Saul e Saulo: as diferentes escolhas

Saul e Saulo - as diferentes escolhasA Bíblia tem como mensagem principal a proclamação da graça de Deus, demonstrada na história humana tanto no Antigo como no Novo Testamentos. Esta graça é um dom gratuito e imerecido, dado ao homem sem trabalho nem merecimento. Todo homem recebe alguma medida dela. Alguns se abrem a esse favor divino e são beneficiados por não resistir à Sua ação. Outros, porém, abandonam a graça, preferindo confiar em sua própria justiça ou buscar o favorecimento que vem dos homens.

Podemos observar essas diferentes atitudes de receptividade quanto à graça divina em dois homens que viveram em tempos distintos, mas que pertencem a uma mesma tribo de Israel, a tribo de Benjamim, e que receberam o mesmo nome ao nascer: Saul.

O primeiro Saul foi o homem que Deus chamou para ser o rei que inauguraria a monarquia em Israel. Esse monarca foi alcançado pela graça divina de uma forma extraordinária. O Senhor deu a ele uma oportunidade de resgatar a honra de seu povo, os habitantes da pequena cidade de Gibeá, localizada no território da tribo de Benjamim, a cinco quilômetros ao norte de Jerusalém.

Em cerca de 1050 a.C., época em que os juízes governavam Israel, os habitantes desta cidade cercaram a casa onde estava hospedado um levita que ali resolveu pernoitar, exigindo que o dono da casa o trouxesse para fora para que eles tivessem relações homossexuais com ele. Não conseguindo, contentaram-se em abusar da sua concubina durante toda a noite, levando-a à morte. O levita, indignado, esquartejou a mulher e espalhou os pedaços pelas demais tribos, causando um furor que culminou em guerra civil e chacina, da qual somente sobraram quatrocentos rapazes de Gibeá. Para que esta tribo, agora reduzida a estes poucos habitantes, não fosse exterminada, foi permitido que eles casassem com as moças de Jabes-Gileade, sobreviventes de outra chacina (Juízes 19-21).

Saul era herdeiro desta vergonha e seu pai, chamado Quis, ou seu avô, Abiel, deveria ser um dos quatrocentos rapazes sobreviventes de Gibeá. Deus, por sua graça, colocou aquele homem como cabeça da nação, elevando a sua tribo e a sua cidade à primazia. Uma linda expressão da graça que restauraria o nome e a honra desta família de uma maneira que eles jamais poderiam fazer por si mesmos.

Porém, Saul livremente escolheu rejeitar a Deus, preferindo agradar o povo. Ele desobedeceu à palavra do Senhor que lhe foi entregue pelo profeta Samuel, por medo de perder o apoio popular. Talvez a ideia de não ser aceito e aclamado pelo povo fosse terrível para alguém que viveu sempre debaixo da vergonha de sua história. Saul foi substituído por outro rei, que fosse obediente a Deus, e esta segunda dinastia foi abençoada para sempre. Este primeiro Saul resistiu à graça divina e perdeu a oportunidade que Deus lhe deu, por sua escolha.

O segundo Saul (esse é seu nome no Novo Testamento grego) nós o conhecemos por Saulo de Tarso ou pelo nome romano: Paulo. Ele foi igualmente alcançado pelo favor divino, quando teve um encontro com Jesus na estrada de Damasco (Atos 9.3-8).

Saulo foi um inimigo da igreja, apoiou o martírio de Estevão e levou muitos cristãos à prisão. Não satisfeito com isso, foi a Damasco para prender os cristãos que se encontravam ali. Era um religioso sedento de violência, que usaria a força para alcançar seus objetivos. Ele declara acerca de si mesmo: “Fui blasfemo, e perseguidor, e opressor” (1 Timóteo 1.13). Saulo construiu uma fama de perseguidor dos cristãos.

No entanto, Cristo o chamou para ser “um vaso escolhido”, para se tornar o primeiro missionário e o maior escritor do Novo Testamento, aquele a quem seria dada a maior revelação sobre a graça de Deus. Paulo não rejeitou essa graça, mas abraçou-a com fé. Ele diz: “Pela graça de Deus sou o que sou” (1 Coríntios 15.10). Por não resistir à ação da graça, e capacitado por ela, pôde aceitar a oferta de Cristo para salvação. Paulo foi salvo e tornou-se o apóstolo dos gentios, pois escolheu aceitara a oferta da graça divina.

