“Quem eles dizem que eu sou?”

Quem eles dizem que eu souNo capítulo 16 do Evangelho de Mateus, Jesus faz a célebre pergunta aos Seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?”. Esta intrigante pergunta foi proferida no ápice do ministério de Jesus – havia aprovação e adesão por parte do povo, Seus feitos ganhavam notoriedade e os apóstolos já tinham passado por um considerável crescimento espiritual ao lado do Senhor.

É evidente que esta indagação de Jesus não é fruto de uma crise existencial do Mestre. Pois Jesus não possuía qualquer tipo de dúvida sobre quem Ele era ou para que propósito estava na Terra. Por outro lado, esse questionamento serviria para aferir o grau de compreensão de Seus amigos sobre quem Ele era para estes.

É exatamente a resposta, absolutamente sincera dos apóstolos que nos chama a atenção: “e eles (os discípulos) disseram: Uns, João o Batista; outros Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas.” Esta resposta, montada a partir de três perspectivas, demonstra a fragilidade e a superficialidade do conhecimento que a maioria dos supostos seguidores de Jesus possuía. Na verdade, podemos utilizar estas três possibilidades de respostas apresentadas pelos discípulos e tomá-las como três modalidades de religiosidade decadente de nosso tempo, isto é, podemos nos apropriar da resposta tripartídica dos apóstolos e usá-la analogamente como três expressões religiosas que parecem ser sadias e benéficas, mas que, no entanto, são frutos de uma compreensão rasteira da pessoa de Jesus.

Passemos então a analisar cada uma destas perspectivas de pseudo-espiritualidade. Uma parte da multidão acreditava que Jesus era João Batista. Mas como c confundir indivíduos que possuíam inúmeras diferenças? Jesus e João possuíam dessemelhanças desde as de ordem física até as de personalidade e ministério. João não bebia vinho, nem comia determinados alimentos e vestia-se de roupas feitas de pelo de camelo, seu discurso era austero e confrontador; o perfil comportamental de um típico profeta de Israel que anunciava o advento do Messias, logo, alguém inconfundível. Já Jesus era um homem comum, confundível com qualquer outro de seu tempo, possuidor de um discurso cativante e envolvente, o qual o definia não mais como profeta, e sim como Salvador, Messias. Como então confundi-los? A multidão que confundia Jesus com João Batista pode ser compreendida metaforicamente como o grupo de pessoas que possui uma religiosidade alienante, que não sabem nem ao certo a quem servem; que estão tão desesperadamente em busca de solução para seus problemas, para a qual não importa o nome de quem seguem, se Jesus ou João; querem apenas milagres, bênçãos e prosperidade. Nossa sociedade está cheia de pessoas assim.

Um segundo grupo achava que Jesus era Elias. Ora, havia uma profecia no Livro de Malaquias que apontava para o aparecimento de Elias antes da chegada do Messias. Estas são as pessoas que possuem uma religiosidade burocrática. É necessário, para estas pessoas, que Deus se submeta às exigências previamente estabelecidas por elas, senão Ele não será o Todo-Poderoso. Não querem uma relação com Deus, querem uma relação jurídica e religiosamente fundamentada na qual fique evidente a todos que elas são “boas”. Há, em nossas comunidades, uma multidão que ainda chama Jesus de Elias.

Por fim, havia ainda aqueles que defendiam ser Jesus Jeremias. O “Profeta das Lágrimas” é um arquétipo, no Antigo Testamento, do profeta que antevê a catástrofe e o sofrimento. Aqueles que chamavam Jesus de Jeremias podem ser comparados hoje àqueles que praticam uma religiosidade fatalista de transformá-lo em seu talismã, seu objeto mágico que os protege de todas as maldições deste tempo. Reduzem o Cristo glorioso ao prestígio de uma figa ou de um pé de coelho. Mas, louvado seja o Altíssimo, que ainda existem alguns que de coração puro e espontaneamente conhecem Jesus como o “Cristo”, isto é, como “Filho do Deus Vivo”.

Estes que assim conhecem Jesus chamam-nO pelo nome, e por Ele também são conhecidos. Seguem-nO não pelo que Ele pode fazer-lhes, mas pelo que Ele é. Deste grupo fazem parte aqueles que não são desestabilizados pelo que os outros podem dizer deles ou como podem superficialmente defini-los, pois eles creem em quem Deus os tornou: filhos amados do Pai. Que nossas casas, igrejas e comunidades, encham-se de tais pessoas.

Por, iago Brazil.

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