Sedentos em busca de Deus

Sedentos em busca de DeusA quietude sempre foi a maneira mais indicada para se ouvir a voz de Deus. É por isso que Ele sempre conduziu Seus escolhidos para lugares reservados a fim de lhes falar ao íntimo e transformar suas vidas. Assim viveu Enoque, Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Daniel, Elias, Paulo… Em todos esses homens e em muitos outros, encontramos características bem marcantes de uma vida separada, literalmente, para estar a sós com Deus em longos momentos. O Senhor Jesus também viveu assim. Nas narrativas dos Evangelhos O encontramos muitas vezes deixando as multidões para desfrutar de momentos íntimos com o Pai (Lucas 5.16; Marcos 1.35).

Não há vida espiritual sem a prática de uma comunicação franca e direta com Deus; sem abrir o coração – por mais dolorido que esteja – para falar com nosso Pai Celestial tudo o quanto sentimos. É o derramar a alma – ainda que em gemidos pelas frustrações, pelo vazio, pelas decepções que alguém ou nós mesmos nos causamos – que pode resultar na verdadeira percepção de Deus.

Se fôssemos mais sinceros reconheceríamos que por vezes estamos distantes de Deus, por força de nossos hábitos de vida que nos afastam da doce presença do Eterno. O apóstolo João foi bastante enfático ao dizer que os que amam o mundo não têm em si mesmos o amor do Pai (1 João 2.15). Podemos continuar bons religiosos, mas deixamos de desfrutar da comunhão amorosa de Deus.

De que vale a vida religiosa sem a vida de Deus? De que valem as tradições sem a meiga presença do Criador? De que valem nossos atos de justiça sem a audível voz do Senhor no mais profundo de nossa alma? De que valem nossas empolgações espirituais sem a ternura do Espírito Santo vivendo em nós? Sinceramente: seríamos mais bem sucedidos se não tivéssemos medo de admitir francamente diante de Deus nossa desesperada necessidade de Seu favor vivificante, muito mais do que precisamos do alimento para o nosso corpo!

A tragédia é que estamos tão iludidos com o ambiente da religião que já não nos empolgamos com estas verdades. Preferimos cantar o triunfo humano, exaltar as conquistas terrenas, declarar nossos próprios anelos existencialistas, quando precisaríamos seguir o conselho de Tiago: sentir nossas misérias, lamentar e chorar, converter nosso riso em pranto e nosso gozo em tristeza. Humilhar-se diante de Deus. É esse o meio que temos para nos chegar a Deus para que Ele se chegue a nós (Tiago 4.8-10).

Como precisamos daquele anelo que tinha o autor do Salmo 42, que se comparou a uma corça, animal da família dos cervídeos, que costuma empreender longas jornadas em busca de água para estancar a sua sede. A corça não descansa enquanto não alcança águas correntes. Ela jamais se acomoda à sequidão.

Esse animal, que vive no deserto, tem natureza nômade, e está sempre migrando de um lado para outro à procura de água. Costuma farejar de longe as verdadeiras fontes para nelas saciar sua sede. Corre desesperadamente, saltando sobre os obstáculos, enfrentando sua própria exaustão, até que se sinta saciada. E sua natureza não lhe deixa acomodar-se àquela fonte. Sai e peregrina, logo a sede novamente lhe assalta e o desespero por uma nova fonte lhe domina outra vez, fazendo-a voltar à mesma busca intensa.

Assim como a corça, vivemos em um verdadeiro deserto e temos uma natureza nômade. Nosso descanso não é aqui (Hebreu 13.14). Ademais, o ambiente que nos cerca nos suga tão facilmente, tornando-nos novamente carentes da presença de Deus. O apóstolo Pedro diz que “o justo Ló” vivia “enfadado da vida dissoluta dos homens abomináveis (porque este justo, habitando entre eles, afligia todos os dias a sua alma justa, pelo que via e ouvia sobre as suas obras injustas)” (2 Pedro 2.7,8).

É esse espírito afligido, cheio de inconformismo, que nos leva, com desespero, a buscar a presença de Deus. Triste é quando o cristão não sente mais aflição espiritual diante deste século e se mantém acomodado, conformado com o mundo. Não busca mais as correntes das águas. Torna-se apenas um religioso, que não clama mais pelas profundezas de Deus.

Aliás, religiosidade, materialismo, hedonismo e entretenimento são os principais atrativos que insistem em nos afastar da doce presença de Deus. A sedução do ambiente religioso nos leva a negligenciar a devoção. O ponto mais trágico é o do legalismo farisaico, quando se honra a Deus com os lábios, enquanto o coração está distante do Senhor (Mateus 15.8,9). É o caso do filho mais velho, da parábola do filho pródigo. Era dedicado a servir e a cumprir os mandamentos, mas tão insensível quanto aos sentimentos do pai (Lucas 15.29-32).

É como Marta, mais preocupada em mostrar serviço que desfrutar a presença de Jesus. O resultado foi um coração frio, superficial, formalista, enquanto Maria descobriu o caminho da verdadeira comunhão com o Senhor (Lucas 10.38-42; João 11.32-35; João 12.1-3). Maria sabia realmente desfrutar a presença do Deus Filho que estava entre eles.

O materialismo, o hedonismo e o entretenimento também são muito próprios desses dias que antecedem ao arrebatamento, conforme Jesus avisou, comparando esses dias com os de Noé e os de Ló (Mateus 24.36-39; Lucas 17.26-28). O materialismo consiste em nos seduzir para possuir e consumir. Há uma agitação no mundo em torno da vida econômica, trazendo inquietação e ansiedade, que reduzem a fé e nos afastam do reino de Deus (Mateus 6.25-34). O hedonismo é a busca pelo prazer. E não somente a prática, mas também a contemplação. Deus também há de julgar aqueles que apreciam o mundo de prazer (Romanos 1.28-32). O apreço pelas coisas do mundo não apenas nos afasta de Deus, mas nos torna Seus inimigos (Tiago 4.4). Como desfrutar, então, a genuína presença de Deus?

O concerto que precisamos fazer com Deus precisa ser radical. Como disse Davi: “Não porei coisa má diante dos meus olhos; aborreço as ações daqueles que se desviam; nada se me pegará” (Salmos 101.3). Em contrapartida, nosso prazer deve estar na lei do Senhor, na qual precisamos meditar de dia e de noite (Salmos 1.2).

O entretenimento foi uma das causas que levaram os contemporâneos de Noé à destruição. O Senhor Jesus disse que Noé entrou na arca “e não o perceberam, até que veio o dilúvio” (Mateus 24.38,39). Apesar da construção daquela grande embarcação ser um fato tão notório, a população da época se envolveu tanto com os atrativos diários que somente voltou a se lembrar de Noé quando veio o dilúvio.

Há, no mundo, uma crescente indústria de entretenimento que apresenta novidades a cada dia, nos envolvendo em um turbilhão de coisas fúteis e banais, que roubam a nossa atenção e nosso tempo, nos afastando pouco a pouco da presença de Deus. Não é à toa que o ser humano está mais envolvido com o ambiente virtual que com a vida real. Até dentro dos templos já é possível perceber este trágico quadro. Há uma consequência espiritual grave em decorrência desse processo, que não pode ser ignorada.

Deixemos, portanto, tudo o que nos afasta de Deus, pois Ele nos espera no jardim, o lugar secreto de onde jamais deveríamos ter saído!

Por, Silas Queiroz.

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