O cristão e a natureza pecaminosa

O cristão e a natureza pecaminosaO capítulo 7 da Carta de Paulo aos Romanos tem sido interpretado pelos doutores da igreja de maneira diversa. Uns dizem que o conflito existencial vivenciado por Paulo no capítulo 7 de Romanos diz respeito ao Paulo do judaísmo. Outros, porém, dizem que se trata do Paulo cristão.

Neste ponto, a análise dos textos de Romanos 7.15-25 e Gálatas 5.16-18 faz-se necessária. Seja qual for a interpretação dada à situação existencial de Paulo em Romanos capitulo 7, uma coisa fica certíssima: ninguém pode servir a Deus fora do controle do Espírito Santo. A carne, no contexto de Gálatas 5.16-8, diz respeito à natureza pecaminosa existente no cristão. Por natureza pecaminosa não se entende uma substância má adicionada à essência do homem, mas, sim, de certa desordem da natureza humana, uma fraqueza espiritual, inexistente em Adão antes da Queda. A respeito dessa natureza pecaminosa, assim se pronunciou a célebre Confissão de Fé de Westminster (VI. v): “Esta corrupção da natureza persiste, durante esta vida, naqueles que são regenerados; e embora seja ela perdoada e mortificada em Cristo, todavia, tanto ela, quanto seus impulsos, são real e propriamente pecado”. Chafer, teólogo norte-americano, escreveu sobre o assunto: “A experiência do homem é um testemunho confirmado com relação à sua natureza pecaminosa”. O teólogo chinês Watchman Nee disse: “É um grande erro considerar a carne erradicada de nós e concluir que a natureza do pecado está completamente aniquilada”. O pressuposto confessional que defende o perfeccionismo como um ideal – o que, aliás, é louvável –, não pode ignorar esses dados.

Segundo Agostinho, “Adão estava isento de males físicos e possuía dotes intelectuais inigualáveis; ele se encontrava num estado de justificação, iluminação e bem-aventurança. A imortalidade estava a seu alcance, bastando apenas que ele continuasse a se alimentar da Árvore da Vida. Ele possuía liberdade, não no sentido de incapacidade de pecar [onon posse peccare = não posso pecar, que Agostinho considera a verdadeira liberdade desfrutada no Céu pelos bem-aventurados], mas de capacidade de não pecar [posse non peccare = posso não pecar]. E sua vontade era boa, ou seja, dedicava-se a cumprir os mandamentos de Deus, que dotara a vontade com uma firme inclinação para a virtude. De sorte que seu corpo estava sujeito à sua alma; seus desejos carnais, à sua vontade; e sua vontade, a Deus. Ele já tinha a graça divina em torno de si [indumentum gratiae = graça comunicada] e lhe foi ainda concedido o dom da perseverança, isto é, a possibilidade de persistir no correto exercício de sua vontade” (in:. J. N. D. Kelley, 1994, p. 273-4). Não obstante, Adão caiu. O professor e ex-presidente do Seminário Teológico de Dallas, Dr. Lewis Sperry Chafer, comentando a respeito da Queda, escreveu: “Quando Adão cometeu o seu primeiro pecado, experimentou um total rebaixamento de nível. Ele se tornou degenerado e depravado. Ele desenvolveu dentro de si uma natureza caída que é contraria à lei de Deus e está sempre disposta para o mal. A sua constituição foi alterada profundamente e ele, assim, tornou-se um ser totalmente diferente daquele que Deus criara. […] Nenhum outro ser humano além de Adão jamais se tornou pecador por pecar.Todos os outros são pecadores por nascimento. Uma distinção deve ser feita a esta altura entre o pecado como um ato mau e o pecado como uma natureza má. Por um ato pecaminoso, Adão adquiriu uma natureza pecaminosa, enquanto que todos os membros de sua família já são nascidos com essa natureza” (Chafer, 2003, p. 622, v. 1-2).

