Refletindo sobre os “desigrejados”

Não podemos perder o paradigma de nossa fé, que é o Evangelho, apenas ele

Refletindo sobre os “desigrejados”O último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE) no ano de 2011 trouxe uma série de novos dados que, somente agora, três anos após sua divulgação, começam a ser discutidos e compreendidos no meio acadêmico.

Os números, de uma maneira geral, não fugiram do esperado: a quantidade de católicos continua a cair; e aqueles que migram do catolicismo aderem, em sua imensa maioria, ao protestantismo. As igrejas protestantes que mais cresceram são as ligadas à doutrina pentecostal.

Há, todavia, um aspecto novo que despertou a atenção dos especialistas: cerca de 9 milhões de pessoas declaram-se evangélicas, mas não participantes de nenhuma igreja. Seriam os “evangélicos desinstitucionalizados”. Tomando o Ceará como exemplo, segundo o último censo, existem 270 mil evangélicos que não se declaram participantes de nenhuma denominação específica. Para se ter uma ideia da imensidão desse universo de evangélicos “desigrejados”, o número total deles no Ceará é quase o triplo da quantidade de evangélicos ligados a igrejas tradicionais (batistas, presbiterianos, luteranos etc). A partir de tal quadro, pode-se perguntar: De fato, o protestantismo brasileiro está crescendo?

Temos mais evangélicos no Brasil, já somando 25% da população absoluta do país (24 milhões), mas o número de evangélicos sem ligação institucional quadruplicou nos últimos 10 anos.

Outra informação relevante para compreendermos o atual quadro do crescimento do protestantismo brasileiro vem da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Essa é a agência reguladora e fiscalizadora do mercado de cinema e audiovisual do Brasil, responsável pelo controle da programação dos canais de tevê aberta em nosso país.

No último relatório sobre a programação da tevê aberta, a Ancine informou que 13,55% da programação das 10 maiores emissoras comercias do Brasil são destinados a conteúdo religioso (dos 32 gêneros televisivos pesquisados, o “religioso” foi o que obteve maior percentual de participação na grade da programação), e que a maior parte percentual é controlada por denominações evangélicas.

A partir desse outro dado sobre o desenvolvimento do protestantismo no Brasil, pode ser levantada outra questão relevante: O que os evangélicos fazem quando estão na tevê? A programação televisiva do mundo evangélico é kerigmática? Isto é, quando os evangélicos vão a televisão, eles proclamam a Palavra de Deus ou estão mais interessados em “vender” outros produtos da fé?

É nesse contexto de aparecimento midiático do protestantismo – entendendo “aparecimento” a partir dos dois contextos anteriormente explorados – que devemos debruçar-nos sobre o caráter proclamativo da existência da Igreja enquanto manifestação histórica do corpo místico de Cristo.

Por mais que um caráter beligerante e militante esteja associado à religiosidade evangélica desde de seu surgimento (afinal de contas, Martinho Lutero e seus contemporâneos que denunciaram os abusos da Igreja Católica são pejorativamente denominados de protestantes), não nos cabe construir no campo religioso brasileiro uma competição de crescimento numérico, e sim refletirmos sobre os caminhos que devem ser seguidos para a expansão e concretização do Reino de  Deus no Brasil.

Durante muito tempo, se reproduziu um discurso em nossas comunidades evangélicas de que era necessário chegarmos aos meios de comunicação em massa, às televisões abertas, em horários nobres, para então mudarmos a história do Brasil. Esse tempo chegou, temos “programas”, “shows”, canais inteiramente evangélicos, e será que algo mudou?

Nosso tempo na TV visa a anunciar o Evangelho, pregar com maior eficiência o Reino de Deus àqueles que estão distantes e isolados? Parece que não. O que temos produzido, em sua imensa maioria, infelizmente, não passa de simulação do lixo cultural da sociedade contemporânea: sujo, vazio e ineficaz para transmitir a graça.

Se estamos “crescendo”, por que um grande número de pessoas, que já chega à casa dos milhões, não acredita mais nas instituições para a expansão do cristianismo? Que palavra é essa que estamos proclamando, que ao invés de aproximar, envolver e redirecionar as pessoas, em muitos casos está afastando-as? É hora de repensarmos nosso discurso!

A experiência religiosa contemporânea tem se revelado um caminho desafiador e ao mesmo tempo perigoso para aqueles que buscam uma espiritualidade mas bíblica e evangélica.

A sucessiva apropriação de mecanismos do mundo dos negócios no cenário religioso tem transformado a “mensagem da cruz” em propaganda massificante. Se o modelo bíblico aponta para a necessidade de anunciar uma “boa nova” que seja significativa para as necessidades específicas de cada pessoa, muitas igrejas têm entrado pela rota aberta pelas multinacionais: fidelize o cliente, venda de produtos agregados uns aos outros (venda-casada), divulgue sempre sua marca.

Desse modo, ao invés de pregação genuína do Evangelho que abençoa e liberta o homem, vemos em muitos púlpitos mensagens apelativas e intimidadoras que anunciam maldição àqueles que não retornarem à próxima “concentração de fé”. A graça de Cristo, universalmente acessível, foi substituída por uma lógica do mundo financeiro aplicada à espiritualidade, onde se o indivíduo deseja “empreender na fé”, é necessário “depositar” esperança, “creditar” primícias e, então, só então, “receber de volta cem vezes mais”.

Além da Salvação, “vende-se” casamento feliz, prosperidade nos negócios, humilhação dos inimigos, saúde corporal perfeita e outros subprodutos conforme o cliente deseje. Sem dúvida alguma, isso não é Evangelho!

Não percamos o paradigma de nossa fé: o que devemos anunciar é o Evangelho. Uma mensagem que de fato seja boa, qualitativamente superior a tudo aquilo que existe neste mundo, absolutamente nobre e justa num mundo corrompido e corrupto, inigualavelmente bela de se viver mesmo diante de toda monstruosidade de nosso tempo.

O cerne dos nossos discursos deve ser a obra redentora de Jesus. Cuidemos para que aquilo que Cristo fez ou pode fazer por nós em nossa vida material não se torne mais relevante do que aquilo que ele fez no calvário.

A boa Nova que nosso Senhor Jesus Cristo veio anunciar, acima de tudo, nos traz de volta a humanidade roubada lá no Éden. Não somos pura animalidade, desejo latente incontido; somos gente, não coisas.

O Evangelho no leva a olhar nos olhos um do outro, a darmo-nos as mãos mesmo sendo conhecedores de nossas diferenças. Ele nos afasta, não individualiza, não atomiza. O Cristianismo nos faz reconhecer que qualquer comunidade cheia de homens e mulheres falíveis é melhor do que nosso terrível coração isolado. “Eu sozinho”, egoísta e narcisista, é bem pior do que qualquer “igreja de gente pecadora”.

Por, Thiago Brazil (CPAD).

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