Ortodoxia cristã ou ortopraxia esotérica?

Ortodoxia cristã ou ortopraxia esotéricaQue o ser humano é composto de faculdades espirituais, isto é do conhecimento de qualquer pessoa que pratique algum tipo de religiosidade. No entanto, é preciso deixar claro que religiosidade e espiritualidade também têm suas distinções e especificidades. A religião é o conjunto de regras que regem o relacionamento do homem com algum “deus”. Assim sendo, cada religião tem a sua divindade ou divindades.

Jesus orou no desejo de que o povo rompesse a barreira do desconhecimento e dirigisse o olhar para o único que é verdadeiro Deus, bem como para o cumprimento da palavra profética que apontava para o Cristo: “E a vida eterna é esta: que conheçam a ti só como único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17.3).

A espiritualidade é a capacidade específica inerente à natureza humana que conduz o sujeito a explorar o mundo metafísico. O esoterismo é a crença que somente os iniciados nessa “espiritualidade” podem alcançar um grau de conhecimento de Deus.

As religiões foram se definindo a partir de buscas e explorações desse mundo esotérico. Era o homem querendo conhecer o eterno, o invisível, a raiz de todas as coisas, a fonte, a natureza do saber, da inteligência, da vida e até mesmo da eternidade. Surgiram com isso as chamadas religiões sapienciais. O esoterismo entende que a religião é um sistema de sabedoria espiritual criado por um povo a partir da sua necessidade de compreender suas relações com Deus, consigo mesmo, com a humanidade e com o mundo físico à sua volta. Nessa linha de pensamento, podemos destacar o velho jargão: “Todas as religiões são boas, todos os caminhos levam a Deus”.

A religião cristã, por sua vez, é considerada uma religião revelada, visto que não foram os humanos, destituídos da glória de Deus, que codificaram regras ou meios de entender e comungar com o Ser Eterno, mas, sim, o próprio Deus que se revelou ao homem, culminando, inclusive, com Jesus Cristo, imaculado, a segunda Pessoa da Trindade Divina, que encarnou e então descortinou o meio de adentramos o Reino dos Céus. Paulo, apóstolo, afirma em Colossenses 1.27: “Aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória”.

Autores esotéricos apregoam que durante “milhares” de anos os ensinamentos espirituais “foram deliberadamente ocultos na forma de símbolos e ensinados nas escolas de mistérios apenas oralmente e a alguns poucos estudantes selecionados e de confiança.” Compreendemos pela antropologia bíblica que todo ser humano é “espiritual”, seja ele pregador, palestrante, profeta ou um “comum” do povo.

O adepto do candomblé, da magia negra, do espiritismo, do catolicismo, do budismo, bem como evangélicos ou de outras crenças sempre poderá desenvolver suas abstrações e seus “caminhos” de espiritualidade. A questão maior é entender qual reino estamos procurando e em que reino estamos entrando e nos envolvendo. A Bíblia nos adverte: “Amados, não creiais em todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1 João 4.1). No interesse de ver Seu povo não errar o caminho para o Seu Reino, o grande Deus falou a Jeremias da importância do trabalho pastoral, e da importância das ovelhas se deixarem pastorear: “E vos darei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com ciência e com inteligência” (Jeremias 3.15).

O mundo espiritual pode ser definido também como um campo místico, ou seja, a possibilidade do indivíduo comunicar-se com o sobrenatural. O misticismo é a tendência para crer nas forças sobrenaturais. Como é impossível visualizar, apalpar ou perceber Deus com os sentidos naturais, visto que Ele é um Espírito eterno (João 4.24), pode-se afirmar que a relação pessoal com Ele é uma relação mística. A diferença, no entanto, do misticismo cristão em relação ao misticismo pagão é que o cristão tem fundamentos doutrinários revelados na Bíblia; ou seja, a fé e a espiritualidade não se incompatibilizam com a razão, conforme a escolástica já dizia com Tomás de Aquino. A espiritualidade cristã não é independente, sem pastoreio, não é algo que pode ser experimentado de formas aleatórias, mas embasada e regrada nas Escrituras Sagradas.

