Homens descem às águas em Arnona

Homens descem às águas em ArnonaTalvez alguém tenha questionado a importância das escavações no bairro judaico de Arnona, localizado no sul da cidade velha de Jerusalém. As obras realizadas destinavam-se à construção de uma creche, quando uma inspeção de rotina deu conta da existência, ali, das ruínas de uma antiga mikvê, um reservatório de águas destinado à purificação judaica, com características do primeiro século da Era Cristã. A classificação temporal ficou facilitada pela presença de inscrições com desenhos e palavras em aramaico, escritas com caracteres hebraicos na forma cursiva, de uso comum no período do Segundo Templo. Ainda que as inscrições não tenham sido decifradas, a descoberta reveste-se de significado pela concentração de símbolos num mesmo sítio arqueológico, pelo estado de conservação e pela facilidade da datação, o que, mais uma vez, comprovou a presença judaica na área, fato que não deveria ser motivo de dúvidas, dados os abundantes testemunhos da arqueologia, mas que, de tempos em tempos, voltam a ser questionado. A descoberta, nesse sentido, soma-se a outras como a mikvê do Templo, a Cidade de David, os tesouros do Monte do Templo e uma extensa lista dos testemunhos da história a favor da certeza de que a casa de Israel tem, incontestavelmente, estado em Jerusalém nos últimos 3 mil anos.

O termo mikvê designa um ajuntamento, concentração ou conjunto de águas de fonte natural não modificada, não canalizada e não recolhida por qualquer recipiente. Elas podem ser oriundas de uma nascente, rio ou chuvas. Costumam ser represadas num tanque maior que mantém uma comunicação com outro menor, sendo este dotado de uma escada que permite o acesso do fiel. A construção deve seguir detalhes minuciosos e reveste-se de tal importância que precede, nas comunidades judaicas espalhadas pelo mundo, até mesmo a construção da sinagoga. Amikvê resguarda a pureza familiar, uma vez que a mulher casada deve fazer uso dela no final de seu ciclo e após o parto, enquanto as noivas devem usá-la antes de seu casamento. Quanto aos homens, é comum que usem as águas no ritual antes do Shabat, no Yom Kippur e sempre nos casos de conversão ao judaísmo. O Sumo Sacerdote mergulhava nas águas límpidas por cinco vezes no referido Dia do Perdão. Segundo Susan Handeman (Chabad.org), “para cumprir a mitzvah [mandamento, ordenança] do mikveh, a pessoa deve imergir completamente, ficar inteiramente envolvida pelas águas. Essa total imersão do ser significa perder a própria existência independente, […] elevar-se tornando-se um receptáculo para a santidade”.

Ainda que o poder transformador pertença a Deus, não sendo inerente às águas, o Eterno delas faz uso, semelhantemente ao que fez por ocasião do dilúvio universal, quando as águas foram instrumento não apenas de punição dos pecadores, mas de purificação da Terra. O que ocorre é que, através da imersão (tevilah), o impuro (tamei) dá testemunho de seu desejo de santificação. Enquanto está imerso ninguém é declarado puro, mas sim quando deixa a mikvê, entendendo que não foi chamado para deixar o mundo, mas para estar nele na condição de morada de Deus. Quando sai das águas, é declarado taharah, ou seja, limpo. A imersão será anulada se a água não atingir todas as partes do corpo, especialmente a cabeça, por isso é comum a presença de alguma testemunha que certifique a validade do ato. Quando se requer ou se necessita da afirmação plena do ato, pode-se usar mais de um assistente, uma vez que pela palavra de duas ou três testemunhas todo o fato é confirmado. Ratifica-se a importância da imersão da cabeça, uma vez que não é o mergulho, portanto não são as águas, mas a decisão e o proceder posteriores que, o fiel espera, asseverarão a permanência na condição de pureza.

Quando Yochanan Ben Z’kharyah (João, filho de Zacarias) ou Yochanan (João), o imersor, principiou seu ministério convocando pecadores ao arrependimento, conduzindo-os às águas do rio, estava legitimamente exercendo seu sacerdócio naquilo que havia de mais essencial, pois a pureza (o desejo da pureza) precede a construção – a santidade deve preceder o Templo, pois a santidade faz de homens comuns, templos para Deus. João Batista era um edificador de templos e o som de sua voz clamava ao impuro para que mudasse seu proceder e descesse obedientemente às águas. Marcos declara que “quem crer e for batizado será salvo” (Marcos 16.16). O ato é o passo seguinte de uma pessoa que reconheceu seu pecado e se arrependeu. Não é algo que fazemos para agradar alguém ou a nós mesmos, mas por obediência ao Senhor, afinal, Ele nos diz: “aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama” (João 14.21).

No judaísmo, a mikvê nos reporta a duas imagens distintas, mas conciliáveis no ato da imersão: a mikvê é comparável a um útero, porque algo (alguém) está nascendo ali (para a mulher, depois de seu ciclo, está renascendo a possibilidade e esperança de gerar) e é simultaneamente semelhante a um túmulo, pois algo (ou alguém) está sendo ali sepultado. “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos” (Colossenses 2.12). Ainda que as águas não possam purificar o homem de seus pecados, pois o sangue de Jesus Cristo detém esse poder, o homem limpo, em resposta ao Salvador, dá testemunho de sua consciência limpa das obras mortas, confirmando sua transformação através do batismo. O velho homem é sepultado, um testemunho público é dado perante testemunhas, a fé é confessada e o crente é revestido de Cristo (Gálatas 3.27, 28). A imersão assevera o desejo de deixar o antigo proceder de forma definitiva. Assim como a separação imposta pelo mar aos israelitas (salvos pelo sangue do cordeiro) impedindo-os de retornar ao Egito, assim as águas precisam cobrir nossas decisões de forma imperturbável, inabalável, para vivermos uma vida de completa separação do pecado.

A descoberta de uma mikvê fala alto aos corações dos discípulos, fortalecendo os laços que nos unem àqueles que, em todo tempo, desejaram uma vida pura. Quando o ato de descer ao tanque está restrito às águas, requer repetição religiosa e não aplaca a culpa. Quando é ato revelador da purificação feita pelo sangue, é único e inesquecível. Testemunham nos céus o Pai, a Palavra e o Espírito Santo. Na Terra, dão testemunho o Espírito, a própria água e o sangue (1 João 5.7, 8). Todos os que assim procedemos podemos declarar que descemos à mesma ‘mikvê’ e fomos todos, em Cristo, batizados num mesmo batismo.

Por, Sara Alice Cavalcante.

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