“Pedra de Gabriel” mostra anseio de judeus por ação divina

Ela está em exposição no Museu até o final de fevereiro de 2014; especialistas desfazem interpretações tresloucadas para inscrição

thumbsf82cDesde 1 de maio, está em exposição no Museu de Israel, para visitação ao público, e pela primeira vez desde o anúncio de sua descoberta em 2007, “A Pedra de Gabriel”. Esta pedra é, na verdade, um imenso tablete com uma inscrição em hebraico antigo, datada do primeiro século antes de Cristo, que descreve uma visão de um ataque a Jerusalém, durante o qual Deus aparece com os anjos e resgata a cidade. Liderando os anjos, ou pelo menos agindo como o personagem central, está o anjo Gabriel, que aparece pela primeira vez na Bíblia no Livro de Daniel (Daniel 8.16; 9.21).

A “Pedra de Gabriel” é considerada o mais importante achado arqueológico na região desde a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, nas décadas de 1940 e 1950. Ela tem quase dois metros e traz, em suas 87 linhas de texto em hebraico, referências aos livros de Daniel, Zacarias e Ageu. Escrito em tinta sobre pedra, o texto está em primeira pessoa e o narrador identifica-se como o anjo Gabriel.

Treze anos após ser encontrada na Jordânia, na região próxima ao Mar Morto, estudiosos ainda estão debatendo o que significa a inscrição. As divergências se dão, sobretudo, pelo fato de que a maior parte do texto da inscrição não pode ser lida, o que tem levado os pesquisadores a viajarem na imaginação de seu significado. Grande parte da tinta correu em pontos cruciais na passagem e o tablete tem duas fendas diagonais que fatiam o texto em três partes. Curadores do museu lembram que, por essa razão, apenas 40% das 87 linhas são legíveis e, mesmo assim, muito mal.

Desfazendo uma invenção

Em 2008, o professor Israel Kohl, da Universidade de Jerusalém, sugeriu que uma linha que diz “Em três dias… você vai surgir” poderia ser uma referência à ressurreição. Alguns, então, logo aproveitaram essa interpretação para sugerir que a inscrição poderia ser uma prova de que a história cristã de Jesus, o Messias que ressuscitou dos mortos ao terceiro dia, fora pega emprestada pelos discípulos de Jesus. Desde 2008, porém, essa interpretação perdeu força até desaparecer, justamente porque não há como ler o contexto da frase, o que impossibilita qualquer decifração precisa do que realmente diz a inscrição nessa parte.

Na chamada “Coluna A” da inscrição, as primeiras seis linhas são inteligíveis, ninguém foi capaz de traduzi-las. As linhas de 7 a 44 são inteligíveis apenas em parte – os tradutores puderam entender apenas algumas pequenas frases, não sendo capazes de dar uma tradução completa. Já a “Coluna B” é composta por mais 43 linhas. Destas 43 linhas, as linhas 45 a 50 são ininteligíveis, enquanto as outras só podem ser traduzidas de forma incompleta.

Segundo os especialistas Ada Yardeni (primeira a trabalhar no estudo da inscrição) e Ben Whiterington, a única coisa que pode ser lida nas linhas 79 e 80 da inscrição (onde se encontra a frase recortada) é o que se segue (as partes em reticências são as que não é possível serem lidas na inscrição):

Linha 79: “(…) diante de Você, os três [acredita-se que a palavra que vem a seguir seja “sinais”, embora não seja correto asseverar], três (…)”

Linha 80: “Em três dias (…) [aqui, após essa parte que não dá para ser lida, acredita-se que surge um vocábulo que significa “surgira”] (…) Eu, Gabriel (…)”.

Ou seja, o que temos é “(…) diante de Você, os três sinais[?], três (…). Em três dias, (…) surgirá[?] (…) eu, Gabriel, (…)”. Diante de tal texto, é incrível como um estudioso cético do cristianismo consegue ler, e atribuindo credibilidade à sua interpretação, que o referido texto estaria, provavelmente, querendo dizer em sua linha 80: “Em três dias, ele ressuscitará. Eu, Gabriel, o ordenarei”. É preciso ter muita fé. É ter o poder de ver o invisível e arvorar-se a criar o inimaginável para sustentar uma tese. Não foi à toa que essa tese morreu rapidamente.