O esotérico e a Bíblia – A literatura esotérica compreende que o judaísmo e o cristianismo legaram aos seus seguidores, escritos sagrados com atributos frequentemente sublimes e majestosos que, todavia, muitas vezes, são incompreensíveis. Cheia de símbolos, de mitos, de lendas, de alegorias e de parábolas, a Bíblia, segundo o esoterismo, apresenta incoerências, contradições e contrassensos em quantidade suficiente para desencorajar e frustrar o mais determinado buscador da verdade. A hermenêutica esotérica arroga que foi somente a partir da “luz dos sábios” que, nos últimos cem anos, esses mistérios de sabedoria imutável começaram a ser interpretados por cientistas e místicos esotéricos altamente capacitados.

Ora, o Evangelho não é um mistério a ser revelado, mas a revelação já dada para a salvação e a comunhão com Deus. Escreve o apóstolo João: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). É suficiente entendermos que somos amados por Deus e que Ele proveu a salvação por meio de Jesus Cristo e o Seu sacrifício na cruz. Ainda pode-se acrescentar a citação de Lucas 19.10: “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido”. O Evangelho é simples.

O esotérico e Jesus Cristo – Quem é Jesus? Um profeta? Um mestre? Ou Deus humanizado? O interesse do mundo esotérico é a autolatria. Akashaé um termo sânscrito definido por Blavastsky como a essência espiritual sutil e supersensorial que permeia todo o espaço. Os esotéricos acreditam que todos os pensamentos, todas as palavras, todos os feitos e todos os acontecimentos deixaram impressões vibratórias permanentes nessa rede de tempo-espaço.

O sujeito se torna então o centro e o alvo de toda a atividade divina. Ou seja, Deus existe para servir ao homem. E esse pensamento está na gênese da Confissão Positiva. Assim, estamos diante de um perigoso campo espiritual quando convocações para culto a Deus, que deveriam ter um período relevante de adoração, louvor, gratidão e onde os crentes deveriam ouvir a exposição da Palavra, que fundamenta e ensina a Sua gloriosa vontade, tornam-se uma sessão de “milagres” interesseiros e que em nada, ou quase nada, intentam para a glória do Senhor. Nessas convocações é o fiel que é avaliado pelo tamanho da sua fé, ou pelo tamanho da sua contribuição financeira. A grandeza moral e metafísica do Senhor que compreende Sua imutabilidade, perfeição e outros atributos, estão sendo substituídas pela ideia de que o homem pode tudo pelo alcance da fé. A pergunta que se faz é: fé em quem ou em quê?

O esotérico e a mensagem musical – Onde a Teologia do louvor é ignorada, o campo fica minado. Tenho afirmado, sistematicamente, que conteúdos de canções não têm propriedade e, sim, direitos de autoria. Lançados no mercado, qualquer tipo de conteúdo pode ser cantado pela criança, o jovem, o adulto ou o ancião. A partir do momento que a inspiração do autor foi colocada em público, pode ser repetida na rua, em casa, no trabalho, nas igrejas etc. Algumas pessoas selecionam os autores, consultam a que denominação os tais pertencem, mas esquecem que o que deve ser observado é o conteúdo. Eu posso ser pastor e escrever conteúdos romancistas e não é por isso que minha canção poderia ser denominada de hino! Sequer poderia ser usada com objetivo de louvar. Hinos são homenagens. Louvores são elogios, celebrações, deferências que se fazem a alguém importante; no caso aqui, Jesus Cristo. A canção não é evangélica pelo simples fato de estar assinada por um autor evangélico, mas pelo conteúdo que apresenta. Muitos autores evangélicos comprometem-se com conteúdos essencialmente esotéricos, pela razão de não fundamentarem seus escritos no conteúdo bíblico-teológico.

Louvor é enaltecer “Bendito seja o Cordeiro que por nós na cruz padeceu!”; louvor é enfatizar que “à sombra da cruz há um deleite singular!”.

O esoterismo não está ligado em elos com parâmetros religiosos denominacionais, ou com os ritos e práticas somente. Mas, sua ação está impregnada na chamada espiritualidade mística das individualidades. Por isso o cristão evangélico precisa conhecer o caminho que lhe foi proposto e seguir Jesus, o Bom Pastor, e não abrir mão dos fundamentos doutrinários revelados na Bíblia Sagrada.

Por, Paulo Gonçalves.

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