendo Rei dos reis e Senhor dos senhores afirmou que “não veio para ser servido, mas para servir” (Marcos 10.45). Ele nos deu exemplo ao lavar os pés dos seus discípulos, uma atitude impensável para um Rabi hebreu (João 13.1-5,1215). O apóstolo Paulo afirma em Filipenses 2.3: “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo”. Se devemos amar nossos inimigos, quanto mais nossos irmãos de fé? Não posso me considerar superior ao meu irmão, independente do meu nível cultural, condição econômica ou cargo eclesiástico, mas devo considerá-lo como superior a mim, pois segundo a Palavra de Deus é desta forma que devemos enxergar o nosso próximo, servindo “uns aos outros pelo amor” (Gálatas 5.13). Pois na Igreja o maior deve servir ao menor. Para sermos humildes devemos aprender com Jesus que afirmou: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mateus 11.29). Somente aquele que é humilde, sabe perdoar aquele que lhe ofendeu. O maior exemplo nos foi dado por Jesus quando no Calvário perdoou os seus algozes dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23.34). O Mestre perdoou e continua perdoando os nossos pecados. O perdão é algo que todos querem receber, mas poucos querem dar. Quão difícil é para aquele que tem o coração altivo, abrir mão de sua razão e perdoar o ofensor arrependido! Mas devemos ter em mente que se quisermos receber o perdão de Deus temos também que saber perdoar. Esta verdade é claramente demonstrada na parábola do credor incompassivo (Mateus 18. 23-35), o servo que não soube perdoar seu conservo, não obteve o perdão do rei. A oração do Pai Nosso diz: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mateus 6.12). O homem foi criado por Deus para ser livre, então cada um tem o livre-arbítrio para escolher em obedecer ou não aos mandamentos de Deus. Mas para cada escolha que fazemos, existe uma consequência que deve ser enfrentada. Aquele que escolhe amar com parcialidade, não manifestando o amor divino, conforme ordenado pelo Senhor Jesus, andará sempre em trevas mesmo afirmando que anda na luz (1 João 2.9). Entretanto “aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo.” (1 João 2.10).

Aquele que escolhe aborrecer ao seu irmão ao invés de amá-lo é comparado a Caim, o assassino de seu irmão Abel, recebendo de Deus toda a punição reservada aos homicidas (1 João 3.11-15). Todavia o verdadeiro cristão não é identificado pelos muitos sinais que realiza, ou pela pregação eloquente, mas pelo amor que sente por seu irmão (João 13.35), pois numa sociedade caracterizada pelo pragmatismo em seus relacionamentos, aquele que ama com o amor de Cristo faz toda a diferença demonstrando que verdadeiramente Deus está em sua vida (1 João 4.7-12).

O amor é o maior entre todos os dons, estando inclusive acima da fé e da esperança (1 Coríntios 13.13). Devemos nos amar como Jesus nos amou. Não um amor superficial, de palavras, mas um amor voluntário e de atitude (1 João 3.17,18). Não existe outra maneira de servir a um Deus que é amor, temos que amar da mesma maneira que Ele nos ama.

Por, Sérgio de Moura Sodré.

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