O processo pelo qual passaram nossos protoparentes chama-se depravação. A depravação fala do processo de passar da vida para a morte. A morte, nesse contexto, é a separação de Deus. O homem precisa, pois, da regeneração, que é o processo inverso da depravação. Palingenseia (em grego) é “novo nascimento” (palin = novo; genesis = nascimento), é o nascer de Deus, o que envolve a comunicação de uma nova vida por meio dos dois poderes operacionais para produzir, que são “a palavra da verdade” (Tiago 1.18; 1 Pedro 1,23) e o Espírito Santo (João 3.5-6). O nascer de Deus está em oposição ao nascer da carne. O regenerado é uma nova criação (2 Coríntios 5.17), não está mais sob a condenação divina (Romanos 8.1), está justificado em Cristo (Romanos 5.1) e é templo do Espírito Santo (1 Coríntios 3.16).

Comentando sobre a regeneração diz Chafer: “Uma nova natureza divina é comunicada a esse homem natural quando o individuo é salvo. A salvação é mais do que uma mudança do coração. É mais que do que uma transformação daquilo que é antigo. É a regeneração ou criação de algo totalmente novo que é possuído com a velha natureza enquanto o filho de Deus está neste corpo. A presença de duas naturezas (não duas personalidades) em um indivíduo resulta em um conflito. ‘Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; estes se opõem um a ou outro, para que não façais o que quereis (Gálatas 5.17)’. Não há sugestão alguma que esta restrição divina sobre a carne sempre será desnecessária enquanto o cristão estiver neste corpo, mas a Bíblia dá um testemunho claro de que o crente pode experimentar um contínuo andar no Espírito, a fim de não satisfazer a concupiscência da carne. Para assegurar isso tudo, não há a promessa da remoção da carne. O espírito, alma e corpo permanecem, e a vitória é ganha sobre a carne pelo poder do Espírito que habita no crente” (Teologia Sistemática. V. 1-2. p. 742).

A Escritura registra a presença da carne nos regenerados em textos como Gálatas 5.17, onde o termo carne aparece como elemento ativo que precisa ser controlado pelo poder do Espírito Santo. Em Romanos 6.6, o velho homem indica a natureza herdada de Adão. Em Colossenses 3.5, o apóstolo diz aos cristãos: “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena”. Em 1 João 1.8, o apóstolo João diz: ‘Se dissermos que não temos pecado [pecado no singular] nenhum, a nós mesmo nos enganamos, e a verdade não está em nós”. Watchman Nee, o teólogo chinês da espiritualidade, escreveu: “O cristão deve compreender que em Cristo ele é uma nova criação. Como tal, o Espírito Santo habita em seu coração; e isto, junto com a morte de Jesus operando em sua vida, pode capacitar o crente a viver uma vida santa. Tal caminhar só é possível porque o Espírito Santo aplica a cruz sobre a velha natureza adâmica do crente, mortificando as obras de seus membros. Ela, então, não é mais ativa. Isso não significa, todavia, que ele não tem mais a natureza carnal, porque o crente continua a possuir carne pecaminosa e tem consciência da sua presença e corrupção. […] Porém, a presença da carne não quer dizer que a santificação seja impossível. Somente quando rendemos nossa vida ao Senhor (Romanos 6.13; 8.13) é que nos é possível não mais estarmos sob o domínio da carne, mas sob o domínio do Senhor. Se seguirmos o Espírito Santo e mantemos uma atitude de não permitir que o pecado reine em nosso corpo (Romanos 6.12), então nossos pés ficam livres de tropeçar e experimentamos vitória confirmada” (O Homem Espiritual, l994, p. 106-7).

Concluímos dizendo que a natureza adâmica no regenerado é um fato bíblico-experimental que não pode ser negado. Negá-la ou subestima-la tem sido a causa da ruína espiritual da vida de inúmeros filhos de Deus sobre a terra, não importando qual seja a sua confissão de fé professada. O único meio de vencer a carne é andar em Espírito.

Notas

CHAFER, Lewis Sperry. Teologia Sistemática, vol. 1-2, São Paulo, Hagnos, 2003, pp.622,742.
KELLEY, J.N.D. Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, Sociedade Religiosa Vida Nova, 2 ed., São Paulo, 1994, p. 273-4.
NEE, Watchman. O Homem Espiritual, V, I, Belo Horizonte, Edições Parousia, 1994, pp.106-7.
VINE, W.E. et al. Dicionário Vine: o Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento. Rio de Janeiro, CPAD, 2002, p. 933.

Por, Francisco Gonçalves da Costa Gomes.

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