Ele reconhece que foi chamado pela graça (Gálatas 1.15), que foi justificado gratuitamente por ela (Romanos 3.24) e que, por ela, foi liberto do domínio do pecado (Romanos 6.14). Porém, ele exorta aos crentes que não recebam a graça em vão (2 Coríntios 6.1) e afirma que alguns caíram da graça (Gálatas 5.4), quando se afastaram de Cristo e negaram a total dependência dEle para sua salvação.

Os arminianos creem que a graça de Deus alcança a todos os homens, mas também creem que ela é resistível. A Declaração dos Remonstrantes, documento formulado pelos teólogos que deram continuidade à doutrina defendida por Jacó Armínio, na Holanda, no seu artigo 4, diz: “Que esta graça de Deus é o começo, a continuação e o fim de todo o bem; de modo que nem mesmo o homem regenerado pode pensar, querer ou praticar qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação para o mal sem a graça precedente (ou proveniente) que desperta, assiste e coopera. De modo que todas as obras boas e todos os movimentos para o bem, que podem ser concebidos em pensamento, devem ser atribuídos à graça de Deus em Cristo. Mas, quanto ao modo de operação, a graça não é irresistível, porque está escrito de muitos que eles resistiram ao Espírito Santo”.

John Wesley, seguindo o entendimento bíblico arminiano, pregava que a graça proveniente habilita o homem a crer, e o poder para usá-la também vem de Deus, de modo que todo homem está debaixo dos privilégios e responsabilidades da graça. Ele afirma que “não existe nenhum homem que é totalmente destituído da graça de Deus, a não ser que ele tenha extinguido o Espírito”.1 Também declara que “todos, em alguma medida, têm aquela luz, algum tímido raio reluzente que, cedo ou tarde, mais ou menos, ilumina todos os homens que vêm ao mundo”. Para ele, a graça não é o poder irresistível de Deus que vence a vontade do homem, mas a mão amorosa de um Pai que capacita o menino a usar os recursos que previamente este Pai lhe havia dado. O pai do Metodismo sustentava que a ação de Deus não é irresistível, mas que Deus deixa ao homem a possibilidade de aceitar ou rejeitar a graça.

Wesley pregava que somente a livre graça de Deus capacita os homens a crerem. Ele explica em uma carta: “Sustento de forma fervorosa que todo homem pode crer se quiser e, contudo, nego totalmente que ele pode crer quando quiser”.2 O homem precisa responder ou cooperar com esta graça, embora “responder ou cooperar deve ser antes de tudo um receber – quase de forma passiva”.3 Ou seja, estender a mão para receber não pode ser visto como “obra” humana, mas como uma mera não resistência à ação graciosa do Espírito Santo.

A Bíblia é cheia de exemplos de pessoas desprezando a graça de Deus oferecida a eles, desde o Antigo Testamento (Isaías 5.1-7; 2 Reis 17.7-23; Jeremias 25.311; 26.1-9; 35.1-19; 2 Crônicas 36.15-16; Neemias 9.20; Salmos 78.40-42; Ezequiel 24.13; Zacarias 7.11-14). O Novo Testamento também fornece exemplos da resistibilidade da graça (Atos 7.51-53; Lucas 7.30). Jesus falou às pessoas com o objetivo de salvá-las (João 5.34), mas declarou que muitas delas se recusavam a vir a Ele para ter vida (João 5.40). Ele declara que nem todos acreditavam nele, e lamentou a falta de vontade de Seu povo para receber a Sua graça (Lucas 13.34; Mateus 23.37).

O rei Saul e o apóstolo Saulo foram alcançadas pela graça de Deus. Um rejeitou-a, por sua escolha, e perdeu a maravilhosa oportunidade dada por Jeová. O outro aceitou-a, por fé, pois foi capacitado para isso pela própria graça e, além da salvação eterna, ganhou os dons que fizeram dele o maior instrumento de Deus na sua geração, um dos maiores da história da Igreja.

Todo homem recebe a graça divina e, por ela, pode escolher aceitá-la ou rejeitá- -la. A iniciativa da oferta gratuita é divina, mas a escolha da aceitação é humana.

Notas

1 – COLLINS, Kenneth J. Teologia de John Wesley.Rio de Janeiro: CPAD, 2010, pág. 100-109.
2 – Op. Cit., pág. 222.
3 – Op. Cit., pág. 223.

Por, Carlos Kleber Maia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *