Estruturas internas contra Israel

Estruturas internas contra IsraelSegundo o Rabino Nilton Bonder, em seu livro A Cabala da Inveja, o abalo despertado por essa emoção no interior do ser humano a eleva à condição de mais do que um sentimento de desconforto, traduzindo-se como uma força que cria “enormes estruturas de injustiça em nossas mentes”. O interessante nessa afirmação é a ideia do soerguimento desse edifício interno, certamente precedido pela implosão das estruturas de empatia, amor, solidariedade e capacidade de reorganizar-se diante das vitórias alheias. Assim, o semblante de Caim “descaiu” (desmontou, caiu) devido à aceitação do sacrifício de Abel, seu irmão, pelo Criador. Se pudermos recordar, Caim (“aquisição”) recebe seu nome como resultado da expectativa de Eva, sua mãe, de que ele seria o varão a calcar sob os pés a cabeça da serpente. Daí o segundo filho ter recebido o nome de Abel (“vaidade”, “sem valor”), pois não repousava sobre sua cabeça nenhuma esperança ou coisa maior. Tal diferença já poderia ter produzido numa mente grata, pronta a alegrar-se, uma reação favorável à aprovação recebida pelo próximo. Opostamente, o primogênito de Adão iniciou o somatório das reações íntimas que edificam, passo a passo, a inveja.

Na língua hebraica, qna’ é o termo para emoção oriunda da certeza de que algo nos é devido – também inveja, ciúme, zelo por propriedade ou posição, medo de perder algo. Qana’, por sua vez, é o ciumento, embora devamos diferenciar o termo de sua expressão com o duplo ‘nun’, qanna’, quando, então, ganha sentido positivo e aplicação ao Senhor. Assim, Ele é El Qanna’, o Deus Ciumento (Êxodo 34.14), porque é zeloso de todas as coisas, assim como é justo o pertencimento delas e intolerável qualquer adoração a falsos deuses. Em se tratando do Eterno, qanna’ tem o sentido positivo de justiça. O termo é distinto de qanah, terminada em ‘hei’, lugar em Israel onde Jesus realizou seu primeiro milagre, lugar de correntes de águas e de juncos, isto é, canas, donde seu nome.

A Bíblia nos adverte que a inveja é podridão para os ossos (Provérbios 14.30) e é própria do homem natural (psychikos), para quem as coisas do Espírito são mória (loucura, absurdo). Sua incompreensão (1 Coríntios 2.14; 3.3) manifesta-se em obras da carne, conforme relatadas em Gálatas (Gálatas 5.26). Estão, portanto, mais próximos à Palavra aqueles que falam em “obra de inveja” do que aqueles que se referem ao “sentimento de inveja”. A diferença está em que essa “obra” não equivale a uma ação exterior, senão a algo engendrado no coração impuro. A inveja olha para outras pessoas e se detém em coisas e características que gostaria de possuir e sente desconforto quando alguém sente prazer. Passo a passo, a voz da carne questiona: “Por que isso aconteceu com ele e não comigo? Eu sou o verdadeiro merecedor do benefício ou do reconhecimento. Por que fui deixado de lado? Por que fui esquecido? Sou incompreendido. O mundo está em dívida comigo”. A reação diante de pessoas que estejam experimentando virtude, prazer ou reconhecimento é a certeza de injustiça, que uma vez instalada, acusa, busca explicações, justificativas, remorsos, rancores. O invejoso nega a inveja, dizendo: “Somente queria consideração. Lutei tanto por isso. Não é justo que outro receba os aplausos que me são devidos”. O que leva alguém a construir uma “obra de inveja” são as posses, as qualidades, o conhecimento, a posição e o reconhecimento alheios e, igualmente, a maneira como as coisas sucedem na vida do próximo. As reações advindas da inveja são a murmuração, a desqualificação do outro, a minoração do prêmio alcançado pelo outro, a prática de denegrir, de desonrar, de suspeitar de meios, métodos e intenções, até chegar à ira e ao assassinato. Nesse extremo, a obra carnal e interna alcança o exterior, voltando-se contra quem entregou o prêmio ao irmão ou ao meu próprio irmão. Do alto da estrutura da inveja, a ira ataca seu alvo com o veneno da amargura e, independentemente do uso de armas físicas, pode matar. Segundo o psicólogo Alexandre Bez, autor de Inveja – o inimigo oculto, a sensação de injustiça e de dívida não quitada conduz à raiva direcionada àquele que tem ou que é o que gostaríamos de ter ou ser.

Ainda que advertidos a nada fazer por inveja (Filipenses 2.3), somos alertados de que haverá, mesmo, quem até pregue a Cristo por esse vil motivo (Filipenses 1.15). Pensando num antídoto que se reafirme cada vez que uma comparação quiser provocar no íntimo o início de uma empreitada cujo fim pode ser o apodrecimento dos ossos além de colocar em risco a vida de alguém que caminha triunfantemente ao nosso lado, chegamos ao regozijo como resposta sadia à tão cruel enfermidade. Cientes de que nem todos receberão uma mesma porção da parte de Deus e, ainda, nem todos alcançarão determinados objetivos ou não os alcançarão com as mesmas dificuldades ou facilidades, precisamos aprender a nos alegrar com as características e conquistas de nossos irmãos. O Pai é sempre justo, é El Qanna’, todos pertencemos a Ele e a todos nós tem concedido graça e bênçãos. Isso vale para homens, e isso vale para povos. Mais do que argumentos racionais e bíblicos para a Teologia da Substituição, que afirma equivocadamente que a Igreja ocupa, hoje, o lugar perdido por Israel, e que os planos do Eterno para com a descendência de Abraão cessaram, mais do que argumentos, repito, encontro um velho edifício, de cujas torres partem dardos tenebrosos em seu amargor. Espantoso, mas real, encontramos nos lábios – porque no coração – de muitos o fruto de antigas estruturas de inveja para com Israel e para com o povo judeu. Claro, refiro-me a pychikos, não os espirituais. Mas é necessário e libertador chegar a um ponto das discussões em que se possa observar, com tristeza admitir e com amor perdoar as motivações invejosas de uma recorrente linha teológica que perverte a Escatologia e reforça mecanismos ancestrais de ódio pelo povo escolhido. Mas, não apenas aí: também na política, na economia, na história, a sombra do velho edifício é vista simultaneamente e em contrapartida, Deus continua nutrindo, galardoando, dotando e progredindo Sião. Além disso, prossegue salvando todo aquele que, contrito, fizer subir às Suas narinas o odor do sangue do Cordeiro da remissão, ao qual Ele jamais rejeitará.

Por, Sara Alice Cavalcante.

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