Lembrança de Shelosh esserê middot

Lembrança de Shelosh esserê middotO período que transcorre entre as festas de Passach e Shavout (Semanas ou Pentecostes) pode ser identificado como um tempo de reavivar algumas das mais importantes lembranças na história de Israel e de, consequentemente, oferecer ações de graças ao Altíssimo por Seus grandes feitos no passado, providenciando libertação, oferecendo cuidado pastoral durante o percurso no deserto, entregando Sua lei, direcionando a multidão dos escolhidos para a terra da promessa e, sobretudo, dado-se a conhecer. Do Egito à margem oriental do Jordão, um tesouro agregou-se ao coração do povo de forma pungente, de maneira a tornar-se o que mais valioso a jornada lhes conferiu – Deus revelou-se a eles, falou-lhes, deu-se a conhecer como a nenhum outro povo.

Sem qualquer relação com o conceito gnóstico de salvação através do conhecimento, temos por certo que o conhecimento faz parte da vida do salvo como um processo libertador (conhecereis a verdade e a verdade vos libertará) e transformador que revela os verdadeiros servos conforme estes prosseguem buscando a semelhança com o Pai (quem ama conhece a Deus) e que estende pela eternidade (pois a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus, e a Jesus Cristo, a quem enviaste). Assim, buscar conhecimento de Deus nada mais é do que buscar intimidade com o seu Ser – tal foi o anseio de um homem, filho de Joquebede, líder do povo de Israel durante a perseguição a que nos referimos.

O sábio Gamaliel identificou na resposta dada pelo Senhor a Moisés quando este pediu para contemplar-Lhe a glória outro modo de atender a ousada petição. Assim, o Senhor ‘passa sobre suas faces’, o que, para o antigo rabi significa que o Eterno, sabendo que Moisés não poderia contemplar-Lhe, iluminou gloriosamente a face do homem sedento de intimidade. Conclui que o homem que almeja a  comunhão com Deus acaba trazendo no rosto a marca de Sua presença. Deus iluminou o rosto de Moisés com a revelação, não de Sua essência, mas dos Seus atributos, no trecho bíblico que os estudiosos do Tanach e do Talmud chamam de “As treze revelações gloriosas” ou os “Treze atributos” (Shelosh essrê middot) e encontram-se no livro de Êxodo, capítulo 34, versículo 6 e 7. Eles seguem o tríplice clamor “Yahweh, Yahweh, Él” e tornaram-se parte importante nas orações do judaísmo.

O Talmud escreve que Israel deve sempre mencioná-las quando for pedir perdão a Deus, e Rabi Yehuda acrescentou que, uma vez que o Senhor fez uma aliança, mencionando nela suas qualidades, elas não podem ser desprezadas, mas precisam ser citadas em prece. São elas: (1) agraciador [Deus é livre para dar, fundar, fazer viver, criar, não contando aqui o Seu poder para fazê-lo, pois este é inquestionável, mas a liberdade que preserva de fazer ou não tais coisas]; (2) longo de narinas [Deus é longo de ânimo, longânime, não tendo pressa em punir]; (3) Abundante em ‘hesed’ [Deus é abundante em amor que atrai e perdura fielmente]; (4) e verdade [Deus é abundante em ‘emet’, palavra da qual deriva a palavra ‘amém’ e que indica a solidez, estabilidade, constância, identidade a si mesmo, tenacidade nas decisões, essência de ser fortemente real e perfeitamente fiel]; (5) detentor do bem-querer para os milhares [Deus visa outros na atribuição e distribuição de qualidades e quantidades a milhares e a gerações]; (6) carregador do agravo [Deus suporta o peso dos crimes até o momento de puní-los, sempre dando lugar ao arrependimento; agravo equivale a ‘avon’, ou seja, iniquidade, delito cometido por premeditação]; (7) da carência [Deus também suporta e tarda-se em irar-se diante da ‘pesha’, ou seja, da revolta, da vontade de ruptura e do ato manifesto de ruptura]; (8) e da falta [Deus igualmente suporta com grande beneficência a falta, ‘het’, ou seja, o ato não cumprido ou a violação de um mandamento, quer por leviandade ou por inadvertência]; (9) ele não inocenta [Deus suporta por sua longanimidade, mas não chama o mal de bem e ao culpado que não venha a converter-se aplicará o devido castigo]; (10) não inocenta [a terrível verdade é repetida – Deus não inocenta o pecador endurecido]; (11) mas sanciona o agravo dos pais sobre os filhos; (12) e  sobre os filhos dos filhos; (13) sobre os terceiros e sobre os quartos [Deus pune, e cabe ao homem, mesmo o perdoado, suportar sem  desespero as consequências permitidas pelo Senhor por seus atos, com espírito de submissão e confiança, mesmo quando algumas delas atingem outras gerações, sabendo que, onde o Eterno encontrar um coração quebrantado e contrito, esse jamais será desprezado. Os frutos de nossas ações podem ser usados como exemplo e ensino, como luzeiros de advertência proveitosos para nós e para outros. Deus sanciona, dá a sanção, seja consentindo na punição, seja liberando dela. Observe-se que é o mesmo termo usado quando o Senhor liberou (sancionou) Sara para ter um filho, portanto, há aqui, também, um sentido positivo].

Quão maravilhosa a luz que resplandeceu no rosto de Moisés! Uma luz assim, que reveste o necessitado da glória dos céus, não pode ser esquecida. Por ela espera Eva Sandler, mulher do rabino Jonathan Sandler, de 30 anos, e mãe de Arieh, 5 anos e Gabriel, 3 anos, assassinados, junto com outra criança, Myriam Montenegro, de 8 anos, num ataque a tiros contra uma escola judaica em Toulouse, na França. Grávida, Eva retornou para Israel com o filho mais novo do casal. Por essa luz e pela força que dela emana aguarda Avishai, irmão de Myriam, que ora para que o Senhor ajude seus pais a prosseguirem com suas vidas e perdoarem o inimigo. O ministro francês das Relações Exteriores, Alain Juppé declarou que o ato atinge todos, pois: “Um ataque contra judeus na França não é um problema apenas para os judeus franceses. O antissemitismo é contra todos os valores franceses”.

Perdoe-nos o ministro, mas a crueldade antissemita, quer no Brasil, na França, ou em qualquer lugar do mundo, por qualquer que seja a justificativa, é antes de tudo ofensa a Deus, que se revelou no passado aos ancestrais desse povo e os tomou para Si para chamá-los possessão particular, apregoando Seu nome em meio a eles. Por 13 características, base da concepção judaica sobre a Divindade, vale à pena, enquanto é tempo, arrepender-se e abraçar Seu perdão.

Por,Sara Alice Cavalcante.

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