Além do mais, como Patrick Zukeran, doutor em Teologia e professor do Instituto Bíblico do Havaí (EUA), afirmou sobre o caso, “ainda que a interpretação de Kohl estivesse correta, ela não afetaria a evidência e o ensino sobre a ressurreição de Jesus. Se ela fosse correta, ainda teria que ser confrontada com o debate sobre a crença judaica a respeito do Messias. A nação popular da época entre os judeus estava ensinando sobre um Messias dravídico que iria derrubar os inimigos da nação judaica e estabelecer um reino davídico. No entanto, sabe-se que algumas escolas judaicas minoritárias criam em um Messias sofredor. E as próprias profecias do Antigo Testamento, como a de Isaías 53, ensinam sobre uma morte e ressurreição do Messias. Portanto, se a interpretação de Kohl estivesse correta, este tablete estaria apenas mostrando esse Messias sofredor, que iria ressuscitar dos mortos em três dias. Isso não apresenta ameaça alguma para o cristianismo. Além do mais, Kohl ignora que há registros de ressurreição dentre os mortos no Antigo Testamento em 1 Reis 17 e 2 Reis 13, só pra citar dois casos; portanto, ele não deve ficar tão surpreso de haver uma crença judaica pré-cristã em um Messias ressuscitado crida por uma minoria de judeus daquela época”.

O teólogo Norman Geisler assevera ainda: “O Antigo Testamento previu que o Messias morreria em Isaías 53 e Daniel 9, e que ressuscitaria em Salmos 2 e 16. Além disso, Jesus mesmo, em Mateus 12.40, afirmou que os três dias de Jonas no ventre do grande peixe prefiguravam sua morte e ressurreição”.

O significado real da “Pedra de Gabriel”

O que está mais do que claro sobre a inscrição da referida pedra é que ela descreve uma visão apocalíptica de uma ataque a Jerusalém em que Deus aparece com os anjos sobre os carros para salvar a cidade; e que o personagem central é o anjo Gabriel, que em determinado momento se apresenta dizendo: “Eu, Gabriel”. Aparentemente, trata-se de uma conversa do anjo Gabriel com um profeta.

A inscrição de pedra é a segunda referência mais antiga ao anjo Gabriel, que aparece primeiro em Daniel. Esse registro, posterior ao período do exílio e durante a existência do segundo Templo de Jerusalém, demonstraria “uma explosão de anjos no Judaísmo do segundo Templo, em um momento de grande angústia espiritual para judeus em Jerusalém à procura de conexão divina”, acredita Adolfo Roitman, curador do museu.

A peça é o objeto central da exposição “Eu sou Gabriel”, que abordará a figura desse anjo nos primeiros anos do judaísmo rabínico, do cristianismo e do islamismo.

A exposição foi inaugurada dia 1º de maio e vai até fevereiro de 2014 e apresenta os momentos em que o anjo Gabriel aparece nos escritos do judaísmo, do cristianismo e do islamismo primitivos. Ela exibe um fragmento do Mar Morto que menciona o nome do anjo; o Codex de Damasco do século 13, um dos mais antigos manuscritos ilustrados da Bíblia hebraica completa; o Novo Testamento manuscrito da Bretanha, do século 10, que traz o texto do Evangelho de Lucas em que Gabriel anuncia a concepção de João Batista e aparece à virgem Maria anunciando a concepção de Jesus; e um manuscrito iraniano datado do século 15 ou 16,  em que o anjo Gabriel, chamado Jibril (“Gabriel” em árabe), revela “a palavra de Deus” a Maomé.

“Gabriel não é arqueologia”. Ele ainda é relevante para milhões de pessoas no mundo que acreditam que os anjos são seres celestiais na Terra”, disse Roitman. “A Pedra de Gabriel”, conclui Roitman, “é o ponto de uma tradição contínua que ainda é relevante hoje”.

Outro detalhe é que a “Pedra de Gabriel” claramente mostra o anseio dos judeus por uma ação divina no primeiro século a.C., devido ao desconforto natural de viver sob o jugo do Império Romano. As referências a Daniel, Zacarias e Ageu mostram também a importância e a influência das profecias dessas obras do período do exílio (Daniel) e do pós-exílio (Zacarias e Ageu) sobre os judeus no período interbíblico.

Em síntese, a “Pedra de Gabriel”, longe de ser uma descoberta arqueológica “bombástica”, como se quis criar a 5 anos, é, na verdade, uma das muitas evidências já encontradas que ajudam a apenas entender melhor o contexto judaico no período interbíblico, isto é, o espaço de tempo entre o Antigo e o Novo Testamento.

A história da pedra

A “Pedra de Gabriel” havia sido adquirida por um colecionador suíço-israelense, chamado David Jeselsohn, que declarou tê-la comprado em Londres, de um antiquário jordaniano, no ano de 1998. Ela foi descoberta pelos especialistas quando já estava em Zurique, nas mãos de Jeselsohn.

De acordo com pesquisadores, a peça procederia da margem leste do Mar Morto, na Jordânia. Em 2007, a descoberta foi finalmente anunciada, tonando-se logo notícia em todo o mundo. De lá para cá, ela recebeu os nomes de “Pedra de Jeselsohn”, “Pedra da Revelação de Gabriel”, “Pedra da Visão de Gabriel” ou, simplesmente, “Pedra de Gabriel”, como é mais conhecida hoje.

Por, Mensageiro da Paz

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