As filhas da sanguessuga

As filhas da sanguessuga“A sanguessuga tem duas filhas, a saber: Dá, Dá. Há três coisas que nunca se fartam, quatro que nunca dizem: basta. A sepultura, a madre estéril, a terra que não se farta de água, e o fogo, que nunca dizem: Basta” (Provérbios 30.15,16).

A palavra traduzida do hebraico para sanguessuga é aluqah. Este termo aparece unicamente em Provérbios 30.15, dando à raiz da palavra o significado de “chupadora”. A sanguessuga, esse pequeno animal que vive somente para obter sangue, faz parte de uma classe especializada de nomes científicos – Hirudínea ou Annelida – , distinguidos por terem exatamente 34 segmentos nos corpos, dos quais os primeiros cinco ou seis formam a cabeça, que chupa, enquanto que os últimos sete formam a cauda, que chupa. A sanguessuga é um verme (anelídeo, pois o corpo é formado por anéis) comum em todos os lugares do mundo, em todos os ecossistemas. Existem mais de 15 mil espécies de sanguessugas! Elas têm este nome, obviamente, porque se alimentam de sangue. São hematófagos.

Russel Norman Champlin afirma que “metaforicamente, a sanguessuga refere-se a algum indivíduo ou alguma circunstância debilitadora, gananciosa e extremamente egoísta em suas exigências.” E ele diz mais: “A sanguessuga é o modelo do egoísmo e da ganância, e é vista como animal que vive do sangue de outro animal, uma apta metáfora para as pessoas gananciosas.”

Quando Agur escreveu este texto, sua preocupação não era com a sanguessuga em si, mas, apresentar um princípio moral e espiritual que tem como parâmetro a vida da sanguessuga. Pois bem, a sanguessuga tem duas filhas: Dá e Dá. Mas o que isso quer dizer? E o que isso tem haver com a vida cristã? É muito simples: você precisa saber que muitas pessoas vão querer sugar de você todas as energias, a inteligência, a generosidade, o tempo, etc. Há pessoas que nunca se fartam. Quanto mais você lhes oferece, mais elas exigem. Elas, o quanto puderem, sugarão o seu sangue.

O princípio moral e espiritual é o da ganância, do egoísmo, da autossatisfação que leva pessoas, grupos, entidades a se beneficiarem de coisas de forma desonesta, de maneira ilimitada e insaciável, querendo sempre mais e mais, sugando, chupando, extraindo, explorando para proveito próprio.

Quando se observa a vida da sanguessuga percebe-se claramente que Agur está descrevendo o agir egoísta e interesseiro do ser humano:

1) As sanguessugas são bastante espalhadas pelo mundo, podendo habitar na água ou em terra úmida, como em prefeituras, governos estaduais e federais, como em todos os setores ou repartições públicas ou privadas;

2) Alimentam-se principalmente de sangue, e chupam tão prodigiosas quantidades, que seus corpos distendem-se quais balões. Isto é: suas contas bancárias no Brasil e no exterior, seus patrimônios dentro e fora do país.

3) As sanguessugas têm o seu corpo formado por 34 segmentos, subdivididos externamente. Sãos os testas de ferros, os laranjas, os limões, os inocentes úteis usados para esconder o “sangue” sugado.

4) As sanguessugas são vermes possuidores de ventosas, por meio das quais chupam o sangue de animais. São parasitas que se instalam em setores da sociedade para absorverem de forma desonesta e escabrosa tudo que é possível.

5) A sanguessuga suga o sangue da vítima podendo inserir uma quantidade de sangue 500 vezes superior ao seu volume.

O sábio Agur, do ápice de sua sabedoria, afirma que a sanguessuga tem duas filhas. Dá, Dá. Isto é, quanto mais sangue bebe, mais sangue quer. Quanto mais se tira, quanto mais se desvia, quanto mais se locupleta, mais quer, mais se deseja, mais se inventa uma maneira de se tirar mais e mais e mais.

Certo escritor afirmou: “Há pessoas tão excessivamente gananciosas e cobiçosas que elas deixarão sem nada qualquer ser vivo, elas se agarram a qualquer coisa que possa dar lucro e nunca largarão até que tenham extraído a última porção que haja de bom.” Infelizmente, estamos vivendo em nossa sociedade este princípio moral e espiritual da sanguessuga.

Cuidado com “os sanguessugas”! Eles podem estar em qualquer lugar da sociedade, em qualquer instituição pública, privada ou religiosa, pois usam tudo e todos para satisfazer a sua volúpia de sangue, ou seja, de poder, de dinheiro, de fama. Fazem de tudo para obter o que não é seu. Sugam todas as forças de seu próximo. Eles são egoístas, cujo deus é o próprio ventre. Por isso já dizia Horácio: “Se ele se apoderar de você, então a tortura será uma coisa temível. Ele se agarra a você até vê-lo morto. Ele é como uma sanguessuga, voraz pelo seu sangue. Ele não desiste de seu cruel domínio sobre você até explodir, de tão cheio do seu sangue”.

Agur ilustra os homens que anelam por mais e mais, uma natureza destrutiva de indivíduos sanguinários que nunca matam ou aleijam o suficiente, ou roubam o suficiente, ou corrompem o suficiente, ou exploram o povo o suficiente. Agur, portanto, revela a cobiça humana que jamais se satisfaz; a concupiscência de certas pessoas que sempre desejam mais e mais.

De acordo com Salomão, a sanguessuga é mãe de gêmeas homônimas. Suas crias são conhecidas com o sugestivo nome de “Dá”. Elas são comparadas a três coisas que nunca se fartam, e quatro que jamais dizem “basta”: a sepultura, a madre estéril, a terra que não se farta de água, e o fogo, que em sua fúria, jamais se sacia.

Dá e Dá são a “igreja”, as instituições públicas, nós mesmos que numa relação com o pecado, geramos cada vez mais sanguessugas, ávidas de poder, fama e dinheiro. Talvez hoje, o texto bíblico as chamasse de “Toma lá” e “Dá cá”.

A sepultura é aquela que recebe o cadáver e o decompõe. Não há exceção: todos os que nela são colocados se corrompem (nos dois sentidos). A sepultura é semelhante às filhas da sanguessuga. No caso em questão, a sepultura é aquela igreja institucionalizada, que se tornou o ambiente onde cadáveres vivos, verdadeiros zumbis estão se decompondo em plena luz do dia. A ética é relativizada e flexibilizada de acordo com os mais escusos interesses. Engolem-se camelos, enquanto mosquitos são cuidadosamente coados. A madre estéril somos nós quando já não geramos filhos; quando vivemos de adesões e não mais de conversões. A terra, por sua vez, tem um incrível poder de absorção. Não importa o volume de água, ela sempre a absorve mais. Assim, por vezes, muitas igrejas vivem absorvendo as práticas do mundo, sob o pretexto de contextualizar-se, tornando-se menos intransigente, e mais atraente aos olhos do mundo, principalmente dos poderosos. O fogo voraz não pode ser detido. Por onde passa deixa um lastro de destruição e prejuízo. Tal é o apetite das filhas da sanguessuga.

A Igreja do Senhor é bem diferente da sanguessuga e suas filhas. Enquanto estas jamais dizem “basta”, a genuína Igreja entende o que o Senhor disse ao apóstolo Paulo: “a minha graça te basta!”.

Por, Sérgio Pereira.

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