Páscoa: onde está o Cordeiro?

Páscoa - onde está o CordeiroA vida de fé e prática do cristão é marcada pelo sagrado. Não se pode ter fé na Bíblia e na Teologia, como também nos atos litúrgicos e suas celebrações, sem a presença da hierofonia (isto é, a manifestação do sagrado em contraste com o profano). A ideia do sagrado é importante para fazer oposição ao profano. Lamentavelmente, no presente século, o sagrado está sendo maculado por causa de interesses financeiros, como é o caso da Páscoa e do Natal, que têm o seu real sentido bíblico empalmado por meras curiosidades e tradições, invadindo assim a Palavra de Deus (Mateus 15.6), pois  enquanto a Bíblia descreve o cordeiro como símbolo da Páscoa, achou-se mais conveniente, eclético e comercial, usar a imagem de um coelho, o que fere todo o aspecto teológico e escriturístico da Bíblia.

A Páscoa no aspecto histórico

Se desejamos realmente entender a figura do cordeiro na Páscoa, faz-se necessário recorrermos ao aspecto histórico. A Páscoa era uma comemoração comum entre os povos antigos, celebração da passagem para um novo ano agrícola e da busca por uma nova pastagem para o rebanho. Em tempos posteriores foi que veio a ter um significado diferente para o povo judeu.

Na realização da Páscoa pelos judeus, dois elementos se destacavam: os pães e o cordeiro, enquanto que, para os povos primitivos que realizavam a páscoa apenas como um novo ano agrícola, o cordeiro era comido ao redor do fogo e envolvia todo clã. Eles faziam isso preparando-se para a busca de um novo pasto.

A festa dos pães era realizada por uma semana e todo o clã participava. O significado disso era que os camponeses agradeciam pelos primeiros frutos e se preparavam para o próximo plantio e semeadura.

A Páscoa no aspecto bíblico

No aspecto bíblico, segundo êxodo 12, o cordeiro e os pães asmos tomam outro sentido. Para os judeus a Páscoa era comemorada em celebração à libertação do povo hebreu das garras de Faraó. Relembravam a fim de louvar a Deus pelo seu grande poder (Êxodo 15.21).

A instituição da primeira Páscoa aconteceu de modo simples e livre, por meio de uma ordem divina, e por isso ela poderia ser realizada no seio familiar e em qualquer lugar (Deuteronômio 16.1-7), sem que fosse necessária qualquer ordem de um rei.

Parece haver um confronto teológico entre Deuteronômio 16.1-7 e 2 Reis 23.21, 24, pois enquanto Moisés dizia que a Páscoa deveria ser realizada em qualquer lugar, o rei Josias a institucionalizou e decretou Jerusalém como o local certo para sua realização. A ordem do monarca para que esta festa fosse realizada em Jerusalém se deu por causa da desintegração do povo, pela perda do real significado desse evento e por causa do pecado.

Na contextura bíblica, a Páscoa era familiar e expressava comunhão, mas tinha o seu lado histórico, pois deveria ser realizada a cada ano. O que sacralizava essa festa era a reverência para com o sangue do cordeiro, que deveria ser colocado nos umbrais das portas, e não na soleira. O sangue nos umbrais das portas não significava apenas proteção, mas remissão dos pecados, que vem de cima. O sangue não poderia ser colocado na soleira, porque nenhuma ordem que vem de Deus pode ser pisada ou desprezada pelos homens.

O ato de se alimentar do cordeiro era deixá-lo fazer parte de sua própria vida; comer junto não expressava somente comunhão, mas também estar com os mesmos propósitos. O pão sem fermento simbolizava uma vida sem pecado, purificada, sem qualquer influência do Egito; e o comer às pressas declarava que eles não deveriam permanecer mais naquele ambiente pecaminoso.

As ervas amargas recebem diversos nomes, tais como: hortelã, dente-de-leão; em referência ao seu sabor é uma alusão cara à vida sofrida no Egito, a qual o povo de Deus enfrentou, mas essa erva poderia ser adocicada pela carne do cordeiro. É a vida de Cristo que pode tornar agradável a vida do homem pecador, pode fazê-lo agradável a Deus.

Onde está o cordeiro da Páscoa?

Na busca pela celebração da fertilidade da vida, os povos antigos buscaram em outros elementos essa representatividade: no coelho e no ovo de páscoa. O coelho foi escolhido porque ele era símbolo da lua, e antigamente quem datava o dia de páscoa era a lua. Os coelhos são mamíferos roedores que se reproduzem de forma rápida, sua gestação não passa de 40 dias, razão pela qual passou a simbolizar a preservação da espécie. O ovo representa o começo da vida, assim, quando alguém presenteia o outro com um ovo de páscoa ele está desejando uma boa passagem para uma vida feliz.

Para as crianças alemãs uma vida feliz começa com os ovos de coelhos; as crianças tchecas aguardam ovos de uma campestre, denominada cotovia. Os suíços ofertam ovos como presentes e, no Brasil, desde o início do século 19, a tradição do coelho e do ovo da páscoa já é bem aceita. Diante disso, surge a pergunta: e onde está o Cordeiro?

Quando Abraão foi interpelado pelo seu filho, dizendo: Pai, onde está o cordeiro para o holocausto? Ele respondeu: “Deus proverá” (Gênesis 22.7, 8). O patriarca não inventou nada, nem criou símbolos, somente confiou na providência divina.

Tomar um coelho e um ovo como símbolos da vida e sua preservação é pisar na ordem divina e desfigurar a contextura bíblica (Levíticos 11.5; Deuteronômio 14.7), pois Deus determinou aos israelitas o uso do cordeiro, um animal filho de uma ovelha, o qual deveria ser sem defeito, sem mácula, pois se tornariam um símbolo de Cristo Jesus (1 Pedro 1.19).

Na circunferência bíblica o coelho e o ovo não podem representar ou simbolizar a páscoa, pois ele é considerado um animal imundo, e como antigamente muitos consideravam a lua como um tipo de deus, geradora de vida, como no caso dos pagãos, cometia-se idolatria, pois confundiam as coisas criadas com o criador (Deuteronômio 4.19; Jeremias 44.17; Romanos 1.23).

No livro de Apocalipse, João fala de Jesus como sendo o cordeiro, simbolizando humildade e sacrifício (Apocalipse 5.6); os anciãos o apontavam como aquele que é capaz de concretizar o projeto divino: a remissão da humanidade. Daí a razão de João Batista deixar claro para os seus discípulos quem era o cordeiro, quando disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1.29).

Quem deseja proteção e fertilidade na vida deve alimentar-se de Jesus Cristo, Ele é a passagem para uma vida melhor (João 6.54; 14.6). Seu corpo, que é representado no pão e no vinho da Santa Ceia, tem um aspecto simbólico, didático e reminiscente, apontado para o sacrifício realizado e sua presença constante (Isaías 53.4; Lucas 22.19).

Quando o apóstolo Paulo fala que Cristo é o nosso Cordeiro Pascal (1 Coríntios  5.7), ele nos remete a uma reflexão e a um desafio, pois a páscoa aqui tem o sentido da morte do cordeiro. O aoristo indicativo passivo etýthe indica que Jesus foi sacrificado de uma vez por todas, nos dando uma nova maneira de viver.

Jesus já fez o necessário em nossa vida para celebrarmos a Páscoa sem necessidade do fermento velho, que são os atos e práticas fundamentadas em tradições humanas e curiosidades vulgares. Celebremos a Páscoa tendo o Cordeiro como o verdadeiro símbolo do Cristo vencedor.

Por, Osiel Gomes da Silva.

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