O verdadeiro conhecimento de Deus

O verdadeiro conhecimento de DeusA revelação de Deus está relacionada com o conhecimento humano, mas de uma forma que essa revelação jamais coincidirá 100% com as expectativas que o homem possa ter a propósito da divindade. Quando Deus se comunica com o homem, este fica diante de um paradoxo, diante de uma crise, que nunca poderá ser resolvida em termos humanos.

Quando o homem se encontra face a face com o Senhor, é concedido que diga “não” a Deus e, nesse caso, avançará em direção à morte espiritual; ou então, ele dirá “sim” a Deus, e será transformado num novo homem.

Na questão da busca por conhecimento, precisamos compreender o mecanismo de raciocínio e como ele funciona. Na ciência e na filosofia, o homem raciocina de duas maneiras: em termos do sujeito (aquele que raciocina) e em termos do objeto (aquilo sobre o que o sujeito exercita o raciocínio). Isso nos leva à distinção que se faz entre pensamento objetivo e pensamento subjetivo.

Pensamento objetivo é um pensamento limitado e também verificado pela existência do objeto. Aquele que exercita o pensamento objetivo não interfere na disposição dos fatos, deixando que eles falem por si mesmos. A ciência e a filosofia procuram ressaltar bastante o valor do pensamento objetivo. Pensamento subjetivo refere-se ao fato de que se pode pensar à base dos sentimentos cultivados, com desprezo para com os fatos.

Quando a Igreja pensa em termos objetivos, ela entende com isso que a revelação consiste de verdades que Deus revelou aos homens mediante a Bíblia e à Igreja. Mas, aqui encontramos um perigo: o Diabo pode citar textos das Escrituras com precisão e muita habilidade e usá-la para distorcer a verdade da revelação. Quando a Igreja pensa de forma subjetiva, procura ressaltar a importância da experiência íntima do homem, ou seja, a importância da “fé”, e chama os homens para que contemplem introspectivamente, a fim de que possam se inteirar da existência de uma verdade viva que não poderia ser observada jamais por vias objetivas. Mas, também aqui temos um perigo: no subjetivismo, cada indivíduo se torna a si mesmo como autoridade última para descoberta da verdade e, em consequência, a Igreja se expõe à desintegração com o aparecimento simultâneo de revelações que se anulam entre si.

Como resolver esse impasse? Temos então uma alternativa. Nessa alternativa, o pensamento é um processo dialético: atenta tanto para a Palavra de Deus presente na Bíblia como também para o testemunho do Espírito Santo no íntimo do crente.

Voltando-nos para a Bíblia, temos a certeza de que Deus sempre é quem toma a iniciativa em fazer-se conhecido ao homem. Deus não nos revela informações nem doutrinas novas, mas, sim, a Sua própria pessoa afirmada nas Escrituras. Mas, Deus não se revela como sendo, simplesmente, objeto para o exercício do raciocínio. Ele se revela como Pessoa que entra em relacionamento com o homem.

No conhecimento objetivo, a pessoa que exercita o conhecimento nada tem a ver com a coisa que conhece. Nenhuma preocupação vital a prende ao objeto conhecido e à pessoa que o conhece. Esse é o conhecimento científico, onde o cientista é independente em relação aos experimentos que leva a efeito, controlando-os e manipulando-os à vontade.

Esse é o tipo de conhecimento de Jó e seus amigos. Sua teologia era formada em conhecimentos adquiridos de outros. Aprenderam ouvindo falar quem era Deus e da forma como Ele agia. Eles, por sua vez, perpetuaram esse conhecimento de forma sistematizada, metódica e científica. Na verdade, não possuíam nenhum envolvimento pessoal com o objeto de seus conhecimentos. Fizeram experimentos sobre a ação de Deus e chegaram a suas próprias conclusões.

É possível mantermos um conhecimento desse tipo em relação a uma pessoa. Podemos observá-la, procurando informações a seu respeito; podemos fazer uma relação das características que nela descobrimos e, assim, chegaremos a classificar essa pessoa dentro de categorias pertinentes: calma, confiável, chata, fofoqueira, atenciosa, santa etc.

Assim como procedemos para com as pessoas que nos cercam, agimos de igual forma para com Deus. Fazemos uso desse conhecimento intelectual, científico, para com Ele. Podemos classificá-lO tendo por base Suas características (i.e., como se apresenta); Suas ações (i.e., o que faz) e com base nas Suas expressões (i.e., aquilo que diz). É isso a que se propõe a Teologia, quando apresenta quem Deus é. Ela apresenta Deus compartimentalizado, dividido em secções, como (só a título de comparação) um legista que estuda a causa mortis de alguém.

Mas, existe outra maneira pela qual conhecemos uma pessoa. É quando a pessoa deixa de ser um “isso”, uma “coisa”, um “objeto”, para ser um “tu” para nós. Ela se revela não apenas com informações sobre si, mas comunicando-se e relacionando-se conosco. Dessa forma, estabelece-se uma comunhão entre duas individualidades. Não haverá mais aquela disposição pela qual alguém fica como observador, à distância, procurando informações. Em vez disso, temos aqui uma aproximação, um contato, um compartilhamento de tal forma que aquele que passou a conhecer a outra pessoa sente-se mudado no mais profundo de seu ser pelo fato de ficar conhecendo e dar-se a conhecer pela comunicação estabelecida com a pessoa considerada. É erro crasso supor que possamos obter plenamente conhecimento objetivo de Deus. Que possamos conhecê- -lO simplesmente dividindo-O em partes e analisando-O como um cientista faz. Isso implicaria conceber que Deus está plenamente ao alcance de nossas faculdades e pode ser retido, controlado e manipulado por nós.

Acontece que Deus só se faz verdadeiramente conhecido mediante o estabelecimento da relação que se expressa em termos de “eu-tu”. Mediante a experiência do “eu-tu”, nós nos aproximamos reciprocamente e nos comunicamos com espontaneidade, dando-nos sem reservas. É próprio dessa relação o fato de nos impossibilitar definitivamente de possuir, controlar ou manipular o outro.

Jó passa por essa transição: do conhecimento objetivo para o conhecimento subjetivo. Chega um determinado momento que ele não consegue entender a atitude de Deus, exatamente por ela contradizer o seu conhecimento objetivo, intelectual, o seu “ouvir dizer” sobre Deus.

Jó entendia que o sofrimento era resultado do processo de causa e efeito, portanto sempre procurava no passado uma causa para o efeito presente ou atual do sofrimento. Juntamente com seus amigos, procurava levar as pessoas a reconhecerem seus erros e pecados, arrependerem-se para então se livrarem do sofrimento.

Mas, acontece que agora Jó está sofrendo e não vê causa para isso. Sua teologia, sua maneira de entender Deus, cai por terra. Deus se apresenta de uma forma totalmente contrária e em desarmonia com tudo o que tinha ouvido e aprendido sobre Ele. O relacionamento de Jó e de seus amigos com Deus estava na relação “eu-isso”, um conhecimento meramente intelectual, onde pensavam que podiam controlar Deus, bem como Suas ações.

Não podemos possuir abarcar nem manter Deus limitado aos nossos credos. Deus permanece livre. A revelação não é algo que nos dê algum conhecimento pleno de Deus; propriamente, a revelação é Deus mesmo que se nos dá. Deus tem dado o passo; tem se mostrado, se comunicado. Deus tem de se comunicar, pois só Deus pode revelar Deus.

Segundo a filosofia, nós pensamos sobre Deus objetivamente; nesse caso, Deus fica com se fosse um “isso”, isto é, um objeto cuja existência ou não existência pode ser debatida. Acontece, porém, que o Deus da revelação cristã não pode ficar à mercê de uma discussão assim, para ser aceito ou rejeitado sem maiores consequências. Na verdade, o conhecimento de Deus determina mudanças nas profundezas do ser individual, capaz de renovar a personalidade.

Estamos vivendo hoje uma situação semelhante a dos dias de Jó. Muitos conhecem Deus somente de ouvir falar. Temos preservado um conhecimento intelectual de quem é Deus e de como Ele age em nós. Vivemos do Deus de nossos pais, do Deus da Teologia ou das muitas filosofias que nos cercam. Como Jó, estamos nos orgulhando de um conhecimento puramente intelectual, científico, de Deus. E Deus quer muito mais do que isso. Ele espera que venhamos manter um relacionamento pessoal com Ele! É imprescindível que nos voltemos para Deus de forma mais pessoal.

Temos tempo para nossos negócios, para nossos filhos, companheiros, amigos, para a própria igreja e não temos tempo para Deus. Não podemos continuar vivendo de um Deus do qual ouvimos falar.Temos que conhecê-lO em um relacionamento pessoal por meio da oração, da Palavra e da obediência.

Precisamos mudar nosso tipo de relação com Deus. Precisamos ter experiências profundas com Ele e não vivermos mais de conhecimentos vazios, que não têm expressões para nossas vidas. Precisamos buscar e nos entregarmos a esse novo relacionamento.

Jó, após sua experiência com Deus, chega à conclusão de que nada sabe do soberano Senhor. Ele compreende sua limitação em conhecer Alguém que está infinitamente acima dele, e isso produz uma mudança profunda e radical nele. Ele se propõe a não falar mais daquilo que não sabe, mas tão somente daquilo que experimentou. Conheceu agora um Deus cujos propósitos ele mesmo não pode compreender e, então, resolve calar-se; não precisa de mais explicações.

Precisamos aprender que nosso relacionamento com Deus vai nos causar profundas transformações, inclusive em nossa busca pelo conhecimento dEle. Temos que entender que Deus é um ser pessoal e que desde o Éden quer manter um relacionamento conosco. Não podemos conhecer a Deus através do conhecimento puramente humano e laboratorial.

Por, Levi B. Libarino